E-zine satírico sem corantes nem conservantes

A Quintessência

Rubrica de comentário à actualidade semanal abrilhantada por Alexandre "Diospirojoyeux" Louro, apontado por alguns como o legítimo sucessor de Eduardo Prado Coelho, e Renato "Sou preguiçoso demais para escrever uma coisa de propósito" Carreira. Perguntas dele e respostas minhas, pois então.


6 de Junho de 2008

Chorou o afastamento do FC Porto da Liga dos Campeões?

Sim. Até me doem os maxilares de tanto chorar.

Manuel Alegre é um bom reforço para a nova época do Bloco de Esquerda?

Dependerá do seu jogo aéreo.

O que é que Hélder Postiga vai fazer no Sporting?

Renda de bilros. Mas isto ainda carece de confirmação. Recomendo prudência na divulgação.

E o que fez Amy Winehouse no Rock in Rio?

Parece-me claro que tentou manter-se de pé. E conseguiu quase sempre.

Um comentário aos resultados das eleições no PSD, por favor.

E não é que a feiosa ganhou?

Sexo e a cidade, o filme - que expectativas?

Que o tema e a localização da trama sejam mantidos em segredo até ao último momento.

Em Portugal, só um em cada seis condenados cumpre pena de prisão, segundo números divulgados esta semana. O que se faz nos nossos tribunais?

Muita coisa. Ajeitam-se baldes para captar goteiras, remendam-se buracos na parede, perseguem-se baratas que fogem com processos, tenta-se capturar a ratazana que se instalou na toga do juiz.

Que papel tem Yves Saint Laurent, que morreu esta semana, na suaforma de vestir?

Um papel tão grande que, desde que soube da morte, não voltei a usar roupas.

No Metro de Londres foi proibido o consumo de álcool, o que gerou uma enorme orgia etílica como forma de protesto. Como será a partir de agora o ambiente no Metro?

Será calmo. Até proibirem também a zoofilia.

As casas-de-banho da Estação Espacial Internacional foram arranjadas com sucesso, anunciou quarta-feira a NASA. Como será uma estação espacial sem casas-de-banho a funcionar?

Presumo que não seja muito diferente de uma estação de comboio sem casas-de-banho a funcionar. E uma dúvida. Quem as arranjou? Afinal já existem astronautas portugueses?


9 de Maio de 2008

Eriksson é a pessoa certa no lugar certo no Benfica errado?

Lamentavelmente, creio que Eriksson será o Toni certo no Chalana errado no Mozer assim-assim.

Que tal o novo líder da PJ?

Tem um rabo apetitoso.

Vai ser preciso bombardear a Birmânia para ajudar o país a recuperar do ciclone Nargis?

Birmânia? Não há nenhum país no mundo chamado Birmânia. *ouvidos tapados* LÁLÁLÁLÁ! NÃO ESTOU A OUVIR NADA! MYANMAR! MYANMAR! MYANMAR!

Scarlett Johansson vai casar. Com é que a ONU permite uma coisa destas? Quem vai ser preciso bombardear para impedir isto?

É um ultraje para os fãs de todo o mundo. Não devia ser permitido. Ou, em alternativa, esperamos dois meses (a duração média do casamento em Hollywood).

Bob Geldof foi o protagonista da semana? No futuro vamos usar t-shirts com a cara do Bob estilizada?

É bem capaz de ter sido. O que só prova como as nossas semanas têm sido aborrecidas. (Eu já tenho duas. Uma em azul, outra em amarelo).

O iPhone, soube-se esta semana, vai ser comercializado em Portugal a partir do fim do ano. Vai constar da sua lista de prendas?

Claro. E mal posso esperar para ver a cara dos destinarários quando, em alternativa, lhes oferecer pacotes de amêndoas que sobraram da Páscoa. De tipo francês, claro. Não ofereço de outras.

O DN noticiou esta semana que os cientistas sul-africanos estão a investigar um ataque sexual inédito de uma foca a um pinguim-rei, com o subtítulo "Uma foca tentou copular com uma refeição potencial". Isto intriga-o? Ou quê?

Que horror. É quase como ver o Nicolau Breyner a simular a cópula com a Soraia Chaves naquele filme.

Quatro mil pessoas assinaram a petição contra o Acordo Ortográfico. Em que é que isto vai culminar?

Pruvavelmente em náda.

O ministro da Defesa fez esta semana uma visita-surpresa ao Chade. Porquê o Chade? E como terão os chadianos acolhido a surpresa?

No Chade há muita vaca. Os chadianos estarão já sobremaneira habituados a ter cuidado para não pisar.

O que espera do Museu do Oriente, com abertura marcada para 9 de Maio?

Que os bilhetes sejam vendidos por samurais de armadura completa, prontos para decapitar quem se atrever a solicitar desconto. Será pedir demais?


26 de Março de 2008

Boa parte da semana serviu para recuperarmos das reportagens SIC sobre Sócrates e Menezes na intimidade. Recuperou bem?
Não. Porque fui induzido em erro. Pensei que fosse uma reportagem sobre Sócrates e Menezes na intimidade um com o outro.

Últimas palavras para Arthur C. Clarke?
2008 - Odisseia no... *gasp* coff! coff! ... aargh!...........

O que dizer desta polémica sobre a proibição de piercings sub-18?
O deputado que a propôs, por também ter sugerido a abolição da prática independentemente da idade, devia ser a primeira pessoa na história a ser piercingzada por ordem judicial. Aposto que piaria mais fino com um Príncipe Alberto.

O Hot Club de Lisboa faz esta semana 60 anos. Qual o futuro do jazz em Portugal?
Não perdoo ao Hot Club uma das maiores desilusões da minha vida. Não se pode chamar "Hot Club" a um sítio e censurar um cliente incauto por enfiar dinheiro na roupa interior de uma empregada.

Um docudrama da BBC sustenta a possibilidade de Cristo ter sido crucificado numa posição diferente daquela em que alguns acreditam que foi. A nova teoria admite que tenha sido crucificado de joelhos flectidos. Naturalmente, movimentos mais conservadores já se indignaram. Os joelhos têm um papel religioso assim tão importante?
O que a produção do docudrama optou por ocultar foi que, durante a crucificação, Cristo tinha por perto um treinador pessoal que lhe ia dizendo em aramaico: "Insiste... insiste..."

A nomeação de Pedro Mexia para subdirector da Cinemateca Portuguesa agitou o mercado intelectual esta semana. A favor ou contra?
Por favor. Acabo de almoçar.

Como é que a Madeira se mantém à tona após 30 anos de Governo de Alberto João Jardim?
A trampa flutua?

Solte o Nuno Rogeiro que há em si (se é que nunca fez uma desrogeirização) e analise a situação no Tibete.
Os tomates de Portugal são tão pequeninos como os da comunidade internacional. Ou talvez sejam mais pequenos porque Portugal não tem nada a temer da China. Estamos longe, não temos indústria que lhes possa impingir produtos, não importamos praticamente nada além do recheio de lojas de desconto e, mesmo assim, o nosso estimado presidente diz que não vai à abertura dos jogos porque terá a agenda muito preenchida e o governo limita-se a pedir calma (se não for muita maçada para os senhores).

Outra discussão da semana foram os cães perigosos. Quem é que merece o açaime no meio disto tudo?
O país ficará mais seguro sem cães das raças listadas (Dogue argentino? Quem tem um dogue argentino?). A não ser que os pastores alemães e os doberman se lembrem de que também têm dentição.

A semana foi tão rica em acontecimentos que quase não cabia aqui o desporto para encher: Chalana deve continuar à frente do Benfica? E Haile Gebrselassie faz bem em não querer correr a Maratona nos Jogos de Pequim?
Acho que Haile Gebrselassie deve treinar o Benfica e o Chalana deve correr a maratona nos Jogos de Pequim. Parece-me claro.


8 de Janeiro de 2008

Acontecimento do ano:
A fabulosa e inesperada edição especial de a quintessência assinalando o novo ano. Não estava nada à espera. Que espírito! Que visão! Que graça! Um orgasmo de bom gosto para começar 2008. Bravo!

Personalidade nacional/internacional do ano:
Renato Carreira pelo lançamento do seu novo álbum de música sacra e o dr. Alexander Blonde pelos avanços na pesquisa de uma cura para o pé de atleta crónico.

Escroque nacional/internacional do ano:
Alexandre Louro pelo envolvimento no Apito Dourado e o Sheikh Mohammed Renato bin Carreira, notório sequaz de Bin Laden.

Gajo/gaja do ano:
Renato Carreira e Alexandre Louro (mas não necessariamente por essa ordem).

Ausência do ano:
Madeleine McCann.

Empresa do ano:
Carreira & Louro, Confecções de Moda Finas e Atentas Lda.

Escândalo do ano:
Que a quintessência não tenha vencido um óscar, um Nobel ou mesmo um Testículo Dourado do Festival Internacional de Cinema Hardcore das Ilhas Bijagós.

Dia e mês do ano:
23 de Junho.

Loira do ano:
Alexandre Louro e Renato Carreira. Ex aequo.

Blogue e site do ano:
Diospirojoyeux e Inépcia.

Cor do ano:
Roxo.

Região demarcada do ano:
Bairrada.

Frase do ano:
"Ouve lá, o que é que fazemos para isto ter piada?" A. Louro

Silêncio do ano:
"..." R. Carreira, em resposta ao anterior com um encolher de ombros.

Decreto-lei do ano:
O 33/08 de 4 de Março.

Transparência do ano:
A do vidro.

Jogo de futebol do ano:
FC Louro 4 x UDCL Carreira 4 (após prolongamento)

Eleição do ano:
A de Alexandre Louro como presidente da Associação de Produtores de Pêra do Oeste.

Transformista do ano:
Renato Carreira (aka Natasha Lalique)

Órgão de comunicação social do ano:
O consórcio Inépcia-Diospirojoyeux pelos serviços em prol de uma informação rigorosa e justa.

Órgão interno do ano:
O baço.

Ânus do ano:
Alberto João Jardim.

País do ano:
O Kiribati.

Bebida do ano:
Água torneiral, colheita de 2008.

Prédio do ano:
O 32 da Rua Renato Carreira em Alfornelos.

Pior/melhor música do ano:
"Fiz Tudo por Amor", Alex Loyro / "Anda Cá, Querida", Tony, Mikael e Renato Carreira.

Revelação do ano:
O talento de Alexandre Louro para a olaria brejeira.

Religião do ano:
O jainismo.

Prato do ano:
Arroz de grelos.

Metal do ano:
O Zinco.

Arma do ano:
A zarabatana.

Morto do ano:
Anatol Biskarov, decano dos anciãos da província bielo-russa de Vitsebsk, aos 102 anos.

Piada do ano:
Vão dois coelhos aos saltos pela pradaria e salta-lhes a Maria Barroso ao caminho... (etc, etc).


1 de Dezembro de 2007

Comecemos pelo desporto: acredita mesmo que a Austrália vai tirar à rainha Isabel II a chefia do Estado?
Acredito. Era questão de tempo até o Paul Hogan ser coroado imperador. Os filmes do Crocodilo Dundee marcaram muita gente.

Onde estavam os criativos dos CTT quando escolheram o nome do serviço móvel Phone-ix?
Sentados na retrete com cara de esforço (mental).

