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| E-zine satírico sem corantes nem conservantes | |||
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A Quintessência Rubrica de comentário à actualidade semanal abrilhantada por Alexandre "Diospirojoyeux" Louro, apontado por alguns como o legítimo sucessor de Eduardo Prado Coelho, e Renato "Sou preguiçoso demais para escrever uma coisa de propósito" Carreira. Perguntas dele e respostas minhas, pois então. 6 de Junho de 2008
Sim.
Até me doem os maxilares de tanto chorar. Dependerá do seu jogo aéreo. Renda
de bilros. Mas isto ainda carece de confirmação.
Recomendo prudência na divulgação. Parece-me
claro que tentou manter-se de pé. E conseguiu quase
sempre. E
não é que a feiosa ganhou? Que
o tema e a localização da trama sejam mantidos
em segredo até ao último momento. Muita coisa. Ajeitam-se baldes para captar goteiras, remendam-se buracos
na parede, perseguem-se baratas que fogem com processos, tenta-se capturar
a ratazana que se instalou na toga do juiz. Um
papel tão grande que, desde que soube da morte, não
voltei a usar roupas. Será calmo. Até proibirem também
a zoofilia. Presumo que não seja muito diferente de uma estação de comboio sem casas-de-banho a funcionar. E uma dúvida. Quem as arranjou? Afinal já existem astronautas portugueses? 9 de Maio de 2008 Eriksson é a pessoa certa no lugar certo no Benfica errado? Lamentavelmente,
creio que Eriksson será o Toni certo no
Chalana errado no Mozer assim-assim. Tem
um rabo apetitoso. Birmânia? Não há nenhum país no mundo
chamado Birmânia. *ouvidos tapados* LÁLÁLÁLÁ!
NÃO ESTOU A OUVIR NADA! MYANMAR! MYANMAR! MYANMAR! É um ultraje para os fãs de todo o mundo. Não
devia ser permitido. Ou, em alternativa, esperamos dois meses (a duração
média do casamento em Hollywood). É bem capaz de ter sido. O que só prova como as nossas
semanas têm sido aborrecidas. (Eu já tenho duas. Uma
em azul, outra em amarelo). Claro.
E mal posso esperar para ver a cara dos destinarários
quando, em alternativa, lhes oferecer pacotes de amêndoas que
sobraram da Páscoa. De tipo francês, claro. Não
ofereço de outras. Que horror. É quase como ver o Nicolau Breyner a simular a
cópula com a Soraia Chaves naquele filme. Pruvavelmente
em náda. No Chade
há muita vaca. Os chadianos estarão já sobremaneira
habituados a ter cuidado para não pisar. Que os bilhetes sejam vendidos por samurais de armadura completa, prontos para decapitar quem se atrever a solicitar desconto. Será pedir demais? 26 de Março de 2008 Boa
parte da semana serviu para recuperarmos das reportagens SIC
sobre Sócrates
e Menezes na intimidade. Recuperou bem? 8 de Janeiro de 2008 Acontecimento
do ano: Personalidade
nacional/internacional do ano: Escroque
nacional/internacional do ano: Gajo/gaja
do ano: Ausência
do ano: Empresa
do ano: Escândalo
do ano: Dia
e mês do ano: Loira
do ano: Blogue
e site do ano: Cor
do ano: Região
demarcada do ano: Frase
do ano: Silêncio
do ano: Decreto-lei
do ano: Transparência
do ano: Jogo
de futebol do ano: Eleição
do ano: Transformista
do ano: Órgão
de comunicação social do ano: Órgão
interno do ano: Ânus
do ano: País
do ano: Bebida
do ano: Prédio
do ano: Pior/melhor
música do ano: Revelação
do ano: Religião
do ano: Prato
do ano: Metal
do ano: Arma
do ano: Morto
do ano: Piada
do ano: 1 de Dezembro de 2007 Comecemos
pelo desporto: acredita mesmo que a Austrália vai tirar à
rainha Isabel II a chefia do Estado? Onde
estavam os criativos dos CTT quando escolheram o nome do serviço
móvel Phone-ix? Como
vai ficar Lisboa se o PSD chumbar o empréstimo de 500 miilhões
de euros e deixar cair António Costa? E
os Madredeus sem Teresa Salgueiro? Esta
semana assinalou-se mais um aniversário do 25 de Novembro. Há
muitas versões sobre os acontecimentos - qual é a sua? A
semana ficou marcada também pela elevada troca de palavras entre
o adjunto do Manchester United, Carlos Queirós, e o presidente
do Sporting, Filipe Soares Franco. Afinal, quem é que é
grande mas não é grande coisa? E
quanto à expulsão de Luísa Mesquita do PCP? O
que é preciso para acabar com esta novela BCP, BPI, Jardim Gonçalves
e quejandos? Aparentemente
a extrema-direita assaltou a Nova Democracia, infiltrando-se no partido
de Manuel Monteiro. O que é que lhe vão fazer? Teresa
Guilherme anda a chocar o país na nova novela da SIC, Resistirei,
onde protagoniza cenas de "marmelada" explícita. Que
sequelas isto vai deixar nos adultos de amanhã? 9 de Novembro de 2007 Há
orgulho nacional no Prémio MTV Europa para Melhor Álbum
de Nelly Furtado? Adivinham-se
tumultos na sequência do anúncio do aumento do preço
dos chocolates nos próximos meses? Qual
a opinião que tem sobre Manuel Machado, anunciado este semana
como novo treinador do Sp. Braga? O
que foi fazer Juan Carlos a Ceuta e a Melilla? Quer
deixar uma mensagem para os deputados do PS/Madeira que se encolheram
na votação do Orçamento de Estado para 2008? Teve
pena do cilindramento de que Santana Lopes foi alvo na Assembleia da
República? Em
Portugal "há muitos betos a fazer humor", como defende
Jel? A
Academia Nacional das Ciências do Reino Unido concluiu que o leite
materno ajuda a aumentar o quociente intelectual até sete pontos
mais. Conclusões? Outro
estudo internacional aposta para a falhas de higiene nos hábitos
dos portugueses... Esta
semana foi anunciado o regresso da série televisiva O Justiceiro,
embora sem David Hasselhoff. Expectativas elevadas? 29 de Setembro de 2007 Concorda
com a a revolta de Santana Lopes por ter sido interrompido numa entrevista
à SIC Notícias por um directo onde José Mourinho
disse que ia dormir? O
Fátima eliminou o FC Porto da Taça da Liga. A religião
é a melhor resposta ao Apito Dourado? O
Tal & Qual deixa esta semana de ser publicado. Que recordações
deixa? Segundo
um jornal que ainda não acabou, o DN, são os sapatos de
luxo que salvam a economia portuguesa. Já chegámos a este
ponto? Recomendações
para quem se encontra na Birmânia? Há
relação entre o Caso Maddie, que motivou a caça
à loira por estes dias em Marrocos, e o Caso Esmeralda, ressuscitado
esta semana? Os
Police tocaram esta semana em Portugal. Isto importa alguma coisa? O
registo de interesses dos 230 deputados à Assembleia da República
está disponível na internet (www.parlamento.pt),
mas deixa de fora os pormenores sórdidos. De que serve um registo
de interesses que não tem interesse nenhum? Vale
a pena visitar a exposição retrospectiva de Paula Rêgo
no Museu Rainha Dona Sofia, em Madrid? Arrisca
um prognóstico nas eleições directas no PSD? 20 de Setembro de 2007 Depois
de um murro fraquinho de João Pinto a um árbitro há
uns anos, o punho de Scolari falhou esta semana um jogador da Sérvia.
Há falhas na qualidade ao nível do pugilato na selecção
nacional? O
que vai acontecer agora com o homem do "mata-mata"? Segundo
o ministro Luís Amado, Dalai Lama não foi recebido pelo
Governo> português "porque é óbvio"
e por "razões evidentes". Depois de mais esta visita
do líder espiritual, o que fica óbvio e evidente? Alimenta
expectativas em torno do conteúdo do diário de Kate McCann? Segundo
o DN, nos últimos cinco anos, cada português pagou anualmente
euros à RTP. O que seriamos nós sem a RTP? A
desertificação afecta mais de um terço de Portugal.
Como se pode contrariar esta tendência? A
segunda mulher mais velha do mundo é portuguesa, tem 114 e segunda-feira
assinalou o aniversário com arroz doce. Quem disse que o surrealismo
tinha acabado em Portugal? Como
interpretar o desaceleramento que as exportações nacionais
atravessam? Depois
de Menezes, agora Marques Mendes e Santana Lopes pegaram-se. As eleições
no PSD prometem ou não? Cristiano
Ronaldo considera Angelina Jolie "a mulher ideal". Choque? 10 de Setembro de 2007 Assusta-o
o degelo no Ártico (que, soube-se esta semana, neste mês
atingiu um novo recorde)? Concorda
que quem queira ter cães de raças consideradas perigosas
seja obrigado a fazer exames de aptidão física e psicológica? Esta
semana um jogador de rugby da selecção do Tonga anunciou
a mudança de nome para o Paddy Power, o nome do patrocinador
da equipa nacional. É um precedente perigoso ou nem por isso? A
polícia dinamarquesa divulgou esta semana ter detido oito membros
da Al-Qaeda. E, cá, o movimento separatista corso assaltou um
banco. Al-Qaeda na Dinamarca? Corsos em Portugal? Onde é que
isto vai chegar? Um
estudo da Sociedade Espanhola de Medicina da Família e Comunitária
concluiu que as mulheres sofrem mais do Síndrome Pós-férias.
