E-zine satírico sem corantes nem conservantes

Lambe-botismo à antiga portuguesa

Ao seu dispor, Senhor Presidente

Senhor Presidente da República, Professor Aníbal Cavaco Silva,

Em primeiro lugar, cumpre-me endereçar-lhe as minhas sentidas boas-vindas pela ascensão em boa hora e por vontade da maioria praticamente esmagadora do povo português ao mais alto cargo da Nação. Poderá parecer à primeira vista que há aqui alguma coisa que não faz sentido. Então passei tanto tempo a dirigir-lhe impropérios e agora adopto esta atitude elogiosa, subserviente e, poderia mesmo dizer-se, suspeita? Ora, Senhor Presidente, só os pobres de espírito assim pensarão. Uma pessoa de espírito tão elevado como Vossa Excelência saberá perceber que cada insulto, cada piadinha maldosa, cada ofensa pessoal foi feita com o único intuito de deixar os ímpios, os poucos que não viram à partida que apenas um candidato poderia ser o Presidente de Todos os Portugueses, com uma vã esperança de que existiria possibilidade de esta terra não ter o Presidente que merece. Ah! Pobres coitados. Que triste ilusão. E que queda vertiginosa do alto das suas iludidas e mesquinhas convicções quando os resultados finais das eleições foram anunciados. Sim, Senhor Presidente. Sempre estive do seu lado. Mesmo quando parecia não estar. E agora, coloco-me ao seu dispor para qualquer trabalho de assessoria, qualquer posição no staff presidencial, qualquer trabalho de manutenção e limpeza do Palácio de Belém. Já agora, a bem do esclarecimento nacional sobre as qualidades infinitas do nosso Chefe de Estado, apresento uma muito resumida listagem contendo apenas aquelas de que me lembro neste instante. Uma lista completa seria impossível.

-Finalmente, temos um Presidente que não se limita a ser o líder dos portugueses como também é o mais bem parecido de todos eles. Do sorriso já muito se disse. Aquele frontispício marmóreo de dentes perfeitamente alinhados em que, nos incisivos, se nota a extensão dos conhecimentos financeiros e, nos caninos, é notória a preocupação máxima com a estabilidade do País. E o nariz. Meu Deus, o nariz. Qual rampa de saltos de ski, o seu ângulo suave parece delineado para permitir o salto de Portugal para o pelotão da frente da Europa e do Mundo. E, aqui entre nós, o outro rapazola ruivo que ocupou o lugar até agora nunca me convenceu.

-Qualquer elogio que se faça ao nosso adorado mentor, líder e guia político e espiritual, terá de ser necessariamente extensível a todo o seu agregado familiar, ascendência e descendência, clã de seculares e algarvios pergaminhos, que anda pelo país há séculos incontáveis, tentando orientá-lo no sentido certo. Pense-se, por exemplo, em Raimundo Cavaco, o Silva, celebrado e polivalente guerreiro que, com uma mão, ajudava D. Afonso III a expulsar a pérfida mourama dos Algarves enquanto, com a esquerda, lhe ia tratando da contabilidade.

-E que dizer da cara-metade presidencial? Maria Cavaco Silva, mais uma de uma ilustre sequência de Marias de relevo (a Virgem Maria, Maria Madalena, Maria Curie, Maria Cachucha), primeira-dama que não deverá nada a uma Jackie Kennedy (mas de amores mais constantes e sem correr o risco de se enrabichar por um armador grego) ou a uma Hillary Clinton mais materna e menos propensa à castração. Ó que bom-gosto no vestir! Que porte! Que modelo para todas as mulheres portuguesas e também para um ou outro homem (a presidencial família é frontalmente contra a discriminação das minorias sexuais ao mesmo tempo que mantém a crença na validade dos valores tradicionais, cristãos e humanistas de família). Ave-maria, Cheia de graça, o Senhor é contigo. E, olhai, Ele veio de Boliqueime!

-Um dos presidentes menores que tivemos nos últimos anos gostava de exibir a facilidade no contacto com altas individualidades internacionais e com o povo, pavoneando-se de forma insuportável rodeado pela populaça ou passeando lado a lado com dignitários estrangeiros. E que valor poderá isso ter? Será mesmo importante termos um Presidente que cavalga tartarugas nas Seychelles ou que fale cinco línguas? Não preferiremos ter ao leme da nossa nacional barcaça alguém que saiba calcular o IVA sem contar pelos dedos? Fica a questão em aberto.

-Existirá razão para a representação dos chefes de Estado de Portugal ser sempre um quadro? Não existe. Deixo a minha sugestão. Que a representação do Presidente Aníbal seja uma homenagem às tradições gastronómicas do seu Algarve de origem, construindo-se uma escultura em tamanho real elaborada inteiramente em pasta de amêndoa e morgado de figo. Que delícia!

-Ao longo dos últimos mandatos presidenciais, tem-se perdido a bonita e prazenteira tradição de o Presidente da República se estabelecer no Palácio de Belém, adoptando-o como residência efectiva e não apenas como residência oficial e local de trabalho. Os presidentes de espírito pequeno que morem nos respectivos apartamentos. Um Presidente com P maiúsculo morará num palácio, pois então. Só uma mágoa me aflige. Que o Palácio de Belém seja tão modesto quando comparado, por exemplo, com os palácios da Ajuda ou de Queluz. Mas, mesmo esses, duvido que fizessem justiça à grandeza do Presidente que voltará a fazer de nós um grande país. Haja arrojo! Construa-se um novo palácio. Um palácio grande, maior do que os maiores do mundo. Arrase-se uma cidade inteira e construa-se um monumento à grandeza do Cavaco de todos nós que não ignore as necessárias comodidades modernas.

E ficamos por aqui. Poderia continuar por páginas e páginas mas é chegada a hora de ir puxar o lustro ao busto de bronze do meu estimado Presidente que ornamenta o topo do autoclismo cá de casa. Bem-haja.

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