Como vai ficar Lisboa se o PSD chumbar o empréstimo de 500 miilhões de euros e deixar cair António Costa?
A meio caminho entre Beirute e Mogadíscio.

E os Madredeus sem Teresa Salgueiro?
A meio caminho entre a banda da GNR e a banda de João Gil (em termos de popularidade).

Esta semana assinalou-se mais um aniversário do 25 de Novembro. Há muitas versões sobre os acontecimentos - qual é a sua?
Não há nada a dizer. Parece que nasceu uma criança em Belém que era filho de Deus e de uma virgem. Depois vieram os pastores adorá-lo à majedoura e os reis magos com ouro, incenso e a reforma agrária.

A semana ficou marcada também pela elevada troca de palavras entre o adjunto do Manchester United, Carlos Queirós, e o presidente do Sporting, Filipe Soares Franco. Afinal, quem é que é grande mas não é grande coisa?
O Nélson Ned.

E quanto à expulsão de Luísa Mesquita do PCP?
O primeiro amarelo foi duvidoso, mas a falta punida com o segundo foi indiscutível. Atinge o adversário sem qualquer preocupação em jogar a bola.

O que é preciso para acabar com esta novela BCP, BPI, Jardim Gonçalves e quejandos?
Acabar com a secção financeira de todos os jornais e substituí-la por uma secção desportiva ampliada.

Aparentemente a extrema-direita assaltou a Nova Democracia, infiltrando-se no partido de Manuel Monteiro. O que é que lhe vão fazer?
Também gostava de saber. E para quê? Não preferirão concentrar esforços em partidos que não se desmoronem sozinhos?

Teresa Guilherme anda a chocar o país na nova novela da SIC, Resistirei, onde protagoniza cenas de "marmelada" explícita. Que sequelas isto vai deixar nos adultos de amanhã?
Não me parece grave. Sobretudo se incluirmos na categoria dos "adultos de amanhã" os rapazinhos de vinte anos que protagonizaram cenas de "marmelada" explícita com Teresa Guilherme sem guião (nem câmaras) para conseguirem uma vaga nos programas que produziu.


9 de Novembro de 2007

Há orgulho nacional no Prémio MTV Europa para Melhor Álbum de Nelly Furtado?
Claro. Aposto que o Canadá está em polvorosa.

Adivinham-se tumultos na sequência do anúncio do aumento do preço dos chocolates nos próximos meses?
Adaptando as imortais (alegadas) palavras de Maria Antonieta, "que comam caramelos".

Qual a opinião que tem sobre Manuel Machado, anunciado este semana como novo treinador do Sp. Braga?
Quando era treinador do Nacional, esse pilar da verdade desportiva portuguesa, Manuel Machado deu uma entrevista na qual assumia ser admirador confesso de Alberto João Jardim. Levando isso em consideração, a minha opinião (e a opinião de outras pessoas de bem) não poderá ser outra além de "que se foda".

O que foi fazer Juan Carlos a Ceuta e a Melilla?
Comprar casacos de cabedal a preço módico. E talvez visitar aqueles dois recantos do território espanhol enquanto não são ocupados por hordas de marroquinos exacerbados e africanos negros a morrer de fome.

Quer deixar uma mensagem para os deputados do PS/Madeira que se encolheram na votação do Orçamento de Estado para 2008?
Não. Porque não consigo transcrever o cacarejar de uma galinha.

Teve pena do cilindramento de que Santana Lopes foi alvo na Assembleia da República?
Tenho pena de que não seja editado em DVD.

Em Portugal "há muitos betos a fazer humor", como defende Jel?
Concordo plenamente. E os mais patéticos são os betos que pretendem não o ser. Como o próprio Jel.

A Academia Nacional das Ciências do Reino Unido concluiu que o leite materno ajuda a aumentar o quociente intelectual até sete pontos mais. Conclusões?
Faz-me pensar em várias figuras públicas e em como seriam ainda mais imbecis se não tivessem sido amamentadas.

Outro estudo internacional aposta para a falhas de higiene nos hábitos dos portugueses...
Só posso falar por mim. Lavo as mãos até mesmo antes e depois de as lavar.

Esta semana foi anunciado o regresso da série televisiva O Justiceiro, embora sem David Hasselhoff. Expectativas elevadas?
Preferia um Michael Knight alcoólico e um KITT decadente mas tão britânico e efeminado como nos seus tempos áureos.


29 de Setembro de 2007

Concorda com a a revolta de Santana Lopes por ter sido interrompido numa entrevista à SIC Notícias por um directo onde José Mourinho disse que ia dormir?
Concordo. Se a situação se invertesse, continuaria a concordar. Se uma entrevista de José Mourinho fosse interrompida por um directo em que Santana Lopes dissesse que ia dormir, seria igualmente disparatado. A não ser que explicasse com quem. E em que moldes.

O Fátima eliminou o FC Porto da Taça da Liga. A religião é a melhor resposta ao Apito Dourado?
Religião por religião... Basílica ou estádio. Bento XVI ou Pinto da Costa. José Policarpo ou Reinaldo Teles. Virgem Maria ou Neuza a Alternadeira de Pernambuco. Vai tudo dar ao mesmo.

O Tal & Qual deixa esta semana de ser publicado. Que recordações deixa?
Muitas e boas. Ah não. Desculpa. Estava a pensar na Revista Gina. Ainda se publicará?

Segundo um jornal que ainda não acabou, o DN, são os sapatos de luxo que salvam a economia portuguesa. Já chegámos a este ponto?
Segundo outro jornal que ainda não acabou, a Gazeta Paroquial de Vila Franca do Rosário, não estamos muito longe de passar dos sapatos de luxo ao engraxamento de sapatos sem ligar à etiqueta de preço como salvação da economia.

Recomendações para quem se encontra na Birmânia?
Que procure a agência de viagens mais próxima e vá já para Myanmar. É lá que está a acção. A propósito de nomes esquisitos, aproveito aoportunidade para prestar um serviço público à comunidade jornalística. Ao contrário do que tem sido afirmado, a capital do país já não é Rangun (ou Yangon) mas sim um sítio bonito e acabado de construir chamado Naypyidaw. De nada.

Há relação entre o Caso Maddie, que motivou a caça à loira por estes dias em Marrocos, e o Caso Esmeralda, ressuscitado esta semana?
Há. É que Esmeralda e Maddie SÃO A MESMA PESSOA! (acorde musical dramático). A loura de Marrocos não sei quem seja.

Os Police tocaram esta semana em Portugal. Isto importa alguma coisa?
Claro que sim. É uma grande banda. (Inserir a frase anterior algures entre 1977 e 1984.)

O registo de interesses dos 230 deputados à Assembleia da República está disponível na internet (www.parlamento.pt), mas deixa de fora os pormenores sórdidos. De que serve um registo de interesses que não tem interesse nenhum?
Serve para gastar 5 páginas de papel por deputado que permanecem quase invariavelmente em branco. E para aprendermos que, no perfil do site, Nuno da Câmara Pereira é engenheiro técnico agrário e, no registo de interesses, é "artista". E que o registo de interesses de Bernardino Soares está ilegível. Que andará ele a esconder?

Vale a pena visitar a exposição retrospectiva de Paula Rêgo no Museu Rainha Dona Sofia, em Madrid?
Disseste "rego"... Hehehehehe.

Arrisca um prognóstico nas eleições directas no PSD?
Prognósticos só se me pagares oito anos de quotas.


20 de Setembro de 2007

Depois de um murro fraquinho de João Pinto a um árbitro há uns anos, o punho de Scolari falhou esta semana um jogador da Sérvia. Há falhas na qualidade ao nível do pugilato na selecção nacional?
Falhou? Isso aconteceu antes ou depois de pregar um soco em cheio na cara do homem?

O que vai acontecer agora com o homem do "mata-mata"?
Vai passar a ficar no banco dentro de uma daquelas estruturas de contenção do Dr. Hannibal Lecter.

Segundo o ministro Luís Amado, Dalai Lama não foi recebido pelo Governo> português "porque é óbvio" e por "razões evidentes". Depois de mais esta visita do líder espiritual, o que fica óbvio e evidente?
Não concordo que se chame "líder espiritual" a Luís Amado porque a estupidez cobardolas ainda não foi oficializada como religião. E não sabia que ele nos visitava. Pensei que morasse cá.

Alimenta expectativas em torno do conteúdo do diário de Kate McCann?
Acho que vou esperar pelo filme.

Segundo o DN, nos últimos cinco anos, cada português pagou anualmente euros à RTP. O que seriamos nós sem a RTP?
Sem a RTP, muito provavelmente não saberíamos quem é Merche Romero. Pelo menos aqueles entre nós que não têm por hábito visitar prostíbulos.

A desertificação afecta mais de um terço de Portugal. Como se pode contrariar esta tendência?
Concentrando onze milhões de pessoas nos outros dois terços.

A segunda mulher mais velha do mundo é portuguesa, tem 114 e segunda-feira assinalou o aniversário com arroz doce. Quem disse que o surrealismo tinha acabado em Portugal?
114 anos de ser portuguesa? Bolas. E ainda não se fartou?

Como interpretar o desaceleramento que as exportações nacionais atravessam?
Agora foi a Bolívia que deixou de nos comprar a cortiça? Ora que chatice.

Depois de Menezes, agora Marques Mendes e Santana Lopes pegaram-se. As eleições no PSD prometem ou não?
Prometem. E ouvi dizer que Luiz Felipe Scolari vai apresentar-se às eleições pela distrital do Rio Grande do Sul.

Cristiano Ronaldo considera Angelina Jolie "a mulher ideal". Choque?
Acho que é o primeiro sinal de bom gosto vindo do senhor. Bem hajas, Cristiano.


10 de Setembro de 2007

Assusta-o o degelo no Ártico (que, soube-se esta semana, neste mês atingiu um novo recorde)?
Assusta-me bastante. Porque uma das consequências possíveis de um aumento do nível dos oceanos será a inundação da Baixa lisboeta e receio que isso possa piorar ainda mais a situação das obras do metro (que, como se sabe, não estarão concluídas antes de 2173).

Concorda que quem queira ter cães de raças consideradas perigosas seja obrigado a fazer exames de aptidão física e psicológica?
Sim. E que todos os cidadãos de envergadura física superior a 180cm e/ou 90 quilos sejam forçados a usar açaime.

Esta semana um jogador de rugby da selecção do Tonga anunciou a mudança de nome para o Paddy Power, o nome do patrocinador da equipa nacional. É um precedente perigoso ou nem por isso?
Não me oporia a ver a nossa selecção de futebol a alinhar com Nuno McDonald's e Cristiano Espírito Santo na frente de ataque e com Ricardo Sumol na baliza, agora que Luís Sagres e Pedro Terra Nostra se afastaram.

A polícia dinamarquesa divulgou esta semana ter detido oito membros da Al-Qaeda. E, cá, o movimento separatista corso assaltou um banco. Al-Qaeda na Dinamarca? Corsos em Portugal? Onde é que isto vai chegar?
Não sei, sinceramente. Pelo andar da carruagem, qualquer dia teremos pais a matar a própria filha, ocultando o cadáver e iniciando uma campanha global de solidariedade para a encontrar.

