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Covilhã recria ano de 1963

A Câmara Municipal da Covilhã vai promover a recriação do ano de 1963 durante uma semana do mês de Dezembro, iniciativa que se espera aumente consideravelmente a afluência de turistas à cidade.
A ideia partiu do próprio autarca, Carlos Pinto, que há muito sentia vontade de levar a cabo uma recriação de época mas fugindo às recriações medievais que “se fazem em todo o lado e já chateiam.”

Com efeito, o número de feiras, torneios ou desfiles com temática medieval que se fazem todos os anos em Portugal é de tal forma exagerado que se torna impossível achar um dia ao longo do ano em que não exista uma recriação medieval algures no país. E se este tipo de eventos, pela saturação ou pela falta de jeito dos organizadores, já chateia quando é feito em localidades com centros históricos que remontam à Idade Média, o que dizer da indescritível feira medieval de Massamá ou da justa de cavaleiros que, todos os anos no primeiro fim-de-semana de Maio, ocupa as artérias mais movimentadas de Rio Tinto.
A opção pelo ano de 1963 é o seguimento natural de uma política de valorização da originalidade que sempre marcou a administração autárquica da Covilhã desde que, em 1981, um vereador local foi o primeiro português a usar a expressão “já me ‘tou a passar com esta merda” enriquecida com a pitoresca pronúncia beirã.

Assim, ao longo de uma semana, os covilhanenses vestirão trajes típicos do ano de 1963, incluindo as emblemáticas calças à boca de sino, e darão o seu melhor para recriar a atmosfera mágica da década de 60 em Portugal. Para ajudar à construção do clima adequado, os restaurantes da cidade servirão iguarias que, de acordo com os historiadores, eram muito apreciadas na época tais como o leite em pó, o café de chicória ou a sopa de cabeças de sardinha. Além disso, durante a semana em questão, apenas será possível sintonizar a RTP 1 e só com imagem a preto e branco. A qualidade da RTP 1 actual poderá deixar algo a desejar quando comparada com a de 1963 mas é o melhor que se pode arranjar.

O ponto alto dos festejos será a realização de uma “vermelhada” tradicional em que os comunistas da cidade serão perseguidos pelas ruas por uma multidão enfurecida armada de varapaus. Seguir-se-á o recrutamento dos jovens mancebos a ser enviados para África e, durante a noite, cidadãos escolhidos ao acaso serão visitados pela “polícia política” do concelho que os levará para parte incerta para espancamento e interrogatório (não necessariamente por esta ordem). A “polícia política” ficará ainda encarregue de multar todos os fumadores que não possuam licença de porte de isqueiro e de dispersar ajuntamentos de mais de duas pessoas na via pública.

“Estamos seguros de que as pessoas vão gostar,” confessa o autarca, “Mal posso esperar para ver a cara de alegria dos que nos visitarem quando estiverem reunidos na praça à espera do concerto de António Calvário e chegar a polícia com os cavalos e os cães para correr com eles à bastonada.”
A semana de 1963 na Covilhã terminará com a realização de uma missa em latim na igreja matriz. Espera-se que a iniciativa se repita no próximo ano e nos seguintes.