Ser culto em 10 máximas: a minha lista

-Aprender a ler de forma autodidata ainda no ventre materno. Preferencialmente com Homero, Faulkner e Enid Blyton (todos Os Cinco, nada do Noddy), em edições impressas em material impermeável ao fluido amniótico e arquivadas com zelo extremoso nas estantes da biblioteca uterina.

-Ler aos 12 anos o Crime e Castigo. Lê-lo outra vez, meia hora depois, de cabeça para baixo. Sentir a descida gradual do sangue à cabeça como um paralelo ao turbilhão interior de Raskolnikov.

-Ver o máximo das filmografias de Marc Lamaar, Kawaguchi e Destroilles. Convencer pessoas de que Marc Lamaar, Kawaguchi e Destroilles são cineastas reais e não dois nomes inventados e o nome parcialmente lembrado de um guarda-redes japonês do mundial de 98. Porque ver (Cheirar? Tragar?) cinema não deve restringir-se às fronteiras limitadoras do que existe ou deixa de existir ou ao banal exercício de ficar sentado à frente de um ecrã onde são projetadas imagens em movimento.

-Fazer rádio como quem faz amor.

-Eleger a audição como mais acústico dos sentidos. Perceber que a música nos rodeia de modo tão completo (e complexo) como as nuvens de germes inevitáveis da existência e que, tal como os germes, também pode provocar-nos doenças. Amar ao som de Chico Buarque, mas não amar Chico Buarque (cruel desatino das congruências vitais). Amar, ao invés e na medida do possível, um outro Chico, menos melódico e, por isso mesmo, menos Buarque e mais Antunes.

-Alimentar uma paixão adolescente pela espiritualidade dos corais religiosos cavernícolas etíopes. Conhecer os versos imortais de Adanech Mariam, a freira louca de Harar. Engaiolar um canário e chamar-lhe Selassie.

-Ouvir as pessoas. Dialogar com os indivíduos. Conversar com os seres. Perceber em cada uma dessas trocas preciosas que todos somos construções de carne e espiritualidade. Como um hambúrguer com alma. Ou um salpicão com amargura existencial.

-Descobrir o número de telefone de Lobo Antunes na lista telefónica (Lisboa, Vale do Tejo e Angola Colonial-Páginas Brancas e Pretas), ligar a marcar um encontro com promessa de carícias. Faltar.

-Ter sido aluno do insigne pedagogo andaluz Robles Velasco y Ojete na faculdade. Aprender com ele que a Terra é plana, que a Maurícia é só uma e que cu não leva acento (mas pode levar muitos outros acrescentos, dependendo da criatividade e da afoiteza de cada um). A gratidão não conhecerá fim.

10ª-Aprender-me todos os dias enquanto humano, primata e mamífero em tudo o que estabeleça uma ponte entre sentir e ser ou, em sentido inverso (e tantas vezes com perturbações de tráfego, sobretudo em hora de ponta), entre ser e sentir. Visitar a Trafaria. Enviar de lá um postal ilustrado para um planeta fora do sistema solar.

Um comentário

  1. Já Var De Olas diz:

    FÂÂÂÂÂÂÂÂÂQUE!
    Se a alma se alimenta, o corpo também precisa. Não esquecer de pôr a fedora ou o panamá, os óculos de sol, desdobrar o Tempos de Nova Iorque (ou, à falta desse, o Tempos da Cova da Irina) enquanto se mordisca levemente o pastel de nata e beberica o café em tragos tão pequenos que nem dá para escorrer até à bolsa digestiva.

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