Um estudo da Sociedade Espanhola de Medicina da Família e Comunitária concluiu que as mulheres sofrem mais do Síndrome Pós-férias. Concorda?
Mas sentir-se mal depois das férias é síndrome? De certeza que não é normal? Síndrome terá quem volte ao trabalho cheio de ânimo. Deviam ser todos internados e cravados de agulhas.

A Coreia do Norte deve ser retirada do Eixo do Mal?
Deve. Nem a Coreia do Norte merece integrar um programa de televisão tão infeliz.

A Maconde esteve à beira do fim. O que dizer de uma instituição como esta? E o Estado fez bem em lançar-lhe a mão?
Fez. Até porque, ao lançar-lhe a mão, a Maconde fez o favor de lhe calçar uma luva em napa autêntica forrada a lã sintética. Muito cómoda para o frio que se aproxima.

A cantora Mariza foi nomeada para os Grammys latinos. É justo?
Não é justo que seja nomeada para qualquer coisa além do "Troféu para as Mais Enojantes Vozes de Peido Esforçado do Planeta".

O que dizer do apuramento da selecção portuguesa de basquetebol no Europeu?
Parece que a Virgem de Fátima ainda mantém o estaleiro dos milagres operacional.


A Quintessência

1 de Setembro de 2007

Pelo menos em relação ao combate a incêndios, a Grécia ainda nos dá cartas ou não?
Acho que nisso também nos passam à frente. Já não bastava o Euro. Raios, Grécia! Porque nos odeias?!

Como estão as relações entre Presidente da República e Governo, depois do terceiro veto de Cavaco Silva num mês?
Acho que, ao quarto veto, teremos bofetada. Tenho essa fé.

Que tal a vitória de Nélson Évora em Osaka?
Os portugueses são sempre a mesma coisa. Podem conseguir uma medalha, mas tem de ser a salto. (Tinha aqui esta piada guardada desde os Jogos Olímpicos de Los Angeles... não se aplicava muito bem ao Carlos Lopes.)

Como interpretar a sobrelotação que o balcão do BES no Second Life conheceu dias depois da inauguração?
O Second Life é uma daquelas coisas da hipernet ou lá como se chama?

E o anúncio de Enrique Iglesias de que vai criar uma marca de preservativos para pénis pequenos, na sequência das dificuldades que tem para encontrá-los para o seu... modelo?
Psicologia invertida. Depois disto, muitas serão as donzelas compadecidas a bater-lhe à porta só para assegurar o rapaz de que até nem é assim tão pequeno como isso.

O assassinato de um "empresário da noite" no Porto é sintoma que existem máfias no "mundo da noite" ou "não"?
Eu costumo "deitar-me" às "7" (sete) e, por isso, não serei a melhor"pessoa" para discutir esses assuntos "noctívagos".

É justo o aumento do preço dos manuais escolares anunciado esta semana?
Sempre disse que a educação era um luxo. Paguem e não bufem (que não se entenda isto no sentido flatulento do termo, por favor).

O que dizer das pessoas que ficam acordadas de madrugada a ver programas de televisão como o Quando o telefone toca ou Toca a ganhar?
Não vejo qual é o problema. Ninguém tem nada com isso. Eu faço o que me apetecer. (Nota: Sei que isto não bate certo com a resposta em que disse que me deitava às sete. Isso pode significar que não estou a ser totalmente sincero. Adio um comentário para outra ocasião.)

Como comenta a convocação de Pepe para a selecção nacional?
Ele diz que sabe o hino todo. Nada contra. Quantos dos outros, dos que já nasceram portugueses, poderão dizer o mesmo? E quantos de nós saberão escrever "igrégios"... "hegréjios"... "igreijios"... Hmm? Quantos?

O Segredo, de Rhonda Byrne, e Pura anarquia, de Woody Allen, foram dos livros mais vendidos em Agosto em Portugal. O que se conclui disto?
Que os leitores portugueses se dividem em dois grupos principais: as dondocas místico-conspirativas e os imbecis humorístico-intelectuais.


Já ouviram aquela do Sócrates na cabina telefónica com a vaca leiteira e o anão estrábico?

10 de Junho de 2007

Esta questão toda em torno da directora regional de educação do Norte e da anedota da discórdia consegue ser algo mais do que uma piada de mau gosto. Em primeiro lugar, há que referir que Margarida Moreira, independentemente das muitas qualidades pessoais que terá, tem um defeito incontornável: é uma besta-quadrada. E mais sinistro do que o seu comportamento só mesmo o facto de dirigir um organismo com a palavra “educação” no nome.

Quanto à asquerosa delação e punição de alguém por proferir uma graçola sobre uma figura destacada da hierarquia estatal é apenas um sinal entre muitos do culto exclusivamente português do “respeitinho”. Note-se o diminutivo. Não se fala de respeito, mas sim de “respeitinho”, uma versão desidratada do conceito original, mantendo o invólucro mirrado depois de despojado do conteúdo. É por respeito que devemos ouvir a conversa de um octogenário que nos aborde no autocarro e acenar a cabeça em concordância, por mais absurda que seja a sua conversa, porque é merecedor de respeito o simples facto de se ter aguentado vivo durante tanto tempo. É por “respeitinho” que não devemos mandar à merda um nonagenário que se comporte de forma imbecil e mal-educada.

É também por “respeitinho” que não devemos troçar dos nossos governantes eleitos (de forma indiferenciada, sejam eles quem forem), dos nossos professores, dos nossos militares, das forças da ordem e de uma série interminável de figuras públicas (outras haverá em que a troça não só se aceita como é encorajada). E é por violações ao “respeitinho” que tanta gente tem de responder em tribunal pelo crime de injúria, figura jurídica oportunamente vaga e que permite abraçar uma série de coisas.
Noutro tempo, quando Portugal ainda não era o país desenvolvido e próspero que hoje é (poderá haver aqui algum sarcasmo), eram também inúmeros os atentados ao “respeitinho” e talvez ganhassem em quantidade e intensidade aos que hoje se verificam porque, no fundo, foi uma arte que se perdeu. Na literatura e na imprensa dos últimos anos do século XIX e dos primeiros do século XX, por exemplo, é quase chocante a proliferação dos insultos mais vis, das ofensas mais boçais, da chacota generalizada sem diferenciar entre páginas anónimas de um pasquim e volumes de autores consagrados. E os atingidos não se ofendiam? Claro que sim. Mas a sua resposta não era preferencialmente a jurídica ou institucional. Talvez porque o sistema judicial da altura não fosse tão desenvolvido como o actual (mais sarcasmo), mas gosto de pensar que acontecia porque davam valor à resposta na mesma moeda ou, em casos mais graves, por honrarem a instituição, perdida no tempo e imortalizada por Eça de Queirós, da bengalada.

Muitos verão com maus olhos esta apologia da violência verbal e física. Mas não serão ambas preferíveis ao recurso choninhas ao tribunal ou à queixa piegas às chefias? Se o Zé diz que a mãe do Alberto é de moral duvidosa, o Alberto dirá ao Zé que a sua esposa terá mais rodagem do que um camião TIR da rota Lisboa-Paris. E se, logo a seguir, o Zé não conseguir lembrar-se de nada para retorquir, aplicar-lhe-á um tabefe e essa saudável troca de argumentos decorrerá até ficarem ambos satisfeitos, ficando o assunto encerrado ou adiado para segunda ronda negocial. É assim que as pessoas civilizadas devem resolver os seus diferendos. Se Sócrates se ofendeu com a anedota, que vá pedir satisfações ao professor que a proferiu. E, pelo caminho, aproveite para dar um safanão à senhora directora por o ter metido nesta alhada.

Outros argumentarão que os insultos trocados entre o Zé e o Alberto não são comparáveis aos clássicos de outros tempos e, logo, não se poderá usar a comparação para justificar o que seja. Almada Negreiros pode ter dito que Júlio Dantas cheirava mal da boca, Ramalho Ortigão pode ter ofendido um país inteiro e Rafael Bordalo Pinheiro ridicularizado reis e príncipes, mas o Zé não pode questionar a heterossexualidade do Alberto. Ou seja, deixa de ser uma questão de respeito, ou de “respeitinho”, e passa a ser uma questão estilística. Se queremos insultar alguém, temos de o fazer com um certo valor estético. Não será mau argumento. Mas, pelo sim, pelo não, vou abrir uma loja de bengalas. Aceito propostas de sociedade.


Bolo nacionalista

8 de Maio de 2007

Houve um grande equívoco no modo de lidar com o período de graça pelo qual passou recentemente a extrema-direita portuguesa em geral e o PNR, seu representante mais ou menos legal (por enquanto) em particular. Há quem manifeste preocupação, há quem tenha medo, há quem anteveja um futuro de cabeças rapadas, camisas negras e cruzes célticas tatuadas obrigatoriamente numa das nádegas (ou em ambas, se o fervor for mesmo muito intenso). Há também quem se irrite, se mostre ultrajado e proteste por a comunicação social conferir mediatismo ao fenómeno, o que até se compreende mas é sabido que a comunicação social dificilmente consegue resistir a transformar em notícia qualquer coisa passível de criar o caos e semear a preocupação.

Mas nenhuma destas abordagens é a correcta. Não há que ter medo do papão da extrema-direita, mascarado ou não como “nacionalismo” eufemista. A não ser, claro, que este se manifeste na forma de um grupo de skinheads a quem as respectivas mãezinhas não trocaram as fraldas e que resolvam expressar o seu incómodo numa viela escura, socorrendo-se da nossa integridade física para esse efeito. O que devemos fazer todos, cidadãos de boa índole e de ideologia política praticamente inofensiva, é pegar no discurso “nacionalista” e expô-lo com iluminação adequada para que fique bem clara a profundidade intelectual das ideias transmitidas. Porque essa profundidade intelectual é nula e os “nacionalistas” que a história regista pelos seus dotes retóricos devem a notoriedade à capacidade para desviar as atenções do vazio e fazer multidões acreditar que há realmente ali alguma coisa que faça sentido.

Para provar esse vazio, submeto à consideração geral o postulado de que qualquer discurso ou texto poderá facilmente ser convertido em discurso ou texto nacionalista se forem nele incluídas as palavras adequadas nos lugares certos. Segue-se demonstração.

Peguemos numa receita comum. Esta, de bolo de chocolate, retirada de www.gastronomias.com.

Ingredientes:
• 1 dl de água
• 75 g de chocolate em pó
• 300 g de açúcar
• 250 g de farinha
• 5 ovos
• 1 dl de óleo
• 1 colher (de café) de sal fino
• 3 colheres (de chá) de fermento em pó
• 1 colher (de sopa) de açúcar

Confecção:
Leve ao lume a água na qual se desfaz o chocolate em pó.
Num recipiente mistura-se o açúcar, a farinha, as gemas, o óleo, o fermento, o sal e o chocolate já desfeito.
Mexe-se tudo muito bem!
Batem-se as claras em castelo, adicionando a colher de açúcar quase no final, de modo a ficarem bem firmes.
Juntam-se as claras ao preparado, mexendo novamente muito bem.
Leva-se a cozer no forno em forma (sem buraco) previamente untada com manteiga.

E agora, apresento-vos o primeiro bolo de chocolate nacionalista da história da Humanidade. Entenda-se o facto de ser um bolo de chocolate com ironia ou não.