Concorda? A
Coreia do Norte deve ser retirada do Eixo do Mal? A
Maconde esteve à beira do fim. O que dizer de uma instituição
como esta? E o Estado fez bem em lançar-lhe a mão? A
cantora Mariza foi nomeada para os Grammys latinos. É justo? O
que dizer do apuramento da selecção portuguesa de basquetebol
no Europeu? A Quintessência 1 de Setembro de 2007 Pelo
menos em relação ao combate a incêndios, a Grécia
ainda nos dá cartas ou não? Como
estão as relações entre Presidente da República
e Governo, depois do terceiro veto de Cavaco Silva num mês? Que
tal a vitória de Nélson Évora em Osaka? Como
interpretar a sobrelotação que o balcão do BES
no Second Life conheceu dias depois da inauguração? E
o anúncio de Enrique Iglesias de que vai criar uma marca de preservativos
para pénis pequenos, na sequência das dificuldades que
tem para encontrá-los para o seu... modelo? O
assassinato de um "empresário da noite" no Porto é
sintoma que existem máfias no "mundo da noite" ou "não"? É
justo o aumento do preço dos manuais escolares anunciado esta
semana? O
que dizer das pessoas que ficam acordadas de madrugada a ver programas
de televisão como o Quando o telefone toca ou Toca a ganhar? Como
comenta a convocação de Pepe para a selecção
nacional? O
Segredo, de Rhonda Byrne, e Pura anarquia, de Woody Allen, foram dos
livros mais vendidos em Agosto em Portugal. O que se conclui disto? Já ouviram aquela do Sócrates na cabina telefónica com a vaca leiteira e o anão estrábico? 10 de Junho de 2007 Esta questão toda em torno da directora regional de educação do Norte e da anedota da discórdia consegue ser algo mais do que uma piada de mau gosto. Em primeiro lugar, há que referir que Margarida Moreira, independentemente das muitas qualidades pessoais que terá, tem um defeito incontornável: é uma besta-quadrada. E mais sinistro do que o seu comportamento só mesmo o facto de dirigir um organismo com a palavra “educação” no nome. Quanto à asquerosa delação e punição de alguém por proferir uma graçola sobre uma figura destacada da hierarquia estatal é apenas um sinal entre muitos do culto exclusivamente português do “respeitinho”. Note-se o diminutivo. Não se fala de respeito, mas sim de “respeitinho”, uma versão desidratada do conceito original, mantendo o invólucro mirrado depois de despojado do conteúdo. É por respeito que devemos ouvir a conversa de um octogenário que nos aborde no autocarro e acenar a cabeça em concordância, por mais absurda que seja a sua conversa, porque é merecedor de respeito o simples facto de se ter aguentado vivo durante tanto tempo. É por “respeitinho” que não devemos mandar à merda um nonagenário que se comporte de forma imbecil e mal-educada. É
também por “respeitinho” que não devemos troçar
dos nossos governantes eleitos (de forma indiferenciada, sejam eles
quem forem), dos nossos professores, dos nossos militares, das forças
da ordem e de uma série interminável de figuras públicas
(outras haverá em que a troça não só se
aceita como é encorajada). E é por violações
ao “respeitinho” que tanta gente tem de responder em tribunal
pelo crime de injúria, figura jurídica oportunamente vaga
e que permite abraçar uma série de coisas. Muitos verão com maus olhos esta apologia da violência verbal e física. Mas não serão ambas preferíveis ao recurso choninhas ao tribunal ou à queixa piegas às chefias? Se o Zé diz que a mãe do Alberto é de moral duvidosa, o Alberto dirá ao Zé que a sua esposa terá mais rodagem do que um camião TIR da rota Lisboa-Paris. E se, logo a seguir, o Zé não conseguir lembrar-se de nada para retorquir, aplicar-lhe-á um tabefe e essa saudável troca de argumentos decorrerá até ficarem ambos satisfeitos, ficando o assunto encerrado ou adiado para segunda ronda negocial. É assim que as pessoas civilizadas devem resolver os seus diferendos. Se Sócrates se ofendeu com a anedota, que vá pedir satisfações ao professor que a proferiu. E, pelo caminho, aproveite para dar um safanão à senhora directora por o ter metido nesta alhada. Outros argumentarão que os insultos trocados entre o Zé e o Alberto não são comparáveis aos clássicos de outros tempos e, logo, não se poderá usar a comparação para justificar o que seja. Almada Negreiros pode ter dito que Júlio Dantas cheirava mal da boca, Ramalho Ortigão pode ter ofendido um país inteiro e Rafael Bordalo Pinheiro ridicularizado reis e príncipes, mas o Zé não pode questionar a heterossexualidade do Alberto. Ou seja, deixa de ser uma questão de respeito, ou de “respeitinho”, e passa a ser uma questão estilística. Se queremos insultar alguém, temos de o fazer com um certo valor estético. Não será mau argumento. Mas, pelo sim, pelo não, vou abrir uma loja de bengalas. Aceito propostas de sociedade. Bolo nacionalista 8 de Maio de 2007 Houve um grande equívoco no modo de lidar com o período de graça pelo qual passou recentemente a extrema-direita portuguesa em geral e o PNR, seu representante mais ou menos legal (por enquanto) em particular. Há quem manifeste preocupação, há quem tenha medo, há quem anteveja um futuro de cabeças rapadas, camisas negras e cruzes célticas tatuadas obrigatoriamente numa das nádegas (ou em ambas, se o fervor for mesmo muito intenso). Há também quem se irrite, se mostre ultrajado e proteste por a comunicação social conferir mediatismo ao fenómeno, o que até se compreende mas é sabido que a comunicação social dificilmente consegue resistir a transformar em notícia qualquer coisa passível de criar o caos e semear a preocupação. Mas nenhuma destas abordagens é a correcta. Não há que ter medo do papão da extrema-direita, mascarado ou não como “nacionalismo” eufemista. A não ser, claro, que este se manifeste na forma de um grupo de skinheads a quem as respectivas mãezinhas não trocaram as fraldas e que resolvam expressar o seu incómodo numa viela escura, socorrendo-se da nossa integridade física para esse efeito. O que devemos fazer todos, cidadãos de boa índole e de ideologia política praticamente inofensiva, é pegar no discurso “nacionalista” e expô-lo com iluminação adequada para que fique bem clara a profundidade intelectual das ideias transmitidas. Porque essa profundidade intelectual é nula e os “nacionalistas” que a história regista pelos seus dotes retóricos devem a notoriedade à capacidade para desviar as atenções do vazio e fazer multidões acreditar que há realmente ali alguma coisa que faça sentido. Para provar esse vazio, submeto à consideração geral o postulado de que qualquer discurso ou texto poderá facilmente ser convertido em discurso ou texto nacionalista se forem nele incluídas as palavras adequadas nos lugares certos. Segue-se demonstração. Peguemos numa receita comum. Esta, de bolo de chocolate, retirada de www.gastronomias.com. Ingredientes: Confecção: E agora, apresento-vos o primeiro bolo de chocolate nacionalista da história da Humanidade. Entenda-se o facto de ser um bolo de chocolate com ironia ou não. Ingredientes
nacionais e históricos: Confecção
patriótica: O Grande Português 26 de Março de 2007 Fez-se finalmente justiça. E de duas formas diferentes. Por um lado, a RTP passa a esperada vergonha, inteiramente merecida pela forma obtusa como tentaram transformar um passatempo televisivo numa iniciativa histórico-pedagógica de grande relevância, comparando os méritos de Vasco da Gama e Rosa Mota ou de Cristiano Ronaldo e Eça de Queirós (diz-se que este era também senhor de uma finta de impor respeito). Precisamente a mesma iniciativa que, após revelação inevitável do resultado embaraçoso, foi imediatamente despromovida pela voz de Maria Elisa de iniciativa séria a concurso sem importância nenhuma. Uma espécie de “Preço Certo” com figuras históricas (e muitas delas eram realmente históricas). A outra justiça foi feita a António de Oliveira Salazar e convém dizer o nome todo para se perceber que não falo de SALAZAR, o Hitler português institucionalizado pela propaganda do PREC, mas sim do beirão retrógrado e de vistas estreitas que arrastou Portugal para o seu mundo de casinhas brancas e gente pobrezinha mas honrada, temente a Deus e ignorante, sobretudo ignorante, sem quaisquer ambições além de ganhar os tostões suficientes para comprar pão, bacalhau e vasos de sardinheiras para decorar a janela. É esse o homem que merece a honra de ser o maior português de todos os tempos. É verdade que havia a polícia política e o Tarrafal e uma guerra colonial que parecia nunca mais acabar mas reconheça-se-lhe o mérito de inventar o Portugal em que hoje vivemos e encarnar na perfeição as qualidades do ser português em que a maioria de nós ainda se revê. Qual Afonso Henriques, qual carapuça metade francesa e metade espanhola. Camões? Não digo que o Camões dos Lusíadas não fosse um poço de amor pátrio mas o Camões que Portugal deixou morrer na miséria e que enterrou numa vala comum mandar-nos-ia todos à merda se pudesse. Salazar é que é verdadeiramente o pai e fundador da nacionalidade. Sempre que hoje um português diz a outro a frase “há coisas que não são para brincar”, sempre que alguém consegue um emprego não por competência mas por amizade (colorida ou não) ou laços familiares, sempre que um envelope cheio de notas troca de mãos como “ajudinha,” estamos a manter vivo o país que Salazar construiu. Pode já não ser o país de casinhas brancas com santinhos de azulejo, com os sete filhos a aprender as letras e as contas básicas na escola e a mulher em casa, preparando de forma diligente o jantar ao marido, mas, apesar da evolução, subsiste. Tornou-se no país das bandeiras penduradas à janela quando joga a