Embaumons le pamplemousse (eleições francesas: como e para quê?)

Eles deram ao mundo o croissant e o beijo de língua, mas também as peneiras intelectuais e o colaboracionismo de Pétain. Júlio Verne era francês, mas Jacques Brel decidiu nascer belga por protesto. Quer os consideremos irrelevantes ou ainda o farol civilizacional que outrora foram, as presidenciais francesas deste ano merecem alguma atenção num mundo pós-Brexit e pós-Trump, esperando-se que permitam perceber se o populismo xenófobo é moda passageira ou algo a que devamos acostumar-nos. Analisemos, então (e porém) os resultados da primeira volta e meditemos com esmero. Ou, como dizem os próprios franceses: Ma grand-mère a dévoré une baleine entière pour le petit-déjeuner.

Emmanuel Macron (En Marche!)

Jovem e tenro, Macron conseguiu dar suficientemente nas vistas para vencer à justa a primeira volta. O seu centrismo e moderação, aliados a um talento inegável para a pastelaria, convenceram muitos franceses a confiarem-lhe o voto. Tem um cágado de estimação a que chamou Petit Miterrand.

Marine Le Pen (Front National)

O anticristo loiro, criado em laboratório com a mistura num tubo de ensaio de suor de sovaco de Jean-Marie Le Pen, aparas do Mein Kampf e esperma de muçulmano. O seu maior mérito foi ter conseguido conter os seus naturais impulsos para não assustar os eleitores mais moderados, mas sem trair demasiado a sua essência. Se vencer a segunda volta, o mundo acaba imediatamente.

François Fillon (Les Républicains)

O candidato conservador chegou a ser apontado como possível vencedor antes de se saber que, enquanto titular de cargos políticos, gosta de pagar salários avultados a familiares para transportarem o seu apelido. Apesar do tombo, conseguiu um honroso terceiro lugar. Urina sempre sentado para evitar respingos.

Jean-Luc Mélenchon (La France Insoumise)

Jean-Luc é um esquilo contestatário dos bosques frondosos da Normandia, onde conseguiu ser eleito rei das criaturas da floresta e encher as bochechas espaçosas com um número considerável de avelãs. O seu resultado não deixa de ser notável, conseguindo canalizar o voto fofinho.

Benoît Hamon (Parti Socialiste)

Caídos em desgraça, os socialistas apresentaram como candidato uma projeção computorizada de como seria François Hollande depois de se submeter a cirurgia cosmética. Os franceses não apreciaram a brincadeira e o resultado modesto traduz a bufa de protesto conjunta do eleitorado.

Baudrillard de la Machine (On Va Faire La Vaisselle)

Anarco-otimista e antigo groupie de Art Sullivan. Conseguiu cativar alguns eleitores com o seu tipo específico de populismo ligeiro com laivos de nouvelle cuisine e art deco.

Astérix Cochon-Tronchon (Obladi Oblada/Travailleurs Nudistes Unis/L’Amour)

O seu manifesto eleitoral era um capítulo dos Miseráveis de Vítor Hugo. Teve votação significativa nos centros populacionais da Côte d’Azur, entre os iletrados e os distraídos. Apesar de nunca ter comido pernas de rã, não se opõe à inclusão de anfíbios na dieta humana, o que fez muitos opositores acusarem-no de não ser suficientemente firme no combate à ameaça terrorista.

René Artois (You Stupid Woman!)

Nem os escândalos sexuais consecutivos conseguiram arrancar o candidato da resistência hoteleira ao boletim de voto. Diz-se que tem um irmão gémeo colaboracionista e que maltrata a sogra idosa. Falhou o objetivo de chegar à segunda volta com os votos das pessoas que veem demasiada televisão.

Henri-Michel Antunes (Nous Sommes Les Champions)

Lusodescendente incurável e candidato de galhofa para chatear os supervisores franceses lá da obra. Conseguiu mais de 800 mil votos apenas de primos direitos e prometeu ao eleitorado construir uma casa de telhado bicudo na aldeia dos seus antepassados.

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