Inépcia: s.f. (do latim "ineptia") 1-Falta de aptidão ou habilidade. 2-Imbecilidade 3-Acto ou dito absurdo.
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Carcereiro de José Castelo Branco pede reforma antecipada

Um dos agentes da Polícia Judiciária encarregues de lidar com os detidos nos calabouços daquela força encontra-se internado num hospital de Lisboa com sintomas de esgotamento nervoso depois de ter passado a noite a acompanhar José Castelo Branco, detido quando tentava passar pela alfândega com cerca de dois milhões de euros em jóias não declaradas. O seu estado levou já a que pedisse uma reforma antecipada por considerar não ter condições para desenvolver a sua actividade de forma normal.

“Quando decidi vir para a Judiciária, preparei-me mentalmente para lidar com gente perigosa e para presenciar crimes horrendos... mas ninguém me avisou que uma coisa destas podia acontecer,” afirmou o agente Sampaio ainda na camisa de forças que lhe foi vestida para sua própria segurança, visto que tentou apunhalar-se nos olhos com um lápis por várias vezes.
Os colegas de Sampaio descrevem-no como um agente dedicado e competente. A nível pessoal, a opinião é unânime e todos o consideram “uma excelente pessoa,” o que torna ainda mais difícil compreender o que o poderá ter levado a tentar assassinar José Castelo Branco com um garfo de plástico retirado de um tabuleiro em que são servidas as refeições nas celas e aos gritos de “Eu mato o sacana! Larguem-me que eu desgraço a minha vida e mato o sacana!”

Tudo terá começado com a chegada de José Castelo Branco às instalações da PJ. De imediato, o agente Sampaio disponibilizou-se para receber uma das figuras mais estimadas do jet-set nacional e colocou-se ao seu dispor para ajudar no que for preciso. Castelo Branco agradeceu e comentou em voz alta que era bom ver que havia pelo menos uma pessoa na Judiciária que “não tinha nascido num palheiro” e que “sabia lidar com gente de classe.”

De seguida, foi conduzido à sua cela e perguntou se as outras tinham a mesma decoração e se não havia nenhuma com motivos de arte sacra e pintada em tons de pastel. Informado de que todas as celas dos calabouços têm decoração idêntica, resignou-se com um suspiro, comentando entredentes “Ai esta gente...” e verificando com o dedo se a parede estava limpa, fazendo de seguida uma cara de nojo. Antes que a porta da cela se fechasse, ainda teve tempo para pedir que lhe fossem buscar a casa um fato de macaco Versace em veludo com listas verticais bordeaux e bege que achava ser apropriado para a ocasião.

Os problemas reais começaram à hora do jantar quando foi levada à cela do mais recente hóspede célebre dos calabouços da Judiciária um tabuleiro com caldo verde, arroz de pato, um copo de sumo de laranja e uma salada de frutas. O “marchant” de arte e jóias começou a gritar que era um “insulto” trazerem-lhe comida assim como se aquilo fosse “uma reles cantina” e atirou o conteúdo do tabuleiro para cima do agente Sampaio, pedindo para lhe trazerem um Beaujolais de 82 e a carta das entradas. Perante o espanto do agente, o detido descalçou-se e atirou-lhe as meias para cima dizendo “lave-me isto e tenha cuidado que é puro algodão egípcio tecido à mão por virgens de Alexandria.” “Foi a gota de água! Não resisti e tive de lhe ir às fuças,” lembra Sampaio tentando reprimir um tique nervoso no olho direito.

José Castelo Branco, depois de uma longa conversa com os colegas de Sampaio, concordou em não apresentar queixa da tentativa de agressão e comentou que “isto até me fez lembrar a minha infância em Moçambique quando a minha família mandava os criados atravessar a nado um rio cheio de crocodilos só para os vermos a gritar e a sangrar daquela maneira fantástica que só o povo consegue.” Ao que a Inépcia apurou, a brevidade da sua detenção deveu-se unicamente ao facto de ninguém ter paciência para o aturar.

Nota: Este texto foi escrito na sexta-feira, dia 8 de Novembro. No sábado, o Correio da Manhã, uma das mais conceituadas publicações humorísticas portuguesas, publicava isto. Depois de ler, sobretudo o que vem depois do título "Dormiu de porta aberta e divertiu," percebi que a realidade superou mais uma vez a sátira e que a notícia real é várias vezes mais absurda do que a inventada. No entanto, como não podemos publicar o texto do Correio da Manhã, aqui fica este com a ressalva de que o outro é muito mais engraçado.

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