E-zine satírico sem corantes nem conservantes

A nossa televisão

Cartas ao provedor da RTP que nunca terão resposta

Recentemente, a RTP decidiu criar o cargo de provedor do telespectador, entregando-o a Paquete de Oliveira. Os motivos são os do costume: provar que, para a RTP, o rigor e a qualidade estão em primeiro lugar. E de tal forma o rigor e a qualidade são preciosos que, há muitos anos atrás, alguém da RTP os guardou num cofre de alta segurança escondido num sítio remoto e nunca mais ninguém lhes pôs a vista em cima. De qualquer forma, a iniciativa é louvável. Inútil e idiota mas louvável. Num também louvável esforço de selecção e catalogação do lixo da RTP (o do contentor e não o do televisor) levado a cabo por uma task-force de sem-abrigo altamente especializados, a Inépcia conseguiu compilar uma selecção de algumas cartas enviadas ao provedor e que, por motivos diversos, nunca serão respondidas.

 

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Caro Sr. Provedor,

Em primeiro lugar, queria dar os parabéns à RTP por permitirem que, por seu intermédio, o telespectador possa apresentar sugestões, reclamações ou interagir de outras formas com a televisão de todos nós. No entanto, nada disso me move a escrever-lhe. Quero apenas informá-lo de que estou a escrever esta carta completamente nu. Muito obrigado pela atenção.

PS-Se quiser, posso tirar uma fotografia e enviar-lha. Até estou a ver a RTP e tudo.

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Caro Sr. Provedor,

O Programa “Dança Comigo”, que costumo ver com assiduidade, é bastante limitado e creio que ganharia muito se houvesse mais arrojo da produção. Porquê limitar as danças aos aborrecidos bolero, salsa, tango ou valsa? Porque não pôr o Joel Branco a fazer strip-tease? Ou a Eunice Muñoz a fazer uma complicada coreografia guerreira dos Maori da Nova Zelândia? E também nada impede que se envolva a apresentadora, o júri e os participantes na pitoresca dança afegã do fogo em que os bailarinos se regam com gasolina, acendem fósforos e tentam dançar suficientemente depressa para apagarem as chamas com a deslocação do ar.

Um espectador atento

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Caro Sr. Provedor,

Acompanho as emissões da RTP há muitos anos e tenho reparado que, ao longo das últimas décadas, a qualidade da programação tem vindo a decair de forma vertiginosa ao ponto de, agora, ser efectivamente mais prazenteiro passar três horas a contemplar uma pilha de estrume fresco do que ver a emissão da RTP durante dois minutos. E pior do que a falta de qualidade da programação é a auto-promoção constante pela voz de apresentadores de olhos arregalados e sorrisos polidos que parecem mesmo acreditar na qualidade que apregoam, o que me assusta particularmente, fazendo-me ter medo da possibilidade de encontrar essas pessoas na rua. No entanto, entre todos os defeitos, a RTP tem duas grandes qualidades que urge referir. Nem os “Morangos com Açúcar”, nem a “Floribella” fazem parte da grelha do canal. Obrigado.

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Caro Sr. Provedor,

Tínhamos cá em casa um televisor de pequenas dimensões que satisfazia perfeitamente os hábitos televisivos pouco assíduos da família. Recentemente, durante um dos raros momentos em que nos juntamos para ver um pouco de televisão, sintonizámos o primeiro canal da RTP à hora em que transmitiam um concurso que, pelo que sei, dá pelo nome de “O Preço Certo” e fizemo-lo no momento em que o realizador decidiu fazer um plano aproximado do apresentador, uma criatura disforme e redonda semelhante a um balão de ar quente que, ao que parece, se chama Fernando Mendes. De imediato, o pequeno ecrã começou a dilatar-se, tentando adaptar-se às dimensões mastodônticas do senhor em questão. A própria estrutura de plástico em torno do ecrã começou a esticar, fazendo um ruído horrível até que todo o aparelho explodiu. A obesidade de um dos vossos apresentadores custou-me um televisor quase novo. Creio ter direito a uma indemnização. Usá-la-ei para comprar um aquário. Com um aquário a caca que lá aparecer pode sempre ser pescada com uma rede.

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Caro Sr. Provedor,

Costumo ver a “Praça da Alegria” todos os dias. Mas não o faço por gosto. A “Praça da Alegria” deprime-me profundamente e faz-me sentir a pessoa mais reles à face da Terra. Faço-o porque sou masoquista e perdi o que restava da minha auto-estima quando Durão Barroso venceu as eleições e sofri um episódio psicótico durante o qual vim para a rua, batendo na cabeça com uma pedra da calçada enquanto gritava “Raios me partam! Raios me partam!” Gosto de sofrer. E por isso vejo a “Praça da Alegria.” Até já considerei o suicídio. Fiz planos e tudo. Será mais ou menos assim: sentar-me-ei no sofá, ligarei a televisão e, mal Jorge Gabriel e Sónia Araújo apareçam no ecrã, colocarei os pés dentro de uma bacia com água e prenderei os grampos de um cabo ligado à bateria do meu automóvel aos testículos. A dor assim provocada não poderá sequer comparar-se à dor confortante que sinto quando vejo o Hélder Reis a entrevistar artesãs de rendas de bilros no mercado de São Pedro do Sul. Obrigado por tudo, RTP.

Já agora, também costumo ver o “Portugal no Coração” e o meu médico diagnosticou-me um problema cardíaco grave provocado pelo programa e que me provocará uma morte lenta e agonizante dentro de poucos anos. Mas prefiro não esperar.

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