Inépcia: s.f. (do latim "ineptia") 1-Falta de aptidão ou habilidade. 2-Imbecilidade 3-Acto ou dito absurdo.
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Governo lança cruzada contra o canal 18

Depois de reflexão estival demorada, o governo conseguiu localizar finalmente o principal problema do país. Contrariamente ao que se poderia pensar, não é nem a crise económica, nem os incêndios, nem mesmo o clima de insegurança crescente a nível mundial. Todos estes problemas são menores quando comparados com o flagelo da pornografia. A nova lei da televisão, mais uma prova do esforço do governo em tornar Portugal um país melhor através da televisão, proíbe a transmissão de conteúdos pornográficos por cabo não codificados, pondo fim às emissões do alter-ego nocturno do canal Viver, carinhosamente apelidado de “canal 18” pelo público em geral.

Para obedecer à lei, a TV Cabo, empresa que assegura a transmissão do canal, terá de codificar os conteúdos pornográficos sob pena de sofrer penalizações.
“A pognogafia é um mal que está longe de seg necesságuio,” considera Nuno Morais Sarmento, ministro da Presidência, “Este govegno está decidido a acabar com ela, pgotegendo assim as nossas cguianças da exposição a todo o tipo de pegvegsões.” O pimeiro-ministro, Durão Barroso, é da mesma opinião e não hesita em afirmar que “a pornografia não tem razão de ser. É perversa, degradante, atenta contra a dignidade humana em geral e feminina em particular e banaliza o relacionamento íntimo do casal... a não ser que seja paga.”

No entanto, a decisão está longe de ser consensual. Para além das muitas vozes que acusam o governo de moralismo excessivo e demagógico, há quem chame a atenção para o facto de, se uma criança está acordada até à meia-noite e assiste a conteúdos pornográficos na televisão, a responsabilidade será exclusivamente dos pais ou encarregados de educação que o permitem. Para além disso, existe o receio de que esta seja apenas a primeira de uma série de medidas com o objectivo de agradar a um sector ultraconservador da sociedade que sempre culpou o sexo e a violência na televisão e o 25 de Abril pelo “estado a que as coisas chegaram.”

José António Cubalivre, professor de Filosofia Alarmista Contemporânea e Teorias da Conspiração na Universidade Autónoma de Vilar de Perdizes, leva a contestação ainda mais longe. “Está-se mesmo a ver o que vai acontecer a seguir,” afirma, “Primeiro proíbe-se a pornografia, depois proíbe-se a nudez, a seguir proíbem-se as referências sexuais, os palavrões e a pouco e pouco vamos ser todos obrigados a ir à missa e a rezar o terço.”

Opinião contrária tem Maria Barroso, ex-primeira dama e paladina da abolição do sexo e da violência na televisão. “A atenção dada pela nova lei da televisão à exibição nocturna de filmes pornográficos por alguns canais por cabo é de louvar. Sempre acreditei que a pornografia é uma aberração asquerosa e que a própria nudez deve ser combatida a todo o custo. Eu própria tomo banho com uma gabardine até aos pés há mais de trinta anos e considero-me uma pessoa feliz,” explica.

De facto, alguns estudos independentes efectuados por sociólogos a soldo do arcebispado de Braga, indicam que a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos pornográficos pode ter consequências graves no seu desenvolvimento mental e emocional. Os dados recolhidos mostram que personalidades históricas como Hitler, Mussolini, Estaline, Átila ou Calígula foram consumidores ávidos de filmes pornográficos durante a infância e adolescência por desleixo dos respectivos progenitores.
A contestação popular ao fim do canal 18 parece estar longe de ter um fim e conta com um apoio de peso. A

pesar de pouca gente em Portugal o saber, as emissões pornográficas do canal Viver são patrocinadas pelo ministério espanhol da cultura como forma de, através da exposição do público português aos filmes dobrados, incentivar o interesse pela língua de Cervantes. De acordo com Pilar del Castillo, ministra da Cultura do país vizinho, “a pornografia é o meio ideal para promover uma língua. Há mais de trinta anos, conseguimos que a Bolívia adoptasse o castelhano como língua oficial, substituíndo o alemão, através da exibição constante de filmes da série Devassas e Gulosas, o que prova a eficácia do método.” E, de facto, os conhecimentos que o português médio tem do castelhano aumentaram mais desde o início das emissões do canal 18 do que em mil anos de coabitação da península. Afinal, expressões como “fuerte, cariño”, “oh si, me gusta” ou “que polla mas grande” são mais úteis numa conversa quotidiana do que se possa pensar.

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