E-zine satírico sem corantes nem conservantes

Segredo de justiça

O Apito Dourado ao alcance de todos

O processo “Apito Dourado” caiu como uma bomba, abalando o futebol nacional e mostrando que, se calhar, até era capaz de haver mesmo corrupção na bola. Anos passaram-se e o processo vai-se arrastando, sendo quase tão falado como o processo “Casa Pia” e prometendo ter ainda menos resultados práticos depois do arquivamento inevitável. Ao contrário de outros órgãos de comunicação que vão publicando uma ou outra frase retirada das escutas aos envolvidos, a Inépcia não embarca nesta crueldade que é aguçar o apetite sem matar a fome e publica uma compilação dos melhores momentos das escutas. As transcrições foram feitas a partir de um CD contendo as escutas na totalidade, edição da Polícia Judiciária para consumo doméstico comprada no Zé dos Discos da Feira da Ladra. Dentro de alguns meses, estará à venda a compilação “Apito Dourado Mix” com versões musicadas das conversas e que promete ser o sucesso do próximo Verão. Disfrutem.

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João Loureiro: — Então? Falaste com o gajo?

Valentim Loureiro: — Falei. Está descansado.

João Loureiro: — E está tudo tratado? O gajo alinha?

Valentim Loureiro: — A princípio ainda estava todo não sei quê mas eu sei dar-lhes a volta. Foi só prometer-lhe umas férias em Fortaleza e um relógio de ouro para cada filho. (risos)

João Loureiro: — Sendo assim, agora é esperar que marque pelo menos um penalty a nosso favor.

Valentim Loureiro: — Não te preocupes que este tem jeito para a coisa.

João Loureiro: — Pai?

Valentim Loureiro: — Sim?

João Loureiro: — (pausa) Tenho muito orgulho em ti.

Valentim Loureiro: — (soluço) Eu também, filho. Eu também.

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Valentim Loureiro: — Então, meu cabrão? Não validaste o golo?

(som de palmas gravadas)

António Sala: — Parabéns! Acaba de dizer a frase certa e ganha um cheque de 200 euros em compras nas lojas Brás e Brás.

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Secretária: — Boavista Futebol Clube, boa tarde.

Presidente de clube medíocre mas estranhamente bem-sucedido: — Estou sim? Posso falar com o Dr. João Loureiro?

Secretária: — Queira esperar um momento.

(clique)

Voz gravada de João Loureiro, vocalista dos Ban: — Popular… surrealizaaaaaaaaaaaaaar por aííí…

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Adolescente a precisar de dinheiro: — Telepizza.

Valentim Loureiro: — Boa noite. Eu quero uma pizza com queijo extra, cogumelos e mioleira de carneiro.

Adolescente a precisar de dinheiro: — Mioleira de carneiro?

Valentim Loureiro: — Pois. Mioleira de carneiro. É uma coisa que me dá força na verga e estava a pensar ir às meninas do Reinaldo Teles amanhã.

Adolescente a precisar de dinheiro: — Desculpe mas não usamos esse ingrediente.

Valentim Loureiro: — Não seja assim. Faça-me lá esse jeitinho.

Adolescente a precisar de dinheiro: — Lamento mas não posso.

Valentim Loureiro: — Vá lá… olhe que eu pelos amigos faço tudo. Não quer ser promovido? Eu posso tratar disso. E uma viagem ao Brasil? E meninas? E uma máquina fotográfica? Ou duas? Ou vinte?

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Criança: — Estou?

Presidente do Gondomar Sport Clube: — É de casa do Major?

Criança: — É mas o meu avô não está.

Presidente do Gondomar Sport Clube: — Ah é a netinha. Que riqueza. Olha, amor, diz ao avô que não se esqueça de comprar o árbitro para o jogo com o Varzim e, se for preciso, que ameace partir-lhe as pernas à mulher, sim?

Criança: — Está bem. Eu tenho uma bicicleta nova.

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Valentim Loureiro:
— É o meu amigo?

Pinto da Costa: — Olha quem é ele. Está bom, major?

Valentim Loureiro: — Ando um bocado afrontado da tomatada mas é do excesso de uso. E o meu amigo?

Pinto da Costa: — Podia estar melhor. A minha mulher ameaçou dizer aos jornais que tenho o Carlos Calheiros trancado na cave.

Valentim Loureiro: — As mulheres são umas porcas. Aprendi isso no Ultramar. Olhe lá, sempre quer que eu lhe arranje um árbitro para a próxima jornada?

Pinto da Costa: — Ó major… não será perigoso estar a falar destas coisas por aqui? Pode estar alguém à escuta.

Valentim Loureiro: — Não está nada. Não se preocupe com…

(ouve-se um espirro)

Pinto da Costa: — Viu o jogo do Benfica? Aquele fora-de-jogo não marcado ao Simão foi uma vergonha.

Valentim Loureiro: — É uma escandaleira. São levados ao colo.

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Árbitro anónimo: — Estou?

Valentim Loureiro: — Não se esqueceu daquilo que falámos pois não?

Árbitro anónimo: — Daquela situação?

Valentim Loureiro: — Exactamente. Porque, se tiver mudado de ideias em relação à situação, eu terei de tomar outras providências para que a conjuntura se mantenha favorável.

Árbitro anónimo: — O major sabe que sou um homem de palavra. E nessas situações estou sempre pronto para dar o meu contributo às diligências que forem necessárias.

Valentim Loureiro: — Eu sabia que podia contar consigo. E as contrapartidas de que falámos mantêm-se dependentes de um resultado positivo da estratégia.

Árbitro anónimo: — Muito bem. Só tenho uma dúvida.

Valentim Loureiro: — Diga lá.

Árbitro anónimo: — Estamos a falar de quê ao certo?

 

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