Inépcia: s.f. (do latim "ineptia") 1-Falta de aptidão ou habilidade. 2-Imbecilidade 3-Acto ou dito absurdo.
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Arquitectura portuguesa assola Europa de Leste

O fenómeno da imigração de europeus de Leste para Portugal não tem efeitos apenas no país de acolhimento. A prová-lo está a preocupação dos governos de vários países de leste com os efeitos nefastos da construção de casas ao estilo português, propriedade de indivíduos que vivem e trabalham em Portugal, e procuram assim investir o dinheiro ganho no seu país.

Um dos países mais afectados é a Ucrânia, em cuja paisagem campestre são cada vez mais frequentes as casas forradas de azulejos berrantes, com pequenas fontes ornamentadas por toscas sereias de gesso e águias ou leões de pedra a guardar o portão. Para o ministro da Cultura e das Artes, Yuri Bohutsky, é uma situação preocupante que precisa de ser resolvida enquanto o fenómeno está ainda nos seus primórdios e não se torna ainda mais preocupante. “No outro dia, passava por uma aldeia nos arredores de Donetsk e contei 45 pequenas âncoras de cimento com conchas marinhas incrustadas a decorar os jardins de mais de 30 casas. Isto não pode continuar,” refere.

A localidade em questão é Viligornovo, uma pequena aldeia de cerca de 400 habitantes em que se verifica um fenómeno bem conhecido dos portugueses. Os jovens deixam a sua terra e rumam a Portugal para aí encontrarem uma vida mais cómoda e a possibilidade de ganhar algum dinheiro. Na pequena praça que marca o centro da aldeia e que, nos tempos em que a Ucrânia fazia parte da União Soviética, estava decorada com uma estátua de Lenine, existe agora um gigantesco painel de azulejo representando Santo António com o Menino ao colo, oferecido pelos emigrantes em Portugal. Apesar da simpatia do gesto, a população local reagiu com algum desagrado à oferta visto que os ucranianos são maioritariamente ortodoxos e Santo António é um santo católico.

Olga Maximova, professora de Sociologia na Universidade de Kiev, actualmente a trabalhar como mulher-a-dias na Amadora, considera que se trata de um fenómeno natural e perfeitamente compreensível. “É normal que as pessoas se afeiçoem ao país que os acolhe e queiram demonstrar essa afeição nas suas terras de origem,” considera, “As demonstrações de afeição podem ser a adopção de termos da língua do país de acolhimento ou mesmo uma preferência pela comunicação nessa língua em detrimento da materna, elogios constantes às qualidades do país de acolhimento e esquecimento voluntário dos defeitos ou a inclusão de pormenores arquitectónicos comuns no país de acolhimento em casas construídas no país de origem. Um pouco à semelhança do que acontece com os emigrantes portugueses.”

Mas não é apenas a Ucrânia a ser afectada por esta epidemia arquitectónica. Na Roménia, outro país de onde são oriundos muitos imigrantes que vêm procurar a sorte em Portugal, passa-se exactamente o mesmo. Recentemente, uma família recém-regressada à Roménia, mais precisamente à cidade de Brasov, queixou-se às autoridades locais de ser vítima de preconceito da parte dos vizinhos. Emil e Nadia Florianescu já não escondem o arrependimento por terem regressado à terra. “São uns invejosos,” explica Emil, “uma pessoa não pode estar bem na vida que é logo tratada desta maneira.” As queixas estendem-se à filha do casal, a pequena Sónia Vanessa Florianescu que acusa os colegas da escola de se recusarem a brincar com ela só por vestir uma camisola da selecção portuguesa com o nome de Figo nas costas e por todos os dias levar para o lanche uma sandes de queijo da Serra que os colegas dizem “cheirar muito mal.” Os vizinhos defendem-se e devolvem acusações. Para eles, são os Florianescu que se auto-marginalizam e criam má vizinhança, lembrando o momento em que Emil decidiu pintar metade da casa de verde e a outra de vermelho, com uma réplica em relevo do escudo português feita de cimento aplicada na parede e pintada à mão, o que já provocou catorze acidentes de viação, visto que a casa se encontra junto à estrada e os automobilistas não conseguem manter o olhar fixo na estrada ao passar por aquela visão berrante.

Mas os exemplos mais graves ocorreram na Moldova. Nos arredores de Tiraspol, onde a autarquia da localidade de Morgu Mures, cuja população é composta maioritariamente por ex-emigrantes em Portugal, decidiu, com o apoio unânime da população, deitar abaixo a fortaleza medieval classificada pela UNESCO e erigir no seu lugar uma réplica da Torre de Belém que pintaram de cor-de-rosa e cobriram de luzes cintilantes. Perto da capital, Chisinau, uma família inteira foi levada para o hospital com ferimentos graves depois de a casa em que habitavam ter desabado. Os especialistas chamados ao local acreditam que o desmoronamento se deveu à acumulação de neve sobre a estrutura, visto que os proprietários decidiram substituir os tradicionais telhados em bico preparados para os nevões por uma açoteia algarvia.

Mas nem todos criticam este tipo de atitudes. Em Portugal, a APEF (Association Portugaise de Emigrantes na France), não hesita em mostrar a sua solidariedade para com os emigrantes de Leste. Para o presidente, Álvaro “Didier” Mateus, “c’est incroyable tratarem esta pauvre gente desta maniére. Eles têm o droit de fazer as maisons deles como bem entendam e personne tem nada com isso. Eu cá moro há mais de 20 anos numa maison típica dos Alpes lá na minha aldeia em Vila Real e não é por isso que me tombam os parentes na lama, n’est-ce pas?”

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