Ingredientes nacionais e históricos:
• 1 dl de água dos rios de PORTUGAL
• 75 g de chocolate em pó de São Tomé e Príncipe, colónia PORTUGUESA subtraída de forma ilegítima ao pátrio seio pelo bolchevismo
• 300 g de açúcar madeirense, doce como a soberania nacional
• 250 g de farinha branca e imaculada como a honra da mulher PORTUGUESA
• 5 ovos, germes da individualidade futura do galináceo LUSITANO
• 1 dl de óleo, límpido e luminoso como a luz que os nossos navegadores trouxeram ao mundo, libertando-o para sempre da treva medieval
• 1 colher (de café) de sal(AZAR) fino
• 3 colheres (de chá) de fermento em pó, para que o crescimento da massa seja tão prolífero como o da nossa expansão ultramarina
• 1 colher (de sopa) de açúcar tão refinado como uma política de imigração restritiva e ideal

Confecção patriótica:
Leve ao lume a água na qual se desfaz o chocolate em pó como os marginais estrangeiros deverão ser defeitos na calda da extradição sem apelo nem agravo.
Num recipiente mistura-se o açúcar, a farinha, as gemas, o óleo, o fermento, o sal e o chocolate já desfeito mas mantendo cada ingrediente as suas características nacionais e étnicas bem distintas e isoladas, sobretudo o chocolate e sublinhando-se a sua condição de “desfeito”.
Mexe-se tudo muito bem mas com respeito pelas sagradas instituições da Família, da Pátria e da Religião.
Batem-se as claras em Castelo de Guimarães, berço da nacionalidade, adicionando a colher de açúcar quase no final sob ameaça de limpeza étnica, de modo a ficarem bem firmes e em sentido, com botas bem engraxadas e o braço estendido.
Juntam-se as claras ao preparado, mexendo novamente muito bem, com vigor e firmeza implacável.
Leva-se a cozer no forno, depois de despojar a mistura de roupas, sapatos e dentes de ouro, em forma (sem buraco-ABAIXO A PROMOÇÃO INTERNACIONAL DA SODOMIA COMO PRÁTICA ACEITÁVEL E NÃO COMO HÁBITO ABERRANTE QUE É REALMENTE!) previamente untada com manteiga (o uso de qualquer outro lubrificante será punido com severidade).


O Grande Português

26 de Março de 2007

Fez-se finalmente justiça. E de duas formas diferentes. Por um lado, a RTP passa a esperada vergonha, inteiramente merecida pela forma obtusa como tentaram transformar um passatempo televisivo numa iniciativa histórico-pedagógica de grande relevância, comparando os méritos de Vasco da Gama e Rosa Mota ou de Cristiano Ronaldo e Eça de Queirós (diz-se que este era também senhor de uma finta de impor respeito). Precisamente a mesma iniciativa que, após revelação inevitável do resultado embaraçoso, foi imediatamente despromovida pela voz de Maria Elisa de iniciativa séria a concurso sem importância nenhuma. Uma espécie de “Preço Certo” com figuras históricas (e muitas delas eram realmente históricas).

A outra justiça foi feita a António de Oliveira Salazar e convém dizer o nome todo para se perceber que não falo de SALAZAR, o Hitler português institucionalizado pela propaganda do PREC, mas sim do beirão retrógrado e de vistas estreitas que arrastou Portugal para o seu mundo de casinhas brancas e gente pobrezinha mas honrada, temente a Deus e ignorante, sobretudo ignorante, sem quaisquer ambições além de ganhar os tostões suficientes para comprar pão, bacalhau e vasos de sardinheiras para decorar a janela. É esse o homem que merece a honra de ser o maior português de todos os tempos.

É verdade que havia a polícia política e o Tarrafal e uma guerra colonial que parecia nunca mais acabar mas reconheça-se-lhe o mérito de inventar o Portugal em que hoje vivemos e encarnar na perfeição as qualidades do ser português em que a maioria de nós ainda se revê. Qual Afonso Henriques, qual carapuça metade francesa e metade espanhola. Camões? Não digo que o Camões dos Lusíadas não fosse um poço de amor pátrio mas o Camões que Portugal deixou morrer na miséria e que enterrou numa vala comum mandar-nos-ia todos à merda se pudesse.

Salazar é que é verdadeiramente o pai e fundador da nacionalidade. Sempre que hoje um português diz a outro a frase “há coisas que não são para brincar”, sempre que alguém consegue um emprego não por competência mas por amizade (colorida ou não) ou laços familiares, sempre que um envelope cheio de notas troca de mãos como “ajudinha,” estamos a manter vivo o país que Salazar construiu. Pode já não ser o país de casinhas brancas com santinhos de azulejo, com os sete filhos a aprender as letras e as contas básicas na escola e a mulher em casa, preparando de forma diligente o jantar ao marido, mas, apesar da evolução, subsiste. Tornou-se no país das bandeiras penduradas à janela quando joga a selecção, no país em que nunca se lê e raramente se vai ao cinema por “falta de tempo” mas em que, de forma paradoxal, toda a gente tem sempre uma opinião sobre qualquer assunto, o país em que toda a gente acha mal e reconhece a necessidade de mudança, mas que continua a eleger os mesmos caciques para os mesmos cargos em troco de uma torradeira ou de uma palmadinha nas costas.

Era isto que a RTP deveria ter reconhecido na hilariante emissão de anúncio dos resultados finais. Reconhecendo a Salazar o seu maior triunfo em vez de tentar desculpar-se pelo fedor que libertaram ao remexer um monte de estrume acumulado durante várias décadas. Odete Santos bem pode descompor a roupa e espumar da boca e esbracejar o que quiser mas terá sempre sobre a cabeça o facto de Álvaro Cunhal só não ter hoje uma reputação mais sinistra do que a do homem do Vimieiro porque a história entendeu não o deixar chegar ao poder. E Clara Ferreira Alves pode pintar o cabelo da cor absurda que quiser e lamentar o país que põe Salazar e Cunhal à frente de Pessoa e Camões. É o mesmo país em que todas as formas de expressão cultural estão reservadas para os integrantes do mesmo círculo de amigos de que Clara faz parte. Há realmente um problema sério em Portugal. Mas muitos dos defensores das figuras em votação, os indignados, os divertidos e os indiferentes, de Paulo Portas a Odete Santos, de Rosado Fernandes a Clara Ferreira Alves, de Ana Gomes a Maria Elisa, todos eles e mais uns quantos espalhados pela assistência e outros que não couberam no estúdio, não só não conseguem resolvê-lo como são dele parte integrante.


O jubileu da RTP

9 de Março de 2007

A comemoração dos cinquenta anos da RTP perturba-me. Vejo as galas, os testemunhos emocionados e os votos para o futuro e só me consigo lembrar do júbilo forçado naqueles regimes comunistas desvairados como, felizmente, já vai havendo poucos, apesar de ainda termos a Coreia do Norte para nos recordar como eram.

Imaginemo-nos como cidadãos de Pyongyang no dia da independência, no dia da fundação do partido, no aniversário do nascimento do líder, no aniversário da morte do líder ou em qualquer outro feriado do calendário oficial. Não conseguimos evitar pensar nos problemas que afectam o país (miséria, fome, atrasos vários, falta de liberdade, falta de informação) mas há algo que nos força a embarcar no clima de euforia circundante, dando louvores aos triunfos da revolução e aplaudindo os desfiles de mísseis de lata oca. Não é necessariamente a ameaça de uma punição que nos leva a agir assim. Talvez seja para não se ficar excluído. Afinal, se toda a gente finge estar feliz, porque não poderei eu fazer o mesmo? Talvez seja só por tédio. Ou por loucura.

Com a comemoração de cinco décadas de RTP passa-se exactamente o mesmo. Todos os exemplares proletários dessa grande "república democrática popular" que é a televisão estatal estão muito felizes por poderem ajudar a construir algo tão grandioso e sentem um orgulho quase patriótico por lhes ser dado o privilégio de ali estar, sorrindo muito e sofrendo ataques de delírio esquizofrénico quando elogiam tudo o que diga respeito à RTP, da qualidade da programação ao serviço público prestado e à suavidade do papel higiénico nas retretes.

Fazem-no, ignorando a triste caricatura de canal público de televisão em que a RTP se foi transformando ao longo dos últimos vinte anos e que, agora, se tornou institucional e é cultivada. Ou que a “Praça da Alegria” e o “Portugal no Coração,” dois programas que, somados, constituem meio dia de programação da RTP 1, são o equivalente televisivo do extermínio de uma minoria étnica. E não falta quem reconheça essa crítica e a confronte com explicações esforçadas. Que são programas de grande audiência, que fazem companhia às donas-de-casa e aos acamados, que trazem alegria aos idosos e que ajudam os emigrantes a sentir um elo com a pátria distante. Está bem. E os judeus também estavam mesmo a pedi-las.

Só ainda não se chegou aos desfiles do 1º de Maio mas eles virão. Talvez para o 51º aniversário. À frente, um carro alegórico com o decano da casa, José Hermano Saraiva, a única figura que aparece ao mesmo tempo na RTP Memória a preto e branco e na RTP 2 a cores. O professor acena à multidão do alto de uma torre de papelão e é seguido pelo cortejo de personalidades ilustres liderado por Júlio Isidro, Serenella Andrade, Fátima Campos Ferreira e José Rodrigues dos Santos. Segue-se o carro de Catarina Furtado erigida em “mãe-pátria” com cabelos soprados por uma brisa de laca, mama descoberta (postiça claro, era só o que faltava) e erguendo bem alto o facho eterno da radiodifusão. Intervaladas por uma representação dos funcionários subalternos mais dedicados e produtivos, as armas de maior potência do arsenal encerram o desfile. Merche Romero ergue o queixo para a tribuna de onde Nuno Santos e Almerindo Marques lhe acenam e piscam o olho. Atrás, Ricardo Araújo Pereira ergue os potentes bíceps cómicos sobre os quais se sentam os seus três dispensáveis amiguinhos. Já quando a multidão começa a dispersar, passa em jeito de carro-vassoura uma caricatura sobre rodas que ridiculariza os dissidentes mais emblemáticos do regime: Herman José e Manuel Luís Goucha.

Mas o mais triste de tudo isto (sim, ainda consegue haver alguma coisa mais triste), é que o problema da televisão em Portugal não se esgota, nem por sombras, na RTP. Se a RTP é uma Coreia do Norte, a SIC é uma Albânia de Enver Hoxha e a TVI não deve nada à Roménia de Ceausescu. Bem-haja pelos ecos do lado de lá da Cortina de Ferro que vão chegando até nós.


Sim ou Sopas? 24 de Janeiro de 2007

Uma das questões mais fascinantes no debate em torno do referendo ao aborto é a do tipo de argumentos usados pelos partidários do "não." Sem lhes questionar a validade (pronto, está bem, a maioria é duvidosa), há que reconhecer que o facto de serem quase exclusivamente argumentos metafísicos os torna perfeitos e impossíveis de rebater através de qualquer tipo de raciocínio. E isto é válido sobretudo para o argumento usado com mais frequência, aquele sobre "a vida humana ser sagrada" e não exclusivamente no sentido religioso do termo, para não parecer que só as ratas de sacristia o usam.