selecção, no país em que nunca se lê e raramente se vai ao cinema por “falta de tempo” mas em que, de forma paradoxal, toda a gente tem sempre uma opinião sobre qualquer assunto, o país em que toda a gente acha mal e reconhece a necessidade de mudança, mas que continua a eleger os mesmos caciques para os mesmos cargos em troco de uma torradeira ou de uma palmadinha nas costas. Era isto que a RTP deveria ter reconhecido na hilariante emissão de anúncio dos resultados finais. Reconhecendo a Salazar o seu maior triunfo em vez de tentar desculpar-se pelo fedor que libertaram ao remexer um monte de estrume acumulado durante várias décadas. Odete Santos bem pode descompor a roupa e espumar da boca e esbracejar o que quiser mas terá sempre sobre a cabeça o facto de Álvaro Cunhal só não ter hoje uma reputação mais sinistra do que a do homem do Vimieiro porque a história entendeu não o deixar chegar ao poder. E Clara Ferreira Alves pode pintar o cabelo da cor absurda que quiser e lamentar o país que põe Salazar e Cunhal à frente de Pessoa e Camões. É o mesmo país em que todas as formas de expressão cultural estão reservadas para os integrantes do mesmo círculo de amigos de que Clara faz parte. Há realmente um problema sério em Portugal. Mas muitos dos defensores das figuras em votação, os indignados, os divertidos e os indiferentes, de Paulo Portas a Odete Santos, de Rosado Fernandes a Clara Ferreira Alves, de Ana Gomes a Maria Elisa, todos eles e mais uns quantos espalhados pela assistência e outros que não couberam no estúdio, não só não conseguem resolvê-lo como são dele parte integrante. O jubileu da RTP 9 de Março de 2007 A comemoração dos cinquenta anos da RTP perturba-me. Vejo as galas, os testemunhos emocionados e os votos para o futuro e só me consigo lembrar do júbilo forçado naqueles regimes comunistas desvairados como, felizmente, já vai havendo poucos, apesar de ainda termos a Coreia do Norte para nos recordar como eram. Imaginemo-nos como cidadãos de Pyongyang no dia da independência, no dia da fundação do partido, no aniversário do nascimento do líder, no aniversário da morte do líder ou em qualquer outro feriado do calendário oficial. Não conseguimos evitar pensar nos problemas que afectam o país (miséria, fome, atrasos vários, falta de liberdade, falta de informação) mas há algo que nos força a embarcar no clima de euforia circundante, dando louvores aos triunfos da revolução e aplaudindo os desfiles de mísseis de lata oca. Não é necessariamente a ameaça de uma punição que nos leva a agir assim. Talvez seja para não se ficar excluído. Afinal, se toda a gente finge estar feliz, porque não poderei eu fazer o mesmo? Talvez seja só por tédio. Ou por loucura. Com a comemoração de cinco décadas de RTP passa-se exactamente o mesmo. Todos os exemplares proletários dessa grande "república democrática popular" que é a televisão estatal estão muito felizes por poderem ajudar a construir algo tão grandioso e sentem um orgulho quase patriótico por lhes ser dado o privilégio de ali estar, sorrindo muito e sofrendo ataques de delírio esquizofrénico quando elogiam tudo o que diga respeito à RTP, da qualidade da programação ao serviço público prestado e à suavidade do papel higiénico nas retretes. Fazem-no, ignorando a triste caricatura de canal público de televisão em que a RTP se foi transformando ao longo dos últimos vinte anos e que, agora, se tornou institucional e é cultivada. Ou que a “Praça da Alegria” e o “Portugal no Coração,” dois programas que, somados, constituem meio dia de programação da RTP 1, são o equivalente televisivo do extermínio de uma minoria étnica. E não falta quem reconheça essa crítica e a confronte com explicações esforçadas. Que são programas de grande audiência, que fazem companhia às donas-de-casa e aos acamados, que trazem alegria aos idosos e que ajudam os emigrantes a sentir um elo com a pátria distante. Está bem. E os judeus também estavam mesmo a pedi-las. Só ainda não se chegou aos desfiles do 1º de Maio mas eles virão. Talvez para o 51º aniversário. À frente, um carro alegórico com o decano da casa, José Hermano Saraiva, a única figura que aparece ao mesmo tempo na RTP Memória a preto e branco e na RTP 2 a cores. O professor acena à multidão do alto de uma torre de papelão e é seguido pelo cortejo de personalidades ilustres liderado por Júlio Isidro, Serenella Andrade, Fátima Campos Ferreira e José Rodrigues dos Santos. Segue-se o carro de Catarina Furtado erigida em “mãe-pátria” com cabelos soprados por uma brisa de laca, mama descoberta (postiça claro, era só o que faltava) e erguendo bem alto o facho eterno da radiodifusão. Intervaladas por uma representação dos funcionários subalternos mais dedicados e produtivos, as armas de maior potência do arsenal encerram o desfile. Merche Romero ergue o queixo para a tribuna de onde Nuno Santos e Almerindo Marques lhe acenam e piscam o olho. Atrás, Ricardo Araújo Pereira ergue os potentes bíceps cómicos sobre os quais se sentam os seus três dispensáveis amiguinhos. Já quando a multidão começa a dispersar, passa em jeito de carro-vassoura uma caricatura sobre rodas que ridiculariza os dissidentes mais emblemáticos do regime: Herman José e Manuel Luís Goucha. Mas o mais triste de tudo isto (sim, ainda consegue haver alguma coisa mais triste), é que o problema da televisão em Portugal não se esgota, nem por sombras, na RTP. Se a RTP é uma Coreia do Norte, a SIC é uma Albânia de Enver Hoxha e a TVI não deve nada à Roménia de Ceausescu. Bem-haja pelos ecos do lado de lá da Cortina de Ferro que vão chegando até nós. Sim ou Sopas? 24 de Janeiro de 2007 Uma das questões mais fascinantes no debate em torno do referendo ao aborto é a do tipo de argumentos usados pelos partidários do "não." Sem lhes questionar a validade (pronto, está bem, a maioria é duvidosa), há que reconhecer que o facto de serem quase exclusivamente argumentos metafísicos os torna perfeitos e impossíveis de rebater através de qualquer tipo de raciocínio. E isto é válido sobretudo para o argumento usado com mais frequência, aquele sobre "a vida humana ser sagrada" e não exclusivamente no sentido religioso do termo, para não parecer que só as ratas de sacristia o usam. Como se responde a uma argumentação construída em torno disto? "-A vida humana é sagrada!"; "-Ai não é, não!" Um grande tiro no pé, no mínimo. Ou, para adaptar a linguagem ao tema em discussão, um arame pelo útero acima. Quase tão grave como: "-Você quer matar bebés!"; "-Ai pois quero! E quanto mais guinchos de dor intra-uterinos houver, melhor!" Pensando no assunto um bocadinho mais a sério (o que é difícil, perante os níveis elevados de parvoeira que povoam a maior parte dos debates sobre a matéria), há alguma confusão quanto à questão fundamental. Simplificar-se-ia muito as coisas se, em vez da pergunta palavrosa aprovada para o referendo, se perguntasse às pessoas se têm ou não bom-senso. O bom-senso que lhes permite, mesmo achando que o aborto é uma coisa terrível e contra os seus princípios (quaisquer que eles sejam), pensar que todos devem ser livres para decidir o que fazer com o seu próprio corpo e perceber que um Estado, uma Igreja ou mesmo uma opinião pública maioritária que obriga uma mulher a dar à luz um filho indesejado são aberrantes. Outros argumentos também muito populares são o que refere a necessidade de levar em consideração a vida do embrião e não apenas a vontade da mãe e o outro, talvez um dos mais divertidos, que diz qualquer coisa como "E se alguém escolher matar um vizinho? Se a vontade pessoal, é assim tão importante, então o homicídio teria também de ser legalizado." Bom, estes são bastante mais fáceis de rebater. O segundo porque é uma estupidez e qualquer pessoa que o use deve ser imediatamente esbofeteada com entusiasmo. O primeiro através de uma experiência. Alguém que pense assim, deverá dirigir-se à clínica de fertilidade mais próxima e pedir para lhe mostrarem um embrião e para ficar a sós com ele. Olhe-o bem nos olhos (em sentido figurado, porque pode ser difícil localizá-los), faça-lhe perguntas, converse com ele, procure perceber o que sente. Depois olhe para um espelho e veja a figura de parvo que acaba de fazer (até porque ninguém lhe mostraria um embrião real e o que tem à frente são umas gotas de clara de ovo num vidrinho). E não se pode esquecer também o argumento do macho. Que é aquele que diz que o aborto não deve ser realizado a pedido da mulher porque isso retira o pai da decisão. Ou seja, uma mulher decide não ter um filho mas, porque o pai acha o contrário, terá de se resignar, sendo-lhe extraído o embrião para injectar na nuca do progenitor de onde, ao fim de nove meses fisicamente esgotantes, emergirá por uma das narinas. Algures na frase anterior, a realidade foi mandada à fava e entrou-se no domínio de uma ficção científica absurda. A verdade é que a igualdade entre os sexos não se aplica neste caso (é favor ler o que acima se disse sobre decisões tomadas sobre o corpo de cada um) porque a Natureza assim entendeu. A mesma natureza que entendeu dotar-nos a todos (ou a uma boa parte de nós... pelo menos a alguns, sem dúvida) com o dom do bom-senso. E são as pessoas de bom-senso que decidirão. A não ser que o dia esteja convidativo para um passeio. Ou para ir ao centro comercial. Ou ao café. Ou para ficar a ver televisão. Ou... A vingança do ditador 4 de Janeiro de 2007 2006 ficará na memória comum como o ano em que juntámos ao consumo obsessivo de passas e champanhe, ao fogo de artifício e ao uso de roupa interior azul uma nova tradição de réveillon: procurar os melhores ângulos do enforcamento de Saddam Hussein. A televisão não ajudou muito, transmitindo apenas imagens “soft” do condenado a ser conduzido ao cadafalso e a receber a corda ao pescoço com sangue frio digno de um tirano à moda antiga. Quem não dispensasse os pormenores mais sumarentos, poderia sempre recorrer à internet, habitual relicário inesgotável de podridão humana, para ver que o homem que governou o Iraque durante várias décadas, o ditador que não hesitava em chacinar o seu povo, o vilão que idealizou a invasão injustificada de dois países vizinhos estava morto. E estaria mesmo? Consumados os factos, chega agora a altura de começar a preparar as teorias da conspiração. A minha é esta: É sabido que Saddam tinha sósias e parece-me inegável que o barbudo capturado por tropas americanas num buraco e julgado em tribunal durante todo este tempo tem uma fisionomia suficientemente diferente da exibida pelo Saddam de antes da “libertação” para se duvidar tratar-se da mesma pessoa. Partamos
