Inépcia: s.f. (do latim "ineptia") 1-Falta de aptidão ou habilidade. 2-Imbecilidade 3-Acto ou dito absurdo.
www.inepcia.com

Antevisão: Eleições europeias 2004

Com as eleições à porta, a Inépcia presta mais uma vez um serviço público inestimável aos portugueses com a publicação de uma lista exaustiva dos partidos candidatos acompanhada por uma breve nota crítica em relação a cada um. Quem vencerá e porquê? Quem sairá derrotado e porquê? Quem será a figura das eleições pela positiva e pela negativa? Qual será o balanço final feito pelos líderes de cada força política? Estas e outras questões só poderão ser respondidas de forma satisfatória quando o processo estiver concluído. Até lá, restam as conjecturas. E, como dizia uma personagem influente (ainda que ligeiramente mal-cheirosa) da política nacional, “as conjecturas são como as hemorróidas. Quando aparecem é chato e quando desaparecem, é um alívio do caraças.” Velhadas do raio que nunca disse nada de jeito na vida e não ia começar depois de velho. O grandessíssimo sacana.

Coligação “Força Portugal” (PPD-PSD/CDS-PP)

Tentando recriar o sucesso obtido nas eleições legislativas, os partidos da coligação governamental partem à conquista de uma vitória que permitirá contrariar as vozes críticas que se têm levantado ao longo dos últimos anos contra a política governativa. Se a vitória não surgir, das duas uma. Ou os líderes dos dois partidos acabam a responsabilizar-se um ao outro, pondo em risco a continuidade do governo, ou fazem de conta que não é nada com eles e tentam virar as coisas em seu favor como é habitual acontecer em Portugal, país onde nunca existem derrotados na política. João de Deus Pinheiro, antigo ministro de Cavaco Silva e comissário europeu põe a sua experiência internacional, a sua barba imponente e um handicap de respeito no golfe ao serviço de um projecto ambicioso.

Partido Socialista

O maior partido da oposição luta por um resultado que mostre de forma inequívoca que os cidadãos estão descontentes com o governo. Com a credibilidade abalada pelo envolvimento de vários dos seus dirigentes nas investigações do processo Casa Pia, os socialistas continuam a ser a força política mais bem colocada para roubar a maioria dos votos à coligação PSD-CDS. António Costa, antigo ministro e figurante nos filmes de Sandokan, vai tentar mostrar, como se dúvidas houvesse, que o charme oriental na política portuguesa não é exclusivo de Narana Coissoró.

Coligação Democrática Unitária (PCP/PEV)

Espicaçados por referências pouco abonatórias feitas recentemente pelo primeiro-ministro, os comunistas poderão recuperar parte dos votos perdidos com a crise ideológica dos últimos anos. O timbre beirão de Carlos Carvalhas e as suas já célebres tiradas anti-Durão poderão não ser suficientes para disfarçar a falta de jeito crónica da cabeça de lista Ilda Figueiredo. Ah, e também lá estão os “Verdes.”

Bloco de Esquerda

O partido com a menor representação parlamentar e com o maior crescimento dos últimos anos pretende estar representado na Europa para fazer ouvir as suas posições por vezes polémicas. Apresentar como cabeça de lista o irmão de uma das figuras mais odiadas do governo poderá ser um risco num país em que os eleitores médios não costumam ser as pessoas mais lúcidas do mundo e tendo em conta que os próprios militantes bloquistas já têm agredido verbalmente Miguel Portas, julgando tratar-se do irmão ou não fosse o Bloco também a força política com os níveis mais altos de consumo de substâncias alterantes a seguir ao CDS.

Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses-Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado

Garcia Pereira está de volta com o MRPP. O seu papel é sempre o mesmo. O de grilo falante que lá vai dizendo umas coisas acertadas que ninguém ouve porque a comunicação social não lhe dá grande atenção. O facto de as pessoas reagirem aos esforços de campanha do partido com comentários como “Isso não era aquele partido que havia a seguir ao 25 de Abril?” também não ajuda.