Como se responde a uma argumentação construída em torno disto? "-A vida humana é sagrada!"; "-Ai não é, não!" Um grande tiro no pé, no mínimo. Ou, para adaptar a linguagem ao tema em discussão, um arame pelo útero acima. Quase tão grave como: "-Você quer matar bebés!"; "-Ai pois quero! E quanto mais guinchos de dor intra-uterinos houver, melhor!"

Pensando no assunto um bocadinho mais a sério (o que é difícil, perante os níveis elevados de parvoeira que povoam a maior parte dos debates sobre a matéria), há alguma confusão quanto à questão fundamental. Simplificar-se-ia muito as coisas se, em vez da pergunta palavrosa aprovada para o referendo, se perguntasse às pessoas se têm ou não bom-senso. O bom-senso que lhes permite, mesmo achando que o aborto é uma coisa terrível e contra os seus princípios (quaisquer que eles sejam), pensar que todos devem ser livres para decidir o que fazer com o seu próprio corpo e perceber que um Estado, uma Igreja ou mesmo uma opinião pública maioritária que obriga uma mulher a dar à luz um filho indesejado são aberrantes.

Outros argumentos também muito populares são o que refere a necessidade de levar em consideração a vida do embrião e não apenas a vontade da mãe e o outro, talvez um dos mais divertidos, que diz qualquer coisa como "E se alguém escolher matar um vizinho? Se a vontade pessoal, é assim tão importante, então o homicídio teria também de ser legalizado." Bom, estes são bastante mais fáceis de rebater. O segundo porque é uma estupidez e qualquer pessoa que o use deve ser imediatamente esbofeteada com entusiasmo. O primeiro através de uma experiência. Alguém que pense assim, deverá dirigir-se à clínica de fertilidade mais próxima e pedir para lhe mostrarem um embrião e para ficar a sós com ele. Olhe-o bem nos olhos (em sentido figurado, porque pode ser difícil localizá-los), faça-lhe perguntas, converse com ele, procure perceber o que sente. Depois olhe para um espelho e veja a figura de parvo que acaba de fazer (até porque ninguém lhe mostraria um embrião real e o que tem à frente são umas gotas de clara de ovo num vidrinho).

E não se pode esquecer também o argumento do macho. Que é aquele que diz que o aborto não deve ser realizado a pedido da mulher porque isso retira o pai da decisão. Ou seja, uma mulher decide não ter um filho mas, porque o pai acha o contrário, terá de se resignar, sendo-lhe extraído o embrião para injectar na nuca do progenitor de onde, ao fim de nove meses fisicamente esgotantes, emergirá por uma das narinas. Algures na frase anterior, a realidade foi mandada à fava e entrou-se no domínio de uma ficção científica absurda. A verdade é que a igualdade entre os sexos não se aplica neste caso (é favor ler o que acima se disse sobre decisões tomadas sobre o corpo de cada um) porque a Natureza assim entendeu.

A mesma natureza que entendeu dotar-nos a todos (ou a uma boa parte de nós... pelo menos a alguns, sem dúvida) com o dom do bom-senso. E são as pessoas de bom-senso que decidirão. A não ser que o dia esteja convidativo para um passeio. Ou para ir ao centro comercial. Ou ao café. Ou para ficar a ver televisão. Ou...


A vingança do ditador 4 de Janeiro de 2007

2006 ficará na memória comum como o ano em que juntámos ao consumo obsessivo de passas e champanhe, ao fogo de artifício e ao uso de roupa interior azul uma nova tradição de réveillon: procurar os melhores ângulos do enforcamento de Saddam Hussein. A televisão não ajudou muito, transmitindo apenas imagens “soft” do condenado a ser conduzido ao cadafalso e a receber a corda ao pescoço com sangue frio digno de um tirano à moda antiga. Quem não dispensasse os pormenores mais sumarentos, poderia sempre recorrer à internet, habitual relicário inesgotável de podridão humana, para ver que o homem que governou o Iraque durante várias décadas, o ditador que não hesitava em chacinar o seu povo, o vilão que idealizou a invasão injustificada de dois países vizinhos estava morto.

E estaria mesmo?

Consumados os factos, chega agora a altura de começar a preparar as teorias da conspiração. A minha é esta: É sabido que Saddam tinha sósias e parece-me inegável que o barbudo capturado por tropas americanas num buraco e julgado em tribunal durante todo este tempo tem uma fisionomia suficientemente diferente da exibida pelo Saddam de antes da “libertação” para se duvidar tratar-se da mesma pessoa.

Partamos do princípio de que não é. Imagine-se que o verdadeiro Saddam está algures num hotel de luxo no Dubai, disfarçado com o cabelo tingido de louro e um sotaque francês fictício, assistindo ao seu próprio julgamento e execução da mesma forma que qualquer um de nós (talvez com um pouco mais de conforto). E imagine-se que sorri. Não por saber que, finalmente, deixará de estar nas bocas do mundo mas por um motivo muito mais sinistro. Porque, afinal, a vitória acabou por ser sua.
Deixaram de importar as barbaridades criminosas que o seu regime possa ter cometido, deixaram de importar os xiitas torturados e sepultados em vala comum, os curdos bombardeados com gás tóxico ou os mortos da guerra com o Irão. Porque, no fundo, o que a exploração mediática do enforcamento conseguiu foi fazer vir à superfície a ideia de que um homem obviamente tão rude e com tantos traços de psicopata pudesse ter um lado escondido mais humano e digno de pena.

No dia seguinte à execução, um enfermeiro americano que com ele privou veio a público falar de um homem simples que nunca esqueceu as suas origens campestres, que se dedicava à jardinagem, que escrevia poemas e lhe relatava com saudade os tempos em que contava histórias aos filhos para adormecerem. Que se despediu dele com um abraço fraterno. O homem que enfrentou estoicamente os insultos dos seus carrascos e que foi vitimado por uma morte horrível com violência exagerada (este comentário em particular é delicioso porque parece sugerir-se que algum malvado retirou a beleza e a magia típica dos enforcamentos).

Ou seja, no momento da morte, Saddam conseguiu que meio mundo se comovesse e trocasse o ódio pela pena. Algo que Augusto Pinochet, ditador igualmente sanguinário e merecedor de igual tratamento, nunca conseguiu, mesmo tendo passado os noventa anos e morrendo de forma tranquila numa cama com o apoio dos EUA (o mesmo que Saddam teve outrora) a servir-lhe de almofada.


The Great Portuguese 9 de Novembro de 2006

(Excepcionalmente, este espaço será preenchido com um texto da autoria de Humberto Bernardo, originalmente publicado no seu blog "O Estado Negação" e aqui reproduzido com autorização do autor a quem agradeço a disponibilidade.)

Inspirado no polémico Great Britons que a BBC Two lançou em 2002, a televisão pública lançou mãos à obra e apresenta, orgulhosa, "Grandes Portugueses", no prime time da RTP1. Queria ter começado por escrever estas palavras dizendo que seria impossível para os ingleses misturarem Shakspeare com Beckham, mas saiu-me o tiro pela culatra. Afinal lá como cá os exemplos de sodomia pública não param, desde a meia hora que Petr Chec esperou por uma ambulância com um traumatismo craniano com afundamento, até este inovador conceito televisivo e estadual.

Num certo sentido uma das vantagens das estações privadas é a sua genuinidade, ou seja, não se podem dar ao luxo de enganar os segmentos, sob risco de os perderem. Assim, fazem produtos essencialmente pimba e quando arriscam algo mais elaborado, procuram seguir à risca as regras necessárias. A televisão pública pode cuspir calmamente na face dos portugueses, fruto um pouco da ideia do utilizador pagador: pagamos, logo aceitamos.

Uma grande portuguesa

O segredo do sucesso de Maria Elisa é simples: é uma figura banal e medíocre, condição sine qua non para vencer neste país, neste meio. De facto, ninguém consegue detectar uma ponta de talento, de eficácia, um rasgo, um momento surpreendente. Ela mantém-se numa verificável linha estável, num cinzentismo permanente, num tom monocórdico, embora arrastado, como convém.
O seu percurso representa justamente a falta de chama que a conduz circularmente ao topo do poder, por linhas tortas ou direitas.
Após muitos anos na RTP, Elisa saiu para lançar a televisão privada. A convite de Balsemão, foi a primeira Directora de Informação e Programas da SIC. Acontece que a sua prestação terá preocupado o homem forte da Impresa. A conturbada relação com a redacção (em formação) e decisões escandalosas na programação (como a forma de compra de O Labirinto à cabeça) terão levado ao seu original despedimento, pouco tempo antes do arranque da emissão da SIC, substituída então por Emídio Rangel. Voltou para a RTP (doravante A Mama).
Rapidamente conquistou novo lugar de realce, ora no entretenimento, ora na informação, ora no infoentretenimento. Em 2001 foi candidata a deputada pelo PSD e uma estranha polémica obrigou-a a ter de abdicar do quadro d'A Mama. Estranha porque Maria Elisa sentiu que a Lei da Incompatibilidade a visava e ficou magoada. Depois, afirmou mais tarde, sentiu-se desiludida com o PSD e foi colocada como adida cultural na Embaixada de Londres. Outros 4 milhões de portugueses, também desiludidos com o PSD, aguardam a mesma sorte: serem colocados numa embaixada. Freitas do Amaral acabou com certas mordomias e Elisa voltou a ficar triste. Regressou a Portugal via imprensa cor-de-rosa, estabelecendo-se no Porto a cavalo num romance com o digno e sério presidente do FC Porto. Diz-me com quem andas... Terminada a relação, volta agora à Mama, que a recebe chorudamente com a merecida passadeira (vermelha?).
O seu percurso próximo não apresenta qualquer dúvida. Se fosse uma folha Excel teria na coluna horizontal três fases: entretenimento, infoentretenimento e informação. Na coluna vertical outras três: optimismo, dúvida, pessimismo. Tudo fará para restabelecer a confiança dos seus pares do PSD.

O Formato

Primeiro estranha-se, depois adora-se. É um prazer poder escolher os Grandes Portugueses. Basicamente porque não existe qualquer possibilidade de critério para tal escolha. Não, não é um programa de non sense. É a primeira experiência daquilo que pode ser um novo conceito: a televisão surrealista.
O site do programa avisa-nos logo para esse exercício: podemos votar em quem quisermos. E lembra que a lista apresentada é só uma sugestão. Mas essa sugestão demonstra bem a dificuldade que se nos apresenta: como optar entre Beatriz Costa e António Livramento? Entre Belmiro de Azevedo e Maria João Pires? Entre João César Monteiro e o Santo António? (Aqui a escolha será mais fácil para os portugueses: o Santo António só fez milagres e nunca fez um filme negro).

Poderemos sempre pensar que alguns vão votar por opção política. Será evidente o que levará uns a escolher Zeca Afonso e outros Oliveira Salazar. Outros por clubite: embora erradamente, uns decidirão que o maior português é António Jesus Correia, outros, Eusébio.
O próprio outdoor que compara Rosa Mota a Vasco da Gama é revelador. O bem esgalhado trocadilho do ouro e da pimenta, fará com que muitos optem por ela, mas é uma comparação mais feliz que, por exemplo, Diogo Cão e Maria de Lurdes Pintassilgo, brincadeira que seria parva uma vez que a grandeza de uma figura não se mede pelo nome de animal que tem.
Uma das mais dolorosas escolhas será entre o primeiro e o último chefe de estado: D. Afonso Henriques e Cavaco Silva travarão um luta renhida até ao fim, com clara vantagem para o algarvio que goza de uma dinâmica vencedora e de apoio logístico, partidário e do Palácio. Além disso, no tempo do primeiro rei, o Algarve não fez parte do formado país o que demonstra bem a intenção de voto daquele território.