do princípio de que não é. Imagine-se que o verdadeiro
Saddam está algures num hotel de luxo no Dubai, disfarçado
com o cabelo tingido de louro e um sotaque francês fictício,
assistindo ao seu próprio julgamento e execução
da mesma forma que qualquer um de nós (talvez com um pouco mais
de conforto). E imagine-se que sorri. Não por saber que, finalmente,
deixará de estar nas bocas do mundo mas por um motivo muito mais
sinistro. Porque, afinal, a vitória acabou por ser sua. No dia seguinte à execução, um enfermeiro americano que com ele privou veio a público falar de um homem simples que nunca esqueceu as suas origens campestres, que se dedicava à jardinagem, que escrevia poemas e lhe relatava com saudade os tempos em que contava histórias aos filhos para adormecerem. Que se despediu dele com um abraço fraterno. O homem que enfrentou estoicamente os insultos dos seus carrascos e que foi vitimado por uma morte horrível com violência exagerada (este comentário em particular é delicioso porque parece sugerir-se que algum malvado retirou a beleza e a magia típica dos enforcamentos). Ou seja, no momento da morte, Saddam conseguiu que meio mundo se comovesse e trocasse o ódio pela pena. Algo que Augusto Pinochet, ditador igualmente sanguinário e merecedor de igual tratamento, nunca conseguiu, mesmo tendo passado os noventa anos e morrendo de forma tranquila numa cama com o apoio dos EUA (o mesmo que Saddam teve outrora) a servir-lhe de almofada. The Great Portuguese 9 de Novembro de 2006 (Excepcionalmente, este espaço será preenchido com um texto da autoria de Humberto Bernardo, originalmente publicado no seu blog "O Estado Negação" e aqui reproduzido com autorização do autor a quem agradeço a disponibilidade.) Inspirado no polémico Great Britons que a BBC Two lançou em 2002, a televisão pública lançou mãos à obra e apresenta, orgulhosa, "Grandes Portugueses", no prime time da RTP1. Queria ter começado por escrever estas palavras dizendo que seria impossível para os ingleses misturarem Shakspeare com Beckham, mas saiu-me o tiro pela culatra. Afinal lá como cá os exemplos de sodomia pública não param, desde a meia hora que Petr Chec esperou por uma ambulância com um traumatismo craniano com afundamento, até este inovador conceito televisivo e estadual. Num certo sentido uma das vantagens das estações privadas é a sua genuinidade, ou seja, não se podem dar ao luxo de enganar os segmentos, sob risco de os perderem. Assim, fazem produtos essencialmente pimba e quando arriscam algo mais elaborado, procuram seguir à risca as regras necessárias. A televisão pública pode cuspir calmamente na face dos portugueses, fruto um pouco da ideia do utilizador pagador: pagamos, logo aceitamos. Uma grande portuguesa O
segredo do sucesso de Maria Elisa é simples: é uma figura
banal e medíocre, condição sine qua non para vencer
neste país, neste meio. De facto, ninguém consegue detectar
uma ponta de talento, de eficácia, um rasgo, um momento surpreendente.
Ela mantém-se numa verificável linha estável, num
cinzentismo permanente, num tom monocórdico, embora arrastado,
como convém. O Formato Primeiro
estranha-se, depois adora-se. É um prazer poder escolher os Grandes
Portugueses. Basicamente porque não existe qualquer possibilidade
de critério para tal escolha. Não, não é
um programa de non sense. É a primeira experiência daquilo
que pode ser um novo conceito: a televisão surrealista. Poderemos
sempre pensar que alguns vão votar por opção política.
Será evidente o que levará uns a escolher Zeca Afonso
e outros Oliveira Salazar. Outros por clubite: embora erradamente, uns
decidirão que o maior português é António
Jesus Correia, outros, Eusébio. Salvaguardar
que Mário Soares é o único português vivo
sugerido cuja fotografia tem mais de 20 anos. É um claro sinal
que quem aceitar a sugestão está a votar no fantasma e
não no Mário Soares, vivo, activo e que recentemente concorreu
democraticamente a eleições. Ramalho Eanes, Sampaio, Saramago,
Paula Rego, enfim, todos os outros Grandes Portugueses vivos têm
fotografias actuais. Os que faltam Não
obstante a oportunidade de tão divertido programa e apesar de
podermos votar em quem quisermos, é no mínimo injusto
que alguns portugueses não estejam na lista de sugestão
a começar logo por Maria Elisa, mas também Judite de Sousa,
Fernando Seara, Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz. A bronca na GB Basicamente
o programa, em terras de sua majestade, deu barraca. Estranho. E por
alguns motivos: primeiro a BBC Two resguardou o mais que pôde
Winston Churchil, para que não desse uma verdadeira cabazada
nos oponentes, o que veio, finalmente, a verificar-se. Claro que em Portugal não se vai pôr esta questão porque obviamente Eusébio é português e pode entrar e Xanana é timorense e não pode. A minha Lista Ao fazer um exercício muito idêntico ao do programa, constato que, ao contrário de outros compatriotas, dou muita importância às artes, às letras e às ciências. 1-
João César Monteiro 11- José Águas, 12- Emanuel Nunes, 13- Toni, 14- Nuno Gomes, 15- Paula Rego, 16- Diamantino, 17- Simão Sabrosa, 18- Sobrinho Simões, 19- Rui Águas, 20- Mário Wilson, 21- Bento, 22- Fernando Pessoa, 23- Pietra, 24- Bastos Lopes, 25- Fernando Meira, 26- Mário de Sá Carneiro, 27- Vítor Batista, 28- Cavungi, 29- Shéu Han, 30- Álvaro, 31- Veloso, 32- Luís Miguel Cintra, 33- O Barbas, 34- Jorge Máximo, taxista, 35- Petit, 36- Ricardo Rocha, 37- Laranjeira, 38- Alberto, 39- José Saramago, 40- Simões, 41- Costa Pereira, 42- José Augusto, 43- Alexandre Quintanilha, 44- Jaime Graça, 45- Tavares, 46- Nelo, 47- Futre, 48- Miguel, 49- Manuel Fernandes, 50- João Magueijo, 51- João Alves, 52- Carlitos, 53- Jorge de Brito, 54- José Henriques, 55- Neno, 56- Florbela Espanca, 57- Florbela Queiroz, 58- Gil, 59- Paulo Madeira, 60- José Moreira, 61- Nélson, 62- Bruno Bastos, 63- Carlos Alhinho, 64- Infante Dom Henrique, 65- Carlos Lisboa, 66- José Azevedo, 67- Vanessa Fernandes, 68- António Leitão, 69- Silvino, 70- João Pereira, 71- Nuno Assis, 72- Quim, 73- Siza Vieira, 74- Gullit (célebre líder dos NN, já falecido), 75- Cosme Damião, 76- Ribeiro dos Reis, 77- João Santos, 78- Luís Filipe Vieira, 79- José Veiga, 80- Hélio Roque, 81- Manoel de Oliveira, 82- Torres, 83- Matine, 84- Malta da Silva, 85- Arsénio, 86- Félix, 87- Pipi, 88- da Margarida Rebelo Pinto, 90- Germano, 91- Borges Coutinho, 92- Manuel Damásio, 93- Cavém, 94- Paulo Jorge, 95- Luís Vaz de Camões, 96- Artur Santos, 97- Maurício Vieira de Brito, 98- Salazar, 99- Rosa Casaco e 100- Maria Elisa Domingues! Conclusão Dos fracos não reza a história, diz o povo e portanto toca a votar. Aconselho vivamente o voto por chamada de valor acrescentado. Pensa que vota assim, em quem quiser, sem pagar? Não esqueçamos um objectivo secundário: os nossos impostos pagam esta charada, sem espinhas. Mas se o in come for gratificante, outros belos programas se seguirão. Esse problema não diz respeito a Maria Elisa. Por esta altura estará de novo a caminho do quadro d'A Mama. A invasão das Merches 26 de Setembro de 2006 Quem vê os canais generalistas (os masoquistas e os que ainda não conseguiram ampliar o seu espectro de telelixo com as maravilhas do cabo ou do satélite) já terá reparado no fenómeno curioso que é a multiplicação das Merches. Por “Merches” entenda-se raparigas acabadas de sair da adolescência, altas, magras e decorativas, nada telegénicas, nada perspicazes, dividindo entre si o mesmo micrograma de personalidade e sem o mínimo talento para empurrar a câmara, quanto mais para aparecer à frente de uma. Merche Romero pode não ter sido a primeira (Sónia Araújo, por exemplo, antecedeu-a, apesar de não ser particularmente alta, sendo vistosa e magra q.b.) mas é, sem dúvida, a mais célebre e uma das poucas que o público vai conhecendo pelo nome. Tal não se deve à sua prestação profissional mas isso são contas de outro rosário. De qualquer forma, justifica-se que o nome de Merche seja usado para classificar todo um grupo. O fenómeno não se limita a um canal. Dividem-se pelos três e até na 2 deve haver alguma a apresentar magazines culturais ou de saúde a meio da tarde. A diferença está na aplicação que cada canal dá às suas Merches. Se na TVI as Merches habitam maioritariamente o departamento de informação, dando cara (laroca) a reportagens ou fazendo mesmo de pivot, as Merches da SIC vão parar à ficção em projectos construídos unicamente com o objectivo de as despir a bem da arte. É a RTP 1, no entanto, o habitat por excelência das Merches