Partido da Nova Democracia

O novo partido de Manuel Monteiro vai pela primeira vez a eleições pouco tempo após a sua fundação. O objectivo será conquistar votos no eleitorado de direita entre os desiludidos com a prestação dos partidos no governo. O problema é que ninguém parece levar Monteiro a sério e os portugueses podem dizer ao Manel alguma coisa que ele não goste de ouvir.

Partido Popular Monárquico

Depois de apresentarem o fadista Nuno da Câmara Pereira como cabeça de lista nas últimas eleições legislativas, o PPM trocou o herdeiro legítimo ao trono de Portugal (que entretanto também trocou os monárquicos pelo PSD) pelo seu irmão Gonçalo que lá vai surgindo nos tempos de antena apelando ao voto no único partido que garantirá que “o fado e as touradas estarão representados na Europa” (sic). O cabeça de lista é aquele senhor que aparece ao lado do marialva Gonçalo na televisão mas ninguém se importa muito com isso.

Partido Humanista

Como seria o Bloco de Esquerda sem vícios? Provavelmente, seria muito parecido com o Partido Humanista. Os mesmos ideais, as mesmas posições polémicas mas com um ar mais lavadinho. O tempo de antena é poliglota mas lá se vai percebendo qualquer coisinha do que propõem mesmo que não se fale alemão ou húngaro. A escolha da cor laranja para o partido talvez não tenha sido a melhor.

Movimento Partido da Terra

E o que aconteceria se, de repente, os militantes do PPM percebessem que a defesa da cultura tradicional portuguesa e dos ideais monárquicos não é assim tão importante e começassem a preocupar-se mais com as plantinhas e a qualidade das praias? O MPT volta a apresentar-se às eleições. Desta vez, o objectivo é conseguir pelo menos um voto fora da linha de Cascais.

Partido Democrático do Atlântico

O último vestígio do independentismo açoriano pós-25 de Abril, o PDA lá vai aparecendo ocasionalmente mostrando a sua determinação em lutar pelos interesses de Portugal, com especial incidência nos interesses da Madeira e, sobretudo, dos Açores. Isto porque a Constituição proíbe a existência de partidos regionais. Mas nós sabemos muito bem o que eles querem e estamos atentos. Nunca nos levarão o Pauleta! Ouviram, açorianos?!

Partido Nacional Renovador

E por falar em partidos proibidos pela constituição, há que referir que em Portugal não podem existir movimentos políticos que promovam atitudes racistas ou defendam ideais fascistas. Não que o PNR seja assim, claro. Trata-se de um partido como os outros que tenta apelar ao voto dos patriotas exacerbados, saudosistas de “outros tempos” e yuppies frustrados que as namoradas trocaram por matulões angolanos. Deste último grupo fazem parte os dirigentes que dão a cara pelo partido, à frente das quais se encontra o cabeça de lista às eleições europeias que se apresenta como “doutor Paulo Rodrigues” e que já apertou a mão a Jean-Marie LePen, como se pode ver no tempo de antena. Não é que os militantes do PNR não gostem de pretos e imigrantes. Acham que os portugueses vêm primeiro mas os direitos dos imigrantes que vivem em Portugal e das minorias étnicas devem ser respeitados. Não é que os militantes do PNR defendam que os estrangeiros e portugueses não-brancos devam ser mandados de volta para as terras de origem. Acham que é preciso travar a imigração por causa do desemprego e da criminalidade. Não é que sejam fascistas ou neo-nazis. É que é preciso ter muito cuidadinho para manter o partido dentro da lei.

Partido Operário de Unidade Socialista

Só se ouve falar deles pelos tempos de antena. Existem como curiosidade histórica para lembrar às gerações mais novas os partidos pitorescos que existiram no período pós-revolucionário como a FER, o MES, o MDP-CDE ou a OCPML. Numa das moradas registadas na internet pelo partido pode ler-se qualquer coisa como: “Este site foi desactivado devido a inactividade prolongada.” Diz tudo.

Movimento pelo Doente

A novidade destas eleições. Não é bem um partido mas um movimento de cidadãos que luta contra as listas de espera e pela melhoria do sistema de saúde português. Está bem.

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