Salvaguardar que Mário Soares é o único português vivo sugerido cuja fotografia tem mais de 20 anos. É um claro sinal que quem aceitar a sugestão está a votar no fantasma e não no Mário Soares, vivo, activo e que recentemente concorreu democraticamente a eleições. Ramalho Eanes, Sampaio, Saramago, Paula Rego, enfim, todos os outros Grandes Portugueses vivos têm fotografias actuais.
Depois há também o aspecto lúdico. Na emissão do passado domingo, um separador apresentava uma sequência de alguns destes portugueses. Francisco Sá Carneiro aparecia a seguir a Fernando Pessoa. Essa ideia confirma a tese de muitos de nós que acham que o poeta e o político tiveram algum tipo de relacionamento...

Os que faltam

Não obstante a oportunidade de tão divertido programa e apesar de podermos votar em quem quisermos, é no mínimo injusto que alguns portugueses não estejam na lista de sugestão a começar logo por Maria Elisa, mas também Judite de Sousa, Fernando Seara, Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz.
Eu, especialmente, sinto falta de Tamagnini Nené, Minervino Pietra e Manuel Galrinho Bento.
Sinto falta de uma área para Margaridas. Rebelo Pinto, Pinto Correia e Marante são grandes e indispensáveis portuguesas.
Acho a lista dos Cintra incompleta. Se Luís Miguel, o encenador, está, porque não está Sousa, o cervejeiro e Eduardo (...) Torres o crítico/autor de programas da RTP?
O público que, como eu, gosta de uma certa traulitada estranha que não constem figuras como o Melo, arruaceiro e o lisboeta da década de 60 mais danado para andar à pêra e Rosa Casaco, que não só comandou a brigada da "Operação Outono", que visou o assassinato de Humberto Delgado, como terá colaborado no espancamento de extermínio de Arajaryr Campos embora considere que foi traído pelo autor do disparo, Casimiro Monteiro, uma vez que a operação era de rapto e não homicídio.
Ainda na dinâmica da cacetada, noutro plano, mas afinal tudo vale em Grandes Portugueses, dois deveriam ser imediatamente colocados na pool: os Pintos. João fez tudo aquilo que um português quer fazer a um árbitro e Sá, tudo aquilo que um benfiquista quer fazer ao Fernando Santos.

A bronca na GB

Basicamente o programa, em terras de sua majestade, deu barraca. Estranho. E por alguns motivos: primeiro a BBC Two resguardou o mais que pôde Winston Churchil, para que não desse uma verdadeira cabazada nos oponentes, o que veio, finalmente, a verificar-se.
A rapaziada da Universidade de Brunel montou uma mega campanha para levar Isambard Kingdom Brunel, o engenheiro inglês responsável pela Great Western Railway e por vários projectos engenhosos como pontes, túneis subaquáticos e afins, a um escandaloso 2º lugar à frente de Diana de Gales (3ª), Darwin (4º), Shakspeare (5º), David Bowie (29º) e David Beckham (33º).
Finalmente, na lista final das 100 personalidades apenas 13 são mulheres, o que irritou as feministas e deu razão aos machistas. Os irlandeses foram excluídos (Bono e Geldof), Freddie Mercury (nascido em Zanzibar) não e o primeiro escocês apareceu em 20º lugar (Alexander Flaming) e o primeiro gaulês em 23º (Owain Glyndwr).

Claro que em Portugal não se vai pôr esta questão porque obviamente Eusébio é português e pode entrar e Xanana é timorense e não pode.

A minha Lista

Ao fazer um exercício muito idêntico ao do programa, constato que, ao contrário de outros compatriotas, dou muita importância às artes, às letras e às ciências.

1- João César Monteiro
2- Eusébio
3- Chalana
4- Rui Costa
5- Santo António
6- Nené
7- Ferreirinha (gostei muito da série e convém haver quotas)
8- Humberto Coelho
9- António Damásio
10- Coluna

11- José Águas, 12- Emanuel Nunes, 13- Toni, 14- Nuno Gomes, 15- Paula Rego, 16- Diamantino, 17- Simão Sabrosa, 18- Sobrinho Simões, 19- Rui Águas, 20- Mário Wilson, 21- Bento, 22- Fernando Pessoa, 23- Pietra, 24- Bastos Lopes, 25- Fernando Meira, 26- Mário de Sá Carneiro, 27- Vítor Batista, 28- Cavungi, 29- Shéu Han, 30- Álvaro, 31- Veloso, 32- Luís Miguel Cintra, 33- O Barbas, 34- Jorge Máximo, taxista, 35- Petit, 36- Ricardo Rocha, 37- Laranjeira, 38- Alberto, 39- José Saramago, 40- Simões, 41- Costa Pereira, 42- José Augusto, 43- Alexandre Quintanilha, 44- Jaime Graça, 45- Tavares, 46- Nelo, 47- Futre, 48- Miguel, 49- Manuel Fernandes, 50- João Magueijo, 51- João Alves, 52- Carlitos, 53- Jorge de Brito, 54- José Henriques, 55- Neno, 56- Florbela Espanca, 57- Florbela Queiroz, 58- Gil, 59- Paulo Madeira, 60- José Moreira, 61- Nélson, 62- Bruno Bastos, 63- Carlos Alhinho, 64- Infante Dom Henrique, 65- Carlos Lisboa, 66- José Azevedo, 67- Vanessa Fernandes, 68- António Leitão, 69- Silvino, 70- João Pereira, 71- Nuno Assis, 72- Quim, 73- Siza Vieira, 74- Gullit (célebre líder dos NN, já falecido), 75- Cosme Damião, 76- Ribeiro dos Reis, 77- João Santos, 78- Luís Filipe Vieira, 79- José Veiga, 80- Hélio Roque, 81- Manoel de Oliveira, 82- Torres, 83- Matine, 84- Malta da Silva, 85- Arsénio, 86- Félix, 87- Pipi, 88- da Margarida Rebelo Pinto, 90- Germano, 91- Borges Coutinho, 92- Manuel Damásio, 93- Cavém, 94- Paulo Jorge, 95- Luís Vaz de Camões, 96- Artur Santos, 97- Maurício Vieira de Brito, 98- Salazar, 99- Rosa Casaco e 100- Maria Elisa Domingues!

Conclusão

Dos fracos não reza a história, diz o povo e portanto toca a votar. Aconselho vivamente o voto por chamada de valor acrescentado. Pensa que vota assim, em quem quiser, sem pagar? Não esqueçamos um objectivo secundário: os nossos impostos pagam esta charada, sem espinhas. Mas se o in come for gratificante, outros belos programas se seguirão. Esse problema não diz respeito a Maria Elisa. Por esta altura estará de novo a caminho do quadro d'A Mama.


A invasão das Merches 26 de Setembro de 2006

Quem vê os canais generalistas (os masoquistas e os que ainda não conseguiram ampliar o seu espectro de telelixo com as maravilhas do cabo ou do satélite) já terá reparado no fenómeno curioso que é a multiplicação das Merches. Por “Merches” entenda-se raparigas acabadas de sair da adolescência, altas, magras e decorativas, nada telegénicas, nada perspicazes, dividindo entre si o mesmo micrograma de personalidade e sem o mínimo talento para empurrar a câmara, quanto mais para aparecer à frente de uma.

Merche Romero pode não ter sido a primeira (Sónia Araújo, por exemplo, antecedeu-a, apesar de não ser particularmente alta, sendo vistosa e magra q.b.) mas é, sem dúvida, a mais célebre e uma das poucas que o público vai conhecendo pelo nome. Tal não se deve à sua prestação profissional mas isso são contas de outro rosário. De qualquer forma, justifica-se que o nome de Merche seja usado para classificar todo um grupo.

O fenómeno não se limita a um canal. Dividem-se pelos três e até na 2 deve haver alguma a apresentar magazines culturais ou de saúde a meio da tarde. A diferença está na aplicação que cada canal dá às suas Merches.

Se na TVI as Merches habitam maioritariamente o departamento de informação, dando cara (laroca) a reportagens ou fazendo mesmo de pivot, as Merches da SIC vão parar à ficção em projectos construídos unicamente com o objectivo de as despir a bem da arte.

É a RTP 1, no entanto, o habitat por excelência das Merches e pertence-lhe também o pioneirismo da Merchice. Em nenhum outro canal há tantas Merches e, não se sabendo muito bem como, estão quase todas no “Portugal no Coração” quer seja na pele de co-apresentadoras (uma das 400) ou em missão especial à Venezuela, à África do Sul ou a outro país com uma significativa comunidade imigrante portuguesa para, com as suas figurinhas de manequim de loja, matarem saudades aos luso-qualquercoisa do produto nacional.

Mas de onde vêm afinal as Merches? Portugal nem é particularmente rico em raparigas altas e magras para justificar tal abundância televisiva. Só me ocorre uma explicação. Clonagem. Pode parecer rebuscado mas é a única explicação possível para esta verdadeira invasão que se verificou ao longo dos últimos anos. Todas têm a mesma cabeça oca, sorriso plástico, olhar vazio e discurso imbecil. Todas parecem igualmente alheias à sua gritante falta de capacidade. É como se todas tivessem sido feitas a partir do mesmo molde. E acredito que foram.

Algures no país existirá um laboratório de clonagem a que apenas as estações de televisão têm acesso. As Merches são feitas por encomenda, variando-se algumas características físicas (cor dos olhos, cor do cabelo etc) ou mesmo com variações mais arrojadas (Tânia Ribas de Oliveira é uma Merche de pleno direito sem ser particularmente vistosa e Hélder Reis saiu uma Merche um bocado máscula mas não muito). Há até o exemplo de Isabel Angelino, uma Merche protótipo que saiu com gritantes defeitos de fabrico mas que é aproveitada na mesma porque estamos em crise e não se pode desperdiçar.

Não existirá grande perigo nesta invasão. Pelo menos enquanto o amigo controlo remoto estiver do nosso lado. Mas é profundamente imoral que o laboratório de clonagem secreto não possa ser usado em proveito do país. Por exemplo, para criar políticos incorruptíveis e com QI superior a 2, burocratas amigos da simplificação, dirigentes desportivos honestos ou funcionários de repartição pública que gostem realmente de lidar com as pessoas. Isso é que é pena.


Terrorismo Agosto de 2006

Estava escrito que o terror havia de voltar. Não havia volta a dar-lhe. E voltou, cumprindo-se a profecia dos inúmeros profetas modernos a quem é de bom-tom chamar “especialistas.” Sempre lhes confere uma aura mais credível. Especialista é alguém impecavelmente vestido e sisudo q.b. a debitar opiniões num noticiário televisivo. Profeta invoca imagens de velhos barbudos e andrajosos a vociferar ameaças crípticas do alto de penedos. Estamos melhor com os especialistas.