e pertence-lhe também o pioneirismo da Merchice. Em nenhum outro canal há tantas Merches e, não se sabendo muito bem como, estão quase todas no “Portugal no Coração” quer seja na pele de co-apresentadoras (uma das 400) ou em missão especial à Venezuela, à África do Sul ou a outro país com uma significativa comunidade imigrante portuguesa para, com as suas figurinhas de manequim de loja, matarem saudades aos luso-qualquercoisa do produto nacional. Mas de onde vêm afinal as Merches? Portugal nem é particularmente rico em raparigas altas e magras para justificar tal abundância televisiva. Só me ocorre uma explicação. Clonagem. Pode parecer rebuscado mas é a única explicação possível para esta verdadeira invasão que se verificou ao longo dos últimos anos. Todas têm a mesma cabeça oca, sorriso plástico, olhar vazio e discurso imbecil. Todas parecem igualmente alheias à sua gritante falta de capacidade. É como se todas tivessem sido feitas a partir do mesmo molde. E acredito que foram. Algures no país existirá um laboratório de clonagem a que apenas as estações de televisão têm acesso. As Merches são feitas por encomenda, variando-se algumas características físicas (cor dos olhos, cor do cabelo etc) ou mesmo com variações mais arrojadas (Tânia Ribas de Oliveira é uma Merche de pleno direito sem ser particularmente vistosa e Hélder Reis saiu uma Merche um bocado máscula mas não muito). Há até o exemplo de Isabel Angelino, uma Merche protótipo que saiu com gritantes defeitos de fabrico mas que é aproveitada na mesma porque estamos em crise e não se pode desperdiçar. Não existirá grande perigo nesta invasão. Pelo menos enquanto o amigo controlo remoto estiver do nosso lado. Mas é profundamente imoral que o laboratório de clonagem secreto não possa ser usado em proveito do país. Por exemplo, para criar políticos incorruptíveis e com QI superior a 2, burocratas amigos da simplificação, dirigentes desportivos honestos ou funcionários de repartição pública que gostem realmente de lidar com as pessoas. Isso é que é pena. Terrorismo Agosto de 2006 Estava escrito que o terror havia de voltar. Não havia volta a dar-lhe. E voltou, cumprindo-se a profecia dos inúmeros profetas modernos a quem é de bom-tom chamar “especialistas.” Sempre lhes confere uma aura mais credível. Especialista é alguém impecavelmente vestido e sisudo q.b. a debitar opiniões num noticiário televisivo. Profeta invoca imagens de velhos barbudos e andrajosos a vociferar ameaças crípticas do alto de penedos. Estamos melhor com os especialistas. E ponham-se de parte as desconfianças. É verdade que o mundo foi aprendendo ao longo dos últimos anos a não confiar cegamente em nada do que emana dos governos dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha. Tivemos já várias ocasiões concretas em que ficou provado que não podemos fazê-lo (lembre-se quando fomos informados de que a guerra no Iraque tinha acabado ou, ainda antes, quando Colin Powell foi à ONU mostrar as armas de destruição maciça de Saddam Hussein). Isso é bom senso. O mesmo bom senso que nos leva a pensar que George Bush, Tony Blair e companhia talvez (sublinhe-se o “talvez”) tenham motivos mais ou menos escondidos para manter o mundo num clima de medo e em alerta para uma ameaça global cuja existência ou inexistência não pode ser provada por ninguém, à espera de um inimigo que está, simultaneamente, em todo o lado e em parte alguma. Mas até o bom senso tem limites. Vamos a uma metáfora campestre. Se, na capoeira, uma das galinhas se põe a cacarejar porque viu uma raposa, as outras desatam numa correria desvairada, fazendo os possíveis para subirem aos poleiros mais altos. Mesmo que a raposa fosse apenas uma sombra inofensiva. Ou que a galinha que deu o alerta quisesse subir nas sondagens ou tivesse negócios multimilionários com fabricantes de armas e companhias petrolíferas. E nós, tal como as galinhas, temos uma grande capacidade para esquecer o bom senso quando o que está em causa é a integridade física da nossa crista. Além disso, trata-se da Scotland Yard e não de uma ave de capoeira, o que confere confiança acrescida. E a polícia britânica não costuma cometer erros (exceptuando o abate ocasional de fundamentalistas islâmicos que, afinal, eram brasileiros atrasados para o trabalho). Se foi desmantelada uma conspiração internacional que provocaria milhares de mortos e se foram presos 24 suspeitos, o mundo aplaude, agradecido. Continuem a zelar por nós e protejam-nos das sombras malvadas. ................................ Com tudo isto, veio a necessária alteração nas regras dos voos comerciais. A partir de agora, de forma temporária, as autoridades britânicas restringiram severamente os itens que podem ser incluídos na bagagem de mão. Mas talvez não tenham ido tão longe quanto deveriam. A saber: -Os objectos têm de ser transportados em sacos de plástico (de preferência transparentes). As malas e mochilas são proibidas. Muito sensato. É relativamente fácil enfiar a cabeça de alguém dentro de uma mochila, selá-la com adesivo e esperar algumas horas até que morra por asfixia. Os sacos transparentes permitem a identificação do assassino o que dificulta as coisas aos malfeitores que procurem usá-los para o mesmo fim. -Os líquidos passam a ser proibidos para evitar o transporte para a cabine de explosivos líquidos ou ingredientes que permitam fabricá-los. Pelo mesmo motivo, não é permitido trazer para bordo conjuntos de química para crianças e os passageiros que forem apanhados a manusear tubos de ensaio e bicos de gás poderão ser detidos. As soluções para lentes de contacto estão proibidas e o leite para bebés tem de ser provado por um adulto. Mas não se pode ficar por aqui. As mães em aleitamento deverão ser submetidas a um processo de ordenha preventiva para assegurar que não transportam nitroglicerina. Os diabéticos podem levar a sua insulina mas é preciso cuidado. Devem ser vigiados constantemente para assegurar que não a injectam em alguém, podendo provocar morte por hipoglicemia. -Os medicamentos receitados são permitidos mas apenas depois de se confirmar que são reais. Por exemplo, os comprimidos terão de ser tomados um a um antes do embarque para garantir que não são explosivos disfarçados. -É permitido levar óculos graduados ou de sol. E não devia ser. Custa a crer que algo tão óbvio tenha escapado aos especialistas em segurança aérea porque as lentes poderão ser usadas em conjunção com a luz solar para provocar pequenos incêndios. -Os itens de higiene feminina como tampões e pensos higiénicos poderão ser levados para bordo mas fora das caixas respectivas e apenas em quantidade suficiente para a duração do voo. É bom ver que não se esqueceu o incidente de Islamabad em 2004, quando um passageiro tentou accionar um engenho explosivo fabricado com vários tampões e detonado pela bateria de um telemóvel. E acrescente-se que os tampões eram de grande absorção. -Passa a ser proibido levar aparelhos electrónicos para bordo, já que a bateria dos mesmos pode ser facilmente convertida em detonador. Tão facilmente como uma lesma pode ser convertida em arma ofensiva, bastando apenas secá-la ao sol, revesti-la com aço e afiar as extremidades. Mas
não podemos ficar por aqui. Porque qualquer coisa é passível
de ser usada para fins nefastos e porque nunca se sabe quando o passageiro
do lado está a misturar sub-repticiamente os ingredientes de
um explosivo líquido e a aplicar-lhes um detonador, o melhor
é mesmo transportar apenas passageiros nus e adormecidos por
tranquilizantes. O Programa Ideal Junho de 2006 Esta pode ser a última vez que escrevo. Num daqueles lampejos de genialidade que ocorrem uma vez a cada cem anos, caiu-me no alto da cabeça, qual maçã de Newton, a receita infalível para fazer o programa de televisão ideal para o público português. E isso far-me-á rico. Muito rico. Suficientemente rico para passar o resto da vida a viver em Beverly Hills, ocupando o tempo a entrevistar candidatos ao cargo de passeador oficial dos meus muitos galgos afegãos. Começaria por um cenário colorido (e quando digo “colorido,” quero mesmo dizer “colorido;” qualquer coisa que abrangesse no mínimo dois terços do espectro cromático) com palco para atracções musicais, zona de conversa com sofás e almofadas rodeando uma mesa geométrica vanguardista e com espaço para sentar público de estúdio. Os apresentadores seriam três. Um homem (cruzamento entre Fernando Mendes e Manuel Luís Goucha - macho ma non troppo) que teria obrigatoriamente um handicap qualquer, ou seja, poderia ser obeso mórbido, não ter uma perna, gaguejar ou ser viúvo recente, alguma coisa que permitisse ao público simpatizar com ele de imediato e estabelecer uma saudável empatia. A seu lado, duas mulheres. Uma jovem e bonita, loura de preferência e suficientemente estúpida para fazer os outros dois parecerem físicos nucleares. A outra já entradota, quarentona talvez, gorda, mãe de dois filhos e mulher de um operário fabril desempregado que bebesse e lhe chegasse a roupa ao pelo sempre que o Glorioso perdesse pontos. Caber-lhe-ia representar o “País Real” e conferir ao programa um pouco de sabedoria popular. Para além destes três, alternaria a visita de um negro vestido com tanga de pele de leopardo (que fizesse um número cómico em que se abanaria muito ao som de kuduru e se roçasse num dos apresentadores sem dizer uma palavra) com uma rubrica de comentário social em que dois homossexuais efeminados, mas não assumidos, comentariam recortes de revistas cor-de-rosa mostrados num ecrã através de gritos agudos lancinantes e momentos de pugilato homoerótico com cabelos arrancados e uma ou outra carícia dissimulada nas partes baixas respectivas. Em cada programa existiria uma atracção musical convidada que deveria conformar-se a um conjunto de exigências: -Vestuário
