Inépcia: s.f. (do latim "ineptia") 1-Falta de aptidão ou habilidade. 2-Imbecilidade 3-Acto ou dito absurdo.
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Médium revela: Camões "quer que Portugal se foda"

Maria dos Anjos Guerreiro, conceituada médium da nossa praça, mais conhecida por Madame Zázá, a mulher que surpreendeu o país com os seus poderes ao prever que Carlos Cruz ia ser preso apenas vinte minutos após a sua prisão ter sido anunciada na televisão, volta a dar que falar com a revelação de uma conversa que teve com o poeta Luís Vaz de Camões, servindo-se das suas extensas habilidades mediúnicas.

Madame Zázá conta que a ideia de tentar contactar aquele que é visto como o poeta mais ilustre das letras portuguesas foi inspirada pelas comemorações do 10 de Junho, dia da sua morte, dedicado à comemoração da sua vida e obra e também às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo fora e ao próprio país (pouca gente saberá mas o dia 10 de Junho é também o dia nacional dos fabricantes de medalhas e condecorações). “O Luís Vaz é difícil de contactar porque não se dá com ninguém no Além,” explica, “Tive de pedir ao Vitorino Nemésio para o ir chamar à taberna onde passa a eternidade a escrever sonetos, a ver a bola e a beber vinho tinto.”

Estabelecido o contacto, Zázá teve uma oportunidade única para esclarecer algumas dúvidas que subsistem em relação à figura do autor dos Lusíadas. Assim, de acordo com esclarecimento do próprio, Camões não tinha qualquer problema na vista. Ao que parece, a pala foi um elemento acrescentado por um retratista póstumo sem escrúpulos para tornar a figura mais enigmática e aumentar as vendas. O único problema que tinha era pé de atleta mas isso ninguém quis explorar. Quanto ao túmulo no Mosteiro dos Jerónimos que supostamente guarda os seus restos mortais, Camões desmente e garante que os seus restos mortais foram sepultados numa vala comum que hoje fica por baixo de uma auto-estrada. O homem sepultado no seu túmulo é Simeão do Ó, um apanhador de bosta profissional analfabeto. “Um homem desagradável e cuja presença só era tolerada quando o cheiro a bosta se sobrepunha ao seu próprio odor corporal que era nauseabundo,” explica Zázá, usando as palavras do próprio Camões.

A respeito do país que hoje o venera, Luís Vaz tem uma opinião que a muitos poderá parecer inesperada. De acordo com Zázá, Camões usou a expressão: “Quero que Portugal se foda!” para descrever os seus sentimentos em relação à pátria que tão bem louvou nos Lusíadas. Por estranho que possa parecer, o poeta sente algum rancor em relação ao país que agora tanto se orgulha dele. “Bando de hipócritas,” afirmou em conversa com Zázá, “Primeiro desterram-me, depois deixam-me morrer à fome, depois enterram um gajo qualquer no meu túmulo e, para as coisas acabarem em beleza, fazem do dia da minha morte feriado nacional como se fosse um acontecimento festivo. Não me lixem!”

O despeito de Camões vai ainda mais longe. Não se coíbe em revelar que D. Sebastião realmente não morreu na batalha de Alcácer-Quibir mas aproveitou a oportunidade para sair do país e constituir família junto de uma tribo de beduínos da Mauritânia. “Voltar numa manhã de nevoeiro? Só se estivesse perdido,” terá afirmado. Quanto ao Portugal moderno, admite que tem acompanhado a evolução do país a partir do Além mas acrescenta que “evolução talvez não seja o termo mais apropriado.”

Camões continuou a escrever após a morte mas, de acordo com madame Zázá, tem feito pouca coisa de original, passando a maior parte do seu tempo a corrigir algumas das obras feitas em vida, numa altura em que “era jovem e não sabia o que dizia.” Assim, o poema “Verdes são os campos da cor do limão” passa a ter como primeira estrofe, nesta versão corrigida pelo autor, “Verdes são os campos, De cor de limão, E eu já tão farto, Desta porra de nação.” Noutro exemplo, a primeira estrofe do famoso “Descalça vai pera a fonte” passa a ser “Descalça vai pera a fonte, Lianor pela verdura, Pira-te daqui para fora, Que este país é a tristeza mais pura.” Este novo estilo do poeta, que poderá ser classificado como “antipatriótico-épico,” tem como obra maior uma epopeia pós-Lusíadas em que Camões revê os seus sentimentos em relação à história de Portugal em geral e aos descobrimentos em particular. O título desta obra, que talvez venha a ser publicada quando madame Zázá acabar de a transcrever, será “A Parveida.”

Aparte estes pequenos desabafos, Camões não se queixa do tratamento que lhe é dado no Além até porque, segundo afirma, “é muito melhor do que o tratamento que me deram quando estava vivo.” Ao que parece, os grandes nomes das artes terão secções reservadas no paraíso onde poderão passar a eternidade em discussões criativas. Camões só lamenta “terem mandado um tal Camacho Costa para aqui. Não sei quem é mas o gajo não pára de me contar anedotas de alentejanos.”

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