E ponham-se de parte as desconfianças. É verdade que o mundo foi aprendendo ao longo dos últimos anos a não confiar cegamente em nada do que emana dos governos dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha. Tivemos já várias ocasiões concretas em que ficou provado que não podemos fazê-lo (lembre-se quando fomos informados de que a guerra no Iraque tinha acabado ou, ainda antes, quando Colin Powell foi à ONU mostrar as armas de destruição maciça de Saddam Hussein). Isso é bom senso. O mesmo bom senso que nos leva a pensar que George Bush, Tony Blair e companhia talvez (sublinhe-se o “talvez”) tenham motivos mais ou menos escondidos para manter o mundo num clima de medo e em alerta para uma ameaça global cuja existência ou inexistência não pode ser provada por ninguém, à espera de um inimigo que está, simultaneamente, em todo o lado e em parte alguma.

Mas até o bom senso tem limites. Vamos a uma metáfora campestre. Se, na capoeira, uma das galinhas se põe a cacarejar porque viu uma raposa, as outras desatam numa correria desvairada, fazendo os possíveis para subirem aos poleiros mais altos. Mesmo que a raposa fosse apenas uma sombra inofensiva. Ou que a galinha que deu o alerta quisesse subir nas sondagens ou tivesse negócios multimilionários com fabricantes de armas e companhias petrolíferas. E nós, tal como as galinhas, temos uma grande capacidade para esquecer o bom senso quando o que está em causa é a integridade física da nossa crista.

Além disso, trata-se da Scotland Yard e não de uma ave de capoeira, o que confere confiança acrescida. E a polícia britânica não costuma cometer erros (exceptuando o abate ocasional de fundamentalistas islâmicos que, afinal, eram brasileiros atrasados para o trabalho). Se foi desmantelada uma conspiração internacional que provocaria milhares de mortos e se foram presos 24 suspeitos, o mundo aplaude, agradecido. Continuem a zelar por nós e protejam-nos das sombras malvadas.

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Com tudo isto, veio a necessária alteração nas regras dos voos comerciais. A partir de agora, de forma temporária, as autoridades britânicas restringiram severamente os itens que podem ser incluídos na bagagem de mão. Mas talvez não tenham ido tão longe quanto deveriam. A saber:

-Os objectos têm de ser transportados em sacos de plástico (de preferência transparentes). As malas e mochilas são proibidas. Muito sensato. É relativamente fácil enfiar a cabeça de alguém dentro de uma mochila, selá-la com adesivo e esperar algumas horas até que morra por asfixia. Os sacos transparentes permitem a identificação do assassino o que dificulta as coisas aos malfeitores que procurem usá-los para o mesmo fim.

-Os líquidos passam a ser proibidos para evitar o transporte para a cabine de explosivos líquidos ou ingredientes que permitam fabricá-los. Pelo mesmo motivo, não é permitido trazer para bordo conjuntos de química para crianças e os passageiros que forem apanhados a manusear tubos de ensaio e bicos de gás poderão ser detidos. As soluções para lentes de contacto estão proibidas e o leite para bebés tem de ser provado por um adulto. Mas não se pode ficar por aqui. As mães em aleitamento deverão ser submetidas a um processo de ordenha preventiva para assegurar que não transportam nitroglicerina. Os diabéticos podem levar a sua insulina mas é preciso cuidado. Devem ser vigiados constantemente para assegurar que não a injectam em alguém, podendo provocar morte por hipoglicemia.

-Os medicamentos receitados são permitidos mas apenas depois de se confirmar que são reais. Por exemplo, os comprimidos terão de ser tomados um a um antes do embarque para garantir que não são explosivos disfarçados.

-É permitido levar óculos graduados ou de sol. E não devia ser. Custa a crer que algo tão óbvio tenha escapado aos especialistas em segurança aérea porque as lentes poderão ser usadas em conjunção com a luz solar para provocar pequenos incêndios.

-Os itens de higiene feminina como tampões e pensos higiénicos poderão ser levados para bordo mas fora das caixas respectivas e apenas em quantidade suficiente para a duração do voo. É bom ver que não se esqueceu o incidente de Islamabad em 2004, quando um passageiro tentou accionar um engenho explosivo fabricado com vários tampões e detonado pela bateria de um telemóvel. E acrescente-se que os tampões eram de grande absorção.

-Passa a ser proibido levar aparelhos electrónicos para bordo, já que a bateria dos mesmos pode ser facilmente convertida em detonador. Tão facilmente como uma lesma pode ser convertida em arma ofensiva, bastando apenas secá-la ao sol, revesti-la com aço e afiar as extremidades.

Mas não podemos ficar por aqui. Porque qualquer coisa é passível de ser usada para fins nefastos e porque nunca se sabe quando o passageiro do lado está a misturar sub-repticiamente os ingredientes de um explosivo líquido e a aplicar-lhes um detonador, o melhor é mesmo transportar apenas passageiros nus e adormecidos por tranquilizantes.
É para o bem comum.


O Programa Ideal Junho de 2006

Esta pode ser a última vez que escrevo. Num daqueles lampejos de genialidade que ocorrem uma vez a cada cem anos, caiu-me no alto da cabeça, qual maçã de Newton, a receita infalível para fazer o programa de televisão ideal para o público português. E isso far-me-á rico. Muito rico. Suficientemente rico para passar o resto da vida a viver em Beverly Hills, ocupando o tempo a entrevistar candidatos ao cargo de passeador oficial dos meus muitos galgos afegãos.

Começaria por um cenário colorido (e quando digo “colorido,” quero mesmo dizer “colorido;” qualquer coisa que abrangesse no mínimo dois terços do espectro cromático) com palco para atracções musicais, zona de conversa com sofás e almofadas rodeando uma mesa geométrica vanguardista e com espaço para sentar público de estúdio.

Os apresentadores seriam três. Um homem (cruzamento entre Fernando Mendes e Manuel Luís Goucha - macho ma non troppo) que teria obrigatoriamente um handicap qualquer, ou seja, poderia ser obeso mórbido, não ter uma perna, gaguejar ou ser viúvo recente, alguma coisa que permitisse ao público simpatizar com ele de imediato e estabelecer uma saudável empatia. A seu lado, duas mulheres. Uma jovem e bonita, loura de preferência e suficientemente estúpida para fazer os outros dois parecerem físicos nucleares. A outra já entradota, quarentona talvez, gorda, mãe de dois filhos e mulher de um operário fabril desempregado que bebesse e lhe chegasse a roupa ao pelo sempre que o Glorioso perdesse pontos. Caber-lhe-ia representar o “País Real” e conferir ao programa um pouco de sabedoria popular.

Para além destes três, alternaria a visita de um negro vestido com tanga de pele de leopardo (que fizesse um número cómico em que se abanaria muito ao som de kuduru e se roçasse num dos apresentadores sem dizer uma palavra) com uma rubrica de comentário social em que dois homossexuais efeminados, mas não assumidos, comentariam recortes de revistas cor-de-rosa mostrados num ecrã através de gritos agudos lancinantes e momentos de pugilato homoerótico com cabelos arrancados e uma ou outra carícia dissimulada nas partes baixas respectivas.

Em cada programa existiria uma atracção musical convidada que deveria conformar-se a um conjunto de exigências:

-Vestuário com mais de oito cores diferentes (tonalidades da mesma cor não contam).
-Coreografia arrojada.
-Nada de instrumentos acústicos.
-Obrigatoriedade de playback com movimentos labiais descoordenados.

Haveria também um momento sério em que deficientes profundos, desempregados de longa duração, esposas traídas, gordos a pedir banda gástrica, filhos abandonados, mamalhudas que gostariam de fazer reduções, jovens sem posses que gostariam de comprar uma playstation de último modelo desfiariam o seu rosário de queixas acompanhados por música comovente de violino e piano e receberiam o conforto e a simpatia gerais.

Seguir-se-ia um passatempo em que, quem fosse mais lesto a ligar para o número no ecrã ganharia uma quantia modesta em dinheiro que, por gritos e estardalhaços da equipa de apresentadores pareceria uma grande fortuna. Além disso, poderia passar largos minutos a falar do que lhe viesse à cabeça, podendo ser desde queixas de saúde a louvores aos apresentadores ou a alguém muito parecido com eles que também aparecesse na televisão. Uma parcela ínfima do valor das chamadas, mais alto do que o prémio, reverteria a favor dos participantes na rubrica anterior.

Para além da atracção musical convidada, o programa teria uma banda residente composta por adolescentes com bom aspecto que protagonizariam também uma pequena rábula telenovelesca, servindo esta, sobretudo, para promover a venda de discos e merchandising.

Espaçados pelo programa, os inúmeros intervalos comerciais serviriam para vender trens de cozinha milagrosos, colchões ortopédicos, preservativos adaptáveis e cerveja com sabores variados.

O horário de exibição seria indiferente e a duração deveria ser mais para o longo do que para o breve. Quanto ao título, qualquer coisa cheia de significado e emoção que despertasse o melhor do pior em cada espectador. Qualquer coisa como “Com o amor no coração” ou “Nós e você – Paixão e Devoção” ou ainda “Espectador Querido, Quero Coisar Contigo.” É só puxar pela imaginação.


O Código do Código Da Vinci Maio de 2006

É impossível falar do fenómeno “Código Da Vinci” sem referir a aura de secretismo que o rodeia. O secretismo não diz respeito apenas à natureza de thriller com revelações e um desfecho que se querem surpreendentes mas à existência de segredos adicionais para os quais o romance de Dan Brown apontará o caminho sem ir muito além disso, de modo a permitir ao leitor chegar lá através do seu próprio poder dedutivo. Segredos que podem mudar o mundo como o conhecemos. Segredos que podem revolucionar o Cristianismo. Segredos que prometem virar do avesso o ordenamento social do Ocidente.

Tretas.

Mas Dan Brown até se baseou em factos verídicos, não foi? As sociedades secretas referidas existem realmente e o livro está cheio de revelações bombásticas sobre monumentos arquitectónicos e obras de arte e isso não pode ser desmentido, pois não?

Mais tretas.

Há realmente segredos escondidos no “Código Da Vinci.” Mas nem são assim tão secretos como isso. O primeiro “segredo” é que Dan Brown é um escritor medíocre e, tivesse mais cabelo, silhueta anoréxica e um passaporte português, daria uma perfeita Margarida Rebelo Pinto. Tem um mérito que a nossa Margarida não tem. Lá vai conseguindo manter o leitor preso e interessado até à desilusão final. Segundo segredo: os “factos” em que o romance se baseia resultam de uma investigação pseudo-histórica desmentida de forma unânime por todos os investigadores que não têm a palavra “logro” inscrita na testa com grandes letras vermelhas. As referências a organizações mais ou menos secretas, mais ou menos históricas podem dividir-se em dois tipos diferentes. Por um lado, fala-se de organizações que existem ou existiram realmente mas atribuem-se-lhes naturezas fantasiosas. Por outro, o tão falado “Priorado de Sião” foi fundado por um grupo de foliões franceses na década de 50 e, por vários motivos que nem vale a pena referir, é mais provável que Leonardo Da Vinci tenha sido presidente do Benfica do que um dos seus grão-mestres. A única verdade neste capítulo é que a Opus Dei é uma associação de beatos esquisitos. Apetece desejar-lhes que carreguem com afinco nas mortificações. Força nessa chibata, Mota Amaral. Terceiro segredo: a saloieira mística New Age do sagrado feminino que acaba por fazer tanto sentido como o sagrado masculino ou o sagrado outra coisa qualquer. Por cada adorador de uma deusa anafada e mamalhuda ao longo da história, houve três adoradores de diabretes com erecções monstruosas e milhentos devotos de calhaus, troncos, lagartixas ou bostas petrificadas.