com mais de oito cores diferentes (tonalidades da mesma cor não
contam). Haveria também um momento sério em que deficientes profundos, desempregados de longa duração, esposas traídas, gordos a pedir banda gástrica, filhos abandonados, mamalhudas que gostariam de fazer reduções, jovens sem posses que gostariam de comprar uma playstation de último modelo desfiariam o seu rosário de queixas acompanhados por música comovente de violino e piano e receberiam o conforto e a simpatia gerais. Seguir-se-ia um passatempo em que, quem fosse mais lesto a ligar para o número no ecrã ganharia uma quantia modesta em dinheiro que, por gritos e estardalhaços da equipa de apresentadores pareceria uma grande fortuna. Além disso, poderia passar largos minutos a falar do que lhe viesse à cabeça, podendo ser desde queixas de saúde a louvores aos apresentadores ou a alguém muito parecido com eles que também aparecesse na televisão. Uma parcela ínfima do valor das chamadas, mais alto do que o prémio, reverteria a favor dos participantes na rubrica anterior. Para além da atracção musical convidada, o programa teria uma banda residente composta por adolescentes com bom aspecto que protagonizariam também uma pequena rábula telenovelesca, servindo esta, sobretudo, para promover a venda de discos e merchandising. Espaçados pelo programa, os inúmeros intervalos comerciais serviriam para vender trens de cozinha milagrosos, colchões ortopédicos, preservativos adaptáveis e cerveja com sabores variados. O horário de exibição seria indiferente e a duração deveria ser mais para o longo do que para o breve. Quanto ao título, qualquer coisa cheia de significado e emoção que despertasse o melhor do pior em cada espectador. Qualquer coisa como “Com o amor no coração” ou “Nós e você – Paixão e Devoção” ou ainda “Espectador Querido, Quero Coisar Contigo.” É só puxar pela imaginação. O Código do Código Da Vinci Maio de 2006 É impossível falar do fenómeno “Código Da Vinci” sem referir a aura de secretismo que o rodeia. O secretismo não diz respeito apenas à natureza de thriller com revelações e um desfecho que se querem surpreendentes mas à existência de segredos adicionais para os quais o romance de Dan Brown apontará o caminho sem ir muito além disso, de modo a permitir ao leitor chegar lá através do seu próprio poder dedutivo. Segredos que podem mudar o mundo como o conhecemos. Segredos que podem revolucionar o Cristianismo. Segredos que prometem virar do avesso o ordenamento social do Ocidente. Tretas. Mas Dan Brown até se baseou em factos verídicos, não foi? As sociedades secretas referidas existem realmente e o livro está cheio de revelações bombásticas sobre monumentos arquitectónicos e obras de arte e isso não pode ser desmentido, pois não? Mais tretas. Há realmente segredos escondidos no “Código Da Vinci.” Mas nem são assim tão secretos como isso. O primeiro “segredo” é que Dan Brown é um escritor medíocre e, tivesse mais cabelo, silhueta anoréxica e um passaporte português, daria uma perfeita Margarida Rebelo Pinto. Tem um mérito que a nossa Margarida não tem. Lá vai conseguindo manter o leitor preso e interessado até à desilusão final. Segundo segredo: os “factos” em que o romance se baseia resultam de uma investigação pseudo-histórica desmentida de forma unânime por todos os investigadores que não têm a palavra “logro” inscrita na testa com grandes letras vermelhas. As referências a organizações mais ou menos secretas, mais ou menos históricas podem dividir-se em dois tipos diferentes. Por um lado, fala-se de organizações que existem ou existiram realmente mas atribuem-se-lhes naturezas fantasiosas. Por outro, o tão falado “Priorado de Sião” foi fundado por um grupo de foliões franceses na década de 50 e, por vários motivos que nem vale a pena referir, é mais provável que Leonardo Da Vinci tenha sido presidente do Benfica do que um dos seus grão-mestres. A única verdade neste capítulo é que a Opus Dei é uma associação de beatos esquisitos. Apetece desejar-lhes que carreguem com afinco nas mortificações. Força nessa chibata, Mota Amaral. Terceiro segredo: a saloieira mística New Age do sagrado feminino que acaba por fazer tanto sentido como o sagrado masculino ou o sagrado outra coisa qualquer. Por cada adorador de uma deusa anafada e mamalhuda ao longo da história, houve três adoradores de diabretes com erecções monstruosas e milhentos devotos de calhaus, troncos, lagartixas ou bostas petrificadas. O próprio filme também guarda segredos muito próprios. Ron Howard, celebrizou-se com a série “Happy Days” e tinha muita graça com o cabelo ruivo e a cara de palhaço. Como realizador, o melhor que se pode dizer a seu respeito é que continua a ter muita graça com o cabelo ruivo que lhe resta e a cara de palhaço que não se alterou. Até começou bem com a ingenuidade aprazível de filmes como “Cocoon” ou “Splash” mas, com o sucesso e a consagração, envaideceu e é agora um dos mais perfeitos exemplos do realizador tarefeiro de Hollywood que cumpre o seu papel de dar aos estúdios e ao público o que querem e sem tentar levar a coisa um milímetro mais além. Com o seu “Código Da Vinci” (produzido por Dan Brown), Howard consegue que actores perfeitamente capazes consigam parecer um bando de cepos e sem terem grande culpa porque, obrigados a basear-se em material daquela qualidade, nem com um milagre poderiam ter feito melhor. Mas o filme não se limita a ser a adaptação do livro. Faz também duas coisas espantosas. Por um lado, serve de veículo para justificar a imbecilidade do autor quando diz, em prólogo ao romance, que tudo aquilo é baseado em factos, numa altura em que já se sabia que não era assim. E fá-lo, expondo os elementos que contradizem a veracidade da coisa e apondo-lhes esse magnífico argumento que é: “É falso? Pois é isso mesmo o que ELES querem que se pense!” Convincente, sem dúvida. Além disso, numa colossal demonstração de cobardia da produção (Dan Brown incluído), há um esforço óbvio e doloroso para dar o dito por não dito e tentar acalmar reacções mais veementes da parte dos ofendidos do costume. As verdades bombásticas expostas no livro passam a ser apenas opiniões desta ou daquela personagem, deixando-se bem claro que acreditar ou não é uma escolha pessoal e que o mais importante, afinal de contas, é que Jesus Cristo é/foi/será um tipo bestial. E o maior segredo de todos acerca do Código Da Vinci é bastante simples. Sem ser preciso comprar livros com títulos como “Os Segredos do Código Da Vinci”, “O Segredo dos Segredos do Código Da Vinci” e por aí fora. É que o livro não é grande espingarda. O filme também não. Camacho Costa outra vez Maio de 2006 O actor Camacho Costa morreu há três anos. Construiu uma carreira de personagem secundária em comédias “populares” (palavra que, em Portugal, é eufemismo para referir falta de qualidade). A sua morte e, antes disso, o anúncio público de padecimento de uma doença grave em fase terminal deram origem a um fenómeno curioso. A partir do momento em que Camacho Costa apareceu no canal, onde participava num programa de humor, de cabeça calva e voz rouca, admitindo estar doente (sem que alguém alguma vez lho tivesse perguntado), foi de imediato elevado à condição de “grande nome dos palcos, da televisão e do cinema.” Pouco depois, estreava-se “Não Há Pai,” tentativa falhada de repetir o sucesso de uma série de comédia brasileira gravada ao vivo (explicando-se o fracasso por ter sido feita com um quinto do talento). O programa “Levanta-te e Ri” foi idealizado para ser apresentado por ele. O seu livro, “Camacho Costa, Prazer de Viver,” escrito por terceiros, pretendeu deixar para a posteridade um pouco mais sobre o homem que um cancro elevou de besta a bestial. Não sei se era isto que pretendia com o anúncio público da doença. Não acredito que fosse. Mas era previsível. Temos em Portugal uma qualidade ímpar que é a capacidade para a solidariedade e para o amparo a quem precisa. Essa qualidade louvável depressa se transforma em defeito quando exacerbada. Deixa de ser solidariedade e passa a ser pena. Ou “peninha.” Foi a pena (e a “peninha”) que colocou Camacho Costa num pedestal onde nunca teria chegado de outra forma. E voltamos hoje a viver o mesmo. Francisco Adam tinha 22 anos e fazia parte do elenco da telenovela da TVI “Morangos com Açúcar.” Desde a sua morte num acidente de viação que se têm repetido as manifestações públicas de pesar e as homenagens devidas após o que muitos descreveram como “morte de um ídolo.” Não querendo parecer insensível e respeitando todos os apreciadores dos “Morangos com Açúcar” (com votos sinceros de que ganhem juízo com a passagem dos anos e uma adolescência intelectualmente mais saudável), faço um apelo daqui do alto deste pedestal em que me coloquei a mim próprio com precioso auxílio dos Bombeiros Voluntários do Seixal e da sua escada Magirus, para que haja um pouco de bom senso. Transmitir em directo o funeral de Amália Rodrigues talvez seja justificável pela dimensão nacional e internacional que a cantora alcançou. Fazer o mesmo com o funeral de um actor dos “Morangos com Açúcar” não só banaliza como torna ridículo o gesto (e isto é dito desta forma porque não me passa sequer pela cabeça que a TVI pudesse transmitir o funeral como mais uma forma de aproveitamento da desgraça alheia em benefício próprio). Ao longo da história, muitos foram os casos de artistas que só viram o seu talento reconhecido depois da morte (Van Gogh e Kafka, por exemplo). Em Portugal, acontece algo peculiar. Temos gente que vê o seu talento reconhecido depois da morte mesmo quando este nunca existiu em vida. O jovem Francisco Adam perdeu a vida quando começava a vivê-la. Foi mais uma vítima trágica do campo de extermínio em que se converteram as estradas deste país. Teria sem dúvida muitas qualidades pessoais, seria um rapaz simpático, esforçado e amigo do seu amigo. Os familiares sentirão sem dúvida a sua falta. Mas, como actor, era uma nulidade. Deixem a Margarida em paz! Abril de 2006 Diz-se para aí que os méritos literários de Margarida Rebelo Pinto são duvidosos. Até há, ao que parece, alguém que se deu ao trabalho de fazer uma análise exaustiva e comparada dos seus livros para, em jeito de revelação inesperada, mostrar aos portugueses (talvez aos que fizeram dela uma autora best-seller) que a rapariga não sabe escrever. Tudo calúnias de gente invejosa! Façamos uma incursão pelo campo hipotético. Se fosse mesmo verdade que Margarida Rebelo Pinto tem tanto talento para escrever como para pintar frescos renascentistas (e sendo inegável que, até à data, não se lhe conhece qualquer obra deste género), como se explica que tenha tanto livro publicado? Com certeza, já alguém teria percebido a existência destes defeitos todos após publicação do primeiro ou mesmo antes, visto que o principal critério para publicação de obras literárias é, como se sabe, a qualidade e essa só pode ser avaliada após leitura atenta. Avançar com qualquer outra possibilidade é disparatado e revela segundas intenções. E mesmo que seja verdade que a Margarida dê erros, repita constantemente as mesmas frases no mesmo livro ou em vários, faça citações despropositadas e não identificadas, que os enredos sejam simplistas e repetitivos, que o seu estilo seja primário e infantil, chegará isso para a acusar de não saber escrever? Viajemos no tempo. Não disseram coisa parecida aos pintores impressionistas quando se atreveram a abandonar as formas tradicionais de representação pictórica? Quantas vezes não terá Picasso ouvido questionar os seus dotes artísticos por gente que olhava para as suas figuras e não lhe conseguia reconhecer qualquer forma concreta? Quem sabe se não terão dito também a Eça de Queirós que se repetia e que os seus livros eram meras histórias de cordel, relatando romances inócuos entre Bernardos e Anabelas? O talento de Margarida está à altura do país que a lê. Essa é a única verdade nesta questão. E um dia receberá a consagração que hoje não tem. Tenho dito. Eu e os outros Março de 2006 Anos atrás, nos primórdios deste humilde recanto internético, adquiri o hábito, entretanto parcialmente perdido, de falar na primeira pessoa do plural, dando a entender que existiria uma multidão por trás da Inépcia. Pensava eu que a coisa ficava com um ar mais sério e refinado se não se conhecesse a realidade, ou seja, que é fruto exclusivo do meu excesso de tempo livre. Há algum tempo, muito depois de assumir a minha solidão criadeira, comecei a descobrir pessoas que, em sítios variados, afirmavam ser colaboradores da Inépcia. Não foi só um. Nem dois. Nem três. E isso, pela bizarria, pôs-me a pensar, que é uma coisa que evito fazer por ordens do médico desde aquele dia trágico em que passei quase meia hora a tentar arranjar maneira de reconciliar árabes e judeus e fracturei o perónio. Cheguei à conclusão de que não podia tratar-se de fãs psicóticos pois não fazia qualquer sentido tê-los antes de ser milionário e ter oportunidade de aparecer na primeira página do 24 Horas a desmentir ser o pai do filho mutante da Catarina Furtado. Foi então que me ocorreram uma série de possibilidades muito preocupantes. E se, pensei eu, estes colaboradores fictícios não o fossem? Seria possível que, por imaginá-los, os tivesse tornado reais sem saber? Ou, será que o imaginário era eu? Talvez um grupo de gente se tivesse reunido para construir um site, criando um pseudónimo colectivo. Também é perfeitamente possível que eu seja real mas não tenha nada a ver com isto. Posso ser um maluquinho preso numa cela almofadada mas com ligação à internet que exorciza com esta fantasia uma vida pejada de traumas. O fã psicótico posso ser eu! Sendo assim, quem é o autor ou autores? E quem são vocês? Está aí alguém? Este texto está mesmo a ser lido? E será que alguma vez foi escrito? Será que existe alguém para o escrever? Uma coisa, no entanto, é certa. A filosofia dá cabo de um gajo. Rescaldo das presidenciais Fevereiro de 2006 Para quem já não se lembra, foi assim… O Cavaco ganhou, como já se esperava. Um terço do país ficou feliz. Outro terço nem por isso e o último terço esteve-se nas tintas (como também já é habitual). Mesmo assim, lá foi dizendo as duas frases clássicas que se esperam de qualquer presidente eleito. Que será o presidente de todos os portugueses (menos de um sacana de Boliqueime que lhe roubava os berlindes quando era miúdo) e que a sua vitória não foi a derrota de ninguém. Houve bandeiras vermelhas, verdes e alaranjadas, gritos de “CAVACO! CAVACO!” e “PORTUGAL! PORTUGAL!” (mas mais dos primeiros do que dos segundos) e folgou-se bastante ali para os lados de Belém, aproveitando a proximidade do palácio para tirar medidas ao portão e ver se o camião das mudanças consegue subir a rampa. Soares
perdeu. E muito. Mas não ficou triste porque a democracia é
mesmo assim e folgou em vê-la com saúde, saudando o adversário
vencedor com fair play democrático. Depois olhou à volta
com ar confuso e percebeu que não estava em 1986 e que não
precisava de ir para o Hotel Altis, o que até era bom porque
não tinha dormido a sesta de tarde e estava cheio de sono. Jerónimo
perdeu mas já esperava e até não ficou nada desagradado
com os votos que teve. Com Louçã foi o mesmo mas não
gostou da percentagem. Ambos concordaram que a culpa foi do governo. Mendes teve de tomar meio quilo de calmantes (um quarto do seu peso) para deixar de ter orgasmos espontâneos de dois em dois minutos e poder fazer a sua declaração de vitória, apesar de o vencedor não ser um candidato partidário, e lembrar que agora é que vai ser, agora é que o país vai começar a andar para a frente. E ele não seja uma pulguinha irritante se isso não é verdade. Ribeiro também achou bem que Cavaco tivesse ganho e foi dizendo que era um dia histórico. Ninguém lhe ligou nenhuma. Muitos nem percebiam quem era ou porque estava a falar. Afinal, era só o presidente do “outro partido.” Jardim deu os parabéns a Cavaco mas com cautela. Desde que os interesses autonómicos dos madeirenses sejam respeitados, o professor só tem a esperar apoio incondicional. Mas se melindrar a pérola do Atlântico e o seu porco-mor (pérolas a porcos, já dizia a sabedoria popular), será corrido a bofetões como o mais imundo esquerdalho. Foi mais ou menos isto. Nada que não fosse esperado, portanto. Um novo regime político para Portugal Janeiro de 2006 Muito se tem falado na mudança do regime político actual em vigor no nosso país. Há quem ache ser necessário passar do regime semi-presidencialista actual para um regime presidencialista. Outros há que referem a necessidade de criação de um parlamento bicameral com a constituição de um senado (esta medida teria a vantagem acrescida de dar senadores a um povo que tanto preza os títulos honoríficos e profissionais). E depois, há a velha história de ressuscitar uma monarquia que fez coisas tão bonitas por Portugal como o aqueduto das Águas Livres, o Pinhal de Leiria, o Mosteiro dos Jerónimos e o bigode de D. Duarte Pio. Mas não
podemos viver só de ideias ultrapassadas nem ter medo da inovação,
mesmo que tal inovação implique pegar no sistema que agora
temos e virá-lo completamente do avesso. Estou convencido de que o país seria um sítio muito melhor para viver se o poder legislativo estivesse entregue a uma assembleia não eleita constituída por todos os homens chamados Sérgio e todas as mulheres chamadas Filomena a residir no país e que tivessem nacionalidade portuguesa. Caber-lhes-ia fazer as leis pelas quais todos nós nos regeríamos. Pode parecer uma coisa arbitrária. Pode haver quem se questione se este grupo de Sérgios e Filomenas teria a formação adequada para tão grande responsabilidade e se podemos entregar-lhe tal poder só por terem um determinado nome. Talvez não. Mas em que ponto é que isso difere do sistema que temos agora em que se põe uma cruz à frente do nome de um partido, cruz essa que se transforma por obra e graça do espírito santo num punhado de deputados que, na maioria, ninguém sabe quem são? O poder executivo ficaria nas mãos do vencedor de um concurso organizado todos os anos a nível nacional para encontrar o português que conseguisse enfiar mais sultanas numa das narinas sem sangrar ou asfixiar. Por se tratar de muita responsabilidade para uma pessoa só, o vencedor do concurso poderia recrutar uma equipa de babuínos treinados especialmente para a função governativa. A chefia do Estado, com toda a sua aura de representação nacional e união dos cidadãos em torno do conceito de pátria, seria atribuída a uma estátua de mármore, representando o actor americano Chuck Norris em tamanho duas vezes superior ao natural. Goste-se do seu trabalho ou não, é uma verdade indesmentível que é o tipo de homem com quem pouca gente ousará medir forças e a carga psicológica de um grande Chuck Norris feito de pedra é imensa. Quanto ao poder judicial, é dispensável e poderia ser extinto. Cláudio Ramos e a cobardia dos outros Dezembro de 2005 O caldo entornou-se. A propósito da citação indevida de um texto da Inépcia feita num programa de televisão brasileiro que, ao que parece, terá ofendido José Castelo Branco e a sua digníssima esposa, Cláudio Ramos disse num programa de televisão de que é colaborador (o único, salvo erro) que o texto citado tinha sido retirado de um site cujo autor era um cobarde. Ora, o autor sou eu, Cláudio. E estou fulo com a tua indelicadeza. Eu que era tão teu amigo. Lembras-te de quando me enviaste um email a acusar-me de não dar a cara quando te usava como personagem de um ou outro texto satírico? Talvez quisesses dizer que a Inépcia nunca teve a minha cara estampada em todos os cantos e recantos como o teu site que já não existe e constituiu uma grande perda para a internet nacional. Os mais maldosos vão pensar que escrevo com um teclado no qual a tecla P e a tecla M estejam trocadas mas não é o caso. Foi mesmo aquilo que quis escrever. Lá te consegui explicar que não era pessoal e que me limitava a aproveitar o único valor que alguma vez tiveste (e que era o valor humorístico involuntário) e que agora, felizmente para nós, infelizmente para ti, já está mais do que gasto. Até me chegaste a confidenciar em tom perfeitamente cordial como te magoava que insinuassem a tua homossexualidade quando esta não correspondia à verdade e até és um homem de família e tudo. Não te desmenti. E, a partir daí, fiquei a pensar que eras um tipo porreiro com sentido de humor e desportivismo. Cheguei mesmo a ter esperanças de receber um convite para te visitar no monte alentejano. Até que, por um assunto que não te dizia respeito, decidiste chamar-me nomes feios pela televisão e, ainda por cima, num programa que não vejo porque, nessa altura, estou ocupado demais a puxar o lustro ao meu cágado de estimação. Tive de ser informado por terceiros e tudo. Quem é que é cobarde, ó minha avestruz quezilenta? Porque tu mais do que ninguém, percebes o valor do bom nome, resta-me convidar-te para resolver isto à antiga portuguesa com um duelo ao raiar do Sol no Jardim da Estrela (ao pé do embondeiro). Podes escolher o dia e as armas. Mas nada de agulhas de crochet, dedais aguçados, sapatos de salto algulha ou outras paneleirices. Armas de homem! Tijolos a vinte passos. Touros amestrados a quarenta pés. Coisas que expludam e dêem tiros. Coisas letais. Escarretas a dezoito metros. A escolha é tua. Só não pode ser com os punhos porque não quero estragar a cútis. Lá fora Novembro de 2005 Há uma realidade preocupante que, por vezes, surpreende os portugueses em deslocação ao estrangeiro e que, por algum motivo, decidem visitar uma livraria. É mais comum do que se possa pensar ver traduções de autores como Margarida Rebelo Pinto ou Miguel Sousa Tavares expostos em lugar de destaque na secção dedicada à literatura internacional. Não me preocupa que lá estejam. Preocupa-me que alguém os compre, motivado por uma ânsia de literatura exótica de países obscuros (Portugal neste caso) ou por uma reflectida lusofilia. Há
também a possibilidade igualmente assustadora de as versões
traduzidas serem melhores do que o original por obra de um tradutor
sobrequalificado que deduza que a falta de qualidade do texto a traduzir
é gravosa demais para ser real e só se pode explicar por
defeito próprio e imprevisto na compreensão da língua
de Camões e Quim Barreiros. Se há gente que se diverte com as aventuras amorosas de Bernardos e Marianas ou com as incursões literárias do Miguel pela África Negra, é lá com eles. Afinal, a falta de gosto é um mal universal e incurável. Mas que sejam portugueses. Coisas como estas deviam ser mantidas do lado de cá da fronteira como um segredo embaraçoso lesivo para a reputação do país lá fora. Margarida Rebelo Pinto é uma das autoras mais populares em Portugal. Que seja. Mas ninguém precisa de saber os pormenores sórdidos. Dura praxis Outubro de 2005 Com o fim do Verão, vão-se as andorinhas e cedem lugar a jovenzinhos com traje académico e capas negras esvoaçantes que povoam estabelecimentos de ensino superior de todo o país, da mais ilustre e veneranda universidade ao mais duvidoso instituto politécnico. Não sou contra esta saudável tradição académica. Há dias, passei por um cortejo de jovens de cara pintada, enrolados em papel higiénico que se deslocava de joelhos com as mãos na cabeça enquanto ia cantando uma rapsódia de êxitos de Quim Barreiros e pensei: “Olha que coisa bonita. Desde os autos de fé que não havia uma forma de diversão assente na humilhação pública deste nível.” A única mágoa que sinto é ver que as praxes de agora pouco têm a ver com as praxes da minha juventude. No meu tempo é que era. Encurralavam-se os caloiros num canto da universidade de difícil acesso e eram alinhados por ordem alfabética do último apelido. De seguida, o führer veteranorum, ou seja, o aluno com maior número de cabelos brancos, passava-lhes revista por trás, apertando as nádegas às caloiras para verificar a sua consistência e atingindo os caloiros na nuca com um varapau. De seguida, escrevia-se o nome dos cursos respectivos na testa com uma mistura de tintura de iodo, vinagre e diluente e atavam-se os pés esquerdos uns aos outros com corda áspera e muito longa para evitar que tentassem fugir durante o cortejo. Normalmente, começava na porta principal da universidade e prolongava-se pelas principais ruas e praças da cidade com o objectivo didáctico de ambientar os caloiros que vinham de fora. A meio do caminho, era-lhes aplicado o vidro moído dentro dos sapatos, premiando-se os andares mais bizarros com uma valente chibatada nos olhos. O vidro moído nos sapatos não era tão cruel como possa parecer porque era apenas por alguns quilómetros até chegar à piscina municipal, onde os caloiros teriam de tirar os sapatos e toda a roupa, sendo atados de pés e mãos e atirados para dentro de água como forma de testar a sua capacidade de resistência aos duros exames que os esperavam. Claro que ninguém corria risco de afogamento porque eram retirados da piscina logo que começassem a ficar roxos e parassem de se debater. À
noite, fazia-se o grande banquete académico em que os veteranos
eram alimentados à mão por caloiros dedicados. Para a
sobremesa, as caloiras mais vistosas eram levadas para uma arrecadação
onde eram violadas de forma ritual pelos seus colegas mais adiantados
no curso para se irem habituando e percebendo que os tempos de recato
colegial já tinham passado. Os outros eram obrigados a pegar
na Eneida de Virgílio e passar todos os verbos que estivessem
no presente para o futuro e vice-versa. Quem não fosse capaz,
teria de comer o tradicional empadão de moscas. A brasa e a sardinha Setembro de 2005 Ponham-se na pele de um incendiário. Estão em casa a encher garrafões de Água do Luso com gasolina e a puxar o lustro aos very-lights, muito enfadados por não terem encomendas de empreiteiros, autarcas, comandantes de bombeiros ou proprietários de "meios aéreos" (criaturas bizarras aparentadas com o avião). Então, decidem atear umas labaredas por iniciativa própria só para entreter e para não perder o jeito. Mas antes é preciso escolher o local que, por uma conjugação de vários factores (tipo de vegetação, falta de qualidade dos acessos, temperatura) dê garantias de um incêndio de categoria. E que fazem? Parece-me óbvio. Vão ver a previsão do risco de incêndio. Porque
é só aos incendiários que tal coisa interessa.
Para o resto de nós (descontando os incendiários infiltrados
entre os cidadãos de boa índole) o mapa garrido só
serve para ficarmos a saber que, nos meses mais quentes do Verão,
temos um país pintado de vermelho com ocasionais manchas alaranjadas,
se tivermos sorte. E não fará grande diferença
saber se o risco de incêndio para um determinado distrito será
máximo, muito elevado ou elevado, pois não? Será
que, sem figuras coloridas, não sabíamos já que,
sobretudo em Julho e Agosto, todo o país é uma braseira
em potência? Resolve alguma coisa? Não resolve. Quanto
muito, facilita a vida a quem quiser dar ao fósforo, bastando-lhe
olhar para o mapa para perceber onde as condições serão
mais propícias. Sugestão nº 1: Todos os distritos no mapa do risco de incêndio deviam ser pintados de verde. E a legenda da cor verde devia ser alterada de “risco de incêndio reduzido” para “risco de incêndio inexistente de tal forma que, quem tentar soltar fogos neste distrito será com certeza um valente palerma.” Em alternativa, e para escapar à monotonia cromática, poderia haver uma cor abaixo do verde. O azul, por exemplo, com a legenda: “risco de incêndio inexistente a não ser que seja ateado por paneleiros e cabrões.” É assim que se combatem os incendiários. Atingindo-os no orgulho. Sugestão nº 2: Ocasionalmente, em dias de chuva torrencial (porque acredito que um dia voltaremos a tê-los), poder-se-ia voltar aos vermelhos e ao laranja. Assim, o incendiário consultaria o mapa, pegaria nas ferramentas do seu mester e pôr-se-ia a caminho. Até poderia olhar para o céu, abrir o guarda-chuva, calçar as galochas e achar que as moitas talvez não ardessem com um tempo daqueles mas isso seria altamente improvável porque, na sociedade em que vivemos, o que nos chega pela comunicação social sobrepõe-se sempre ao senso comum. Depois, era só alertar as forças policiais para procurarem indivíduos de impermeável a tentar acender fósforos em manchas florestais, ensopados dos pés à cabeça. E ninguém diga que não faço a minha parte na protecção das florestas. |
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