O próprio filme também guarda segredos muito próprios. Ron Howard, celebrizou-se com a série “Happy Days” e tinha muita graça com o cabelo ruivo e a cara de palhaço. Como realizador, o melhor que se pode dizer a seu respeito é que continua a ter muita graça com o cabelo ruivo que lhe resta e a cara de palhaço que não se alterou. Até começou bem com a ingenuidade aprazível de filmes como “Cocoon” ou “Splash” mas, com o sucesso e a consagração, envaideceu e é agora um dos mais perfeitos exemplos do realizador tarefeiro de Hollywood que cumpre o seu papel de dar aos estúdios e ao público o que querem e sem tentar levar a coisa um milímetro mais além. Com o seu “Código Da Vinci” (produzido por Dan Brown), Howard consegue que actores perfeitamente capazes consigam parecer um bando de cepos e sem terem grande culpa porque, obrigados a basear-se em material daquela qualidade, nem com um milagre poderiam ter feito melhor.

Mas o filme não se limita a ser a adaptação do livro. Faz também duas coisas espantosas. Por um lado, serve de veículo para justificar a imbecilidade do autor quando diz, em prólogo ao romance, que tudo aquilo é baseado em factos, numa altura em que já se sabia que não era assim. E fá-lo, expondo os elementos que contradizem a veracidade da coisa e apondo-lhes esse magnífico argumento que é: “É falso? Pois é isso mesmo o que ELES querem que se pense!” Convincente, sem dúvida. Além disso, numa colossal demonstração de cobardia da produção (Dan Brown incluído), há um esforço óbvio e doloroso para dar o dito por não dito e tentar acalmar reacções mais veementes da parte dos ofendidos do costume. As verdades bombásticas expostas no livro passam a ser apenas opiniões desta ou daquela personagem, deixando-se bem claro que acreditar ou não é uma escolha pessoal e que o mais importante, afinal de contas, é que Jesus Cristo é/foi/será um tipo bestial.

E o maior segredo de todos acerca do Código Da Vinci é bastante simples. Sem ser preciso comprar livros com títulos como “Os Segredos do Código Da Vinci”, “O Segredo dos Segredos do Código Da Vinci” e por aí fora. É que o livro não é grande espingarda. O filme também não.


Camacho Costa outra vez Maio de 2006

O actor Camacho Costa morreu há três anos. Construiu uma carreira de personagem secundária em comédias “populares” (palavra que, em Portugal, é eufemismo para referir falta de qualidade). A sua morte e, antes disso, o anúncio público de padecimento de uma doença grave em fase terminal deram origem a um fenómeno curioso. A partir do momento em que Camacho Costa apareceu no canal, onde participava num programa de humor, de cabeça calva e voz rouca, admitindo estar doente (sem que alguém alguma vez lho tivesse perguntado), foi de imediato elevado à condição de “grande nome dos palcos, da televisão e do cinema.” Pouco depois, estreava-se “Não Há Pai,” tentativa falhada de repetir o sucesso de uma série de comédia brasileira gravada ao vivo (explicando-se o fracasso por ter sido feita com um quinto do talento). O programa “Levanta-te e Ri” foi idealizado para ser apresentado por ele. O seu livro, “Camacho Costa, Prazer de Viver,” escrito por terceiros, pretendeu deixar para a posteridade um pouco mais sobre o homem que um cancro elevou de besta a bestial.

Não sei se era isto que pretendia com o anúncio público da doença. Não acredito que fosse. Mas era previsível. Temos em Portugal uma qualidade ímpar que é a capacidade para a solidariedade e para o amparo a quem precisa. Essa qualidade louvável depressa se transforma em defeito quando exacerbada. Deixa de ser solidariedade e passa a ser pena. Ou “peninha.” Foi a pena (e a “peninha”) que colocou Camacho Costa num pedestal onde nunca teria chegado de outra forma.

E voltamos hoje a viver o mesmo.

Francisco Adam tinha 22 anos e fazia parte do elenco da telenovela da TVI “Morangos com Açúcar.” Desde a sua morte num acidente de viação que se têm repetido as manifestações públicas de pesar e as homenagens devidas após o que muitos descreveram como “morte de um ídolo.” Não querendo parecer insensível e respeitando todos os apreciadores dos “Morangos com Açúcar” (com votos sinceros de que ganhem juízo com a passagem dos anos e uma adolescência intelectualmente mais saudável), faço um apelo daqui do alto deste pedestal em que me coloquei a mim próprio com precioso auxílio dos Bombeiros Voluntários do Seixal e da sua escada Magirus, para que haja um pouco de bom senso. Transmitir em directo o funeral de Amália Rodrigues talvez seja justificável pela dimensão nacional e internacional que a cantora alcançou. Fazer o mesmo com o funeral de um actor dos “Morangos com Açúcar” não só banaliza como torna ridículo o gesto (e isto é dito desta forma porque não me passa sequer pela cabeça que a TVI pudesse transmitir o funeral como mais uma forma de aproveitamento da desgraça alheia em benefício próprio).

Ao longo da história, muitos foram os casos de artistas que só viram o seu talento reconhecido depois da morte (Van Gogh e Kafka, por exemplo). Em Portugal, acontece algo peculiar. Temos gente que vê o seu talento reconhecido depois da morte mesmo quando este nunca existiu em vida.

O jovem Francisco Adam perdeu a vida quando começava a vivê-la. Foi mais uma vítima trágica do campo de extermínio em que se converteram as estradas deste país. Teria sem dúvida muitas qualidades pessoais, seria um rapaz simpático, esforçado e amigo do seu amigo. Os familiares sentirão sem dúvida a sua falta.

Mas, como actor, era uma nulidade.


Deixem a Margarida em paz! Abril de 2006

Diz-se para aí que os méritos literários de Margarida Rebelo Pinto são duvidosos. Até há, ao que parece, alguém que se deu ao trabalho de fazer uma análise exaustiva e comparada dos seus livros para, em jeito de revelação inesperada, mostrar aos portugueses (talvez aos que fizeram dela uma autora best-seller) que a rapariga não sabe escrever.

Tudo calúnias de gente invejosa!

Façamos uma incursão pelo campo hipotético. Se fosse mesmo verdade que Margarida Rebelo Pinto tem tanto talento para escrever como para pintar frescos renascentistas (e sendo inegável que, até à data, não se lhe conhece qualquer obra deste género), como se explica que tenha tanto livro publicado? Com certeza, já alguém teria percebido a existência destes defeitos todos após publicação do primeiro ou mesmo antes, visto que o principal critério para publicação de obras literárias é, como se sabe, a qualidade e essa só pode ser avaliada após leitura atenta. Avançar com qualquer outra possibilidade é disparatado e revela segundas intenções.

E mesmo que seja verdade que a Margarida dê erros, repita constantemente as mesmas frases no mesmo livro ou em vários, faça citações despropositadas e não identificadas, que os enredos sejam simplistas e repetitivos, que o seu estilo seja primário e infantil, chegará isso para a acusar de não saber escrever?

Viajemos no tempo. Não disseram coisa parecida aos pintores impressionistas quando se atreveram a abandonar as formas tradicionais de representação pictórica? Quantas vezes não terá Picasso ouvido questionar os seus dotes artísticos por gente que olhava para as suas figuras e não lhe conseguia reconhecer qualquer forma concreta? Quem sabe se não terão dito também a Eça de Queirós que se repetia e que os seus livros eram meras histórias de cordel, relatando romances inócuos entre Bernardos e Anabelas?

O talento de Margarida está à altura do país que a lê. Essa é a única verdade nesta questão. E um dia receberá a consagração que hoje não tem.

Tenho dito.


Eu e os outros Março de 2006

Anos atrás, nos primórdios deste humilde recanto internético, adquiri o hábito, entretanto parcialmente perdido, de falar na primeira pessoa do plural, dando a entender que existiria uma multidão por trás da Inépcia. Pensava eu que a coisa ficava com um ar mais sério e refinado se não se conhecesse a realidade, ou seja, que é fruto exclusivo do meu excesso de tempo livre.

Há algum tempo, muito depois de assumir a minha solidão criadeira, comecei a descobrir pessoas que, em sítios variados, afirmavam ser colaboradores da Inépcia. Não foi só um. Nem dois. Nem três. E isso, pela bizarria, pôs-me a pensar, que é uma coisa que evito fazer por ordens do médico desde aquele dia trágico em que passei quase meia hora a tentar arranjar maneira de reconciliar árabes e judeus e fracturei o perónio. Cheguei à conclusão de que não podia tratar-se de fãs psicóticos pois não fazia qualquer sentido tê-los antes de ser milionário e ter oportunidade de aparecer na primeira página do 24 Horas a desmentir ser o pai do filho mutante da Catarina Furtado.

Foi então que me ocorreram uma série de possibilidades muito preocupantes.

E se, pensei eu, estes colaboradores fictícios não o fossem? Seria possível que, por imaginá-los, os tivesse tornado reais sem saber? Ou, será que o imaginário era eu? Talvez um grupo de gente se tivesse reunido para construir um site, criando um pseudónimo colectivo. Também é perfeitamente possível que eu seja real mas não tenha nada a ver com isto. Posso ser um maluquinho preso numa cela almofadada mas com ligação à internet que exorciza com esta fantasia uma vida pejada de traumas. O fã psicótico posso ser eu! Sendo assim, quem é o autor ou autores? E quem são vocês? Está aí alguém? Este texto está mesmo a ser lido? E será que alguma vez foi escrito? Será que existe alguém para o escrever?

Uma coisa, no entanto, é certa. A filosofia dá cabo de um gajo.


Rescaldo das presidenciais Fevereiro de 2006

Para quem já não se lembra, foi assim…

O Cavaco ganhou, como já se esperava. Um terço do país ficou feliz. Outro terço nem por isso e o último terço esteve-se nas tintas (como também já é habitual). Mesmo assim, lá foi dizendo as duas frases clássicas que se esperam de qualquer presidente eleito. Que será o presidente de todos os portugueses (menos de um sacana de Boliqueime que lhe roubava os berlindes quando era miúdo) e que a sua vitória não foi a derrota de ninguém. Houve bandeiras vermelhas, verdes e alaranjadas, gritos de “CAVACO! CAVACO!” e “PORTUGAL! PORTUGAL!” (mas mais dos primeiros do que dos segundos) e folgou-se bastante ali para os lados de Belém, aproveitando a proximidade do palácio para tirar medidas ao portão e ver se o camião das mudanças consegue subir a rampa.

Soares perdeu. E muito. Mas não ficou triste porque a democracia é mesmo assim e folgou em vê-la com saúde, saudando o adversário vencedor com fair play democrático. Depois olhou à volta com ar confuso e percebeu que não estava em 1986 e que não precisava de ir para o Hotel Altis, o que até era bom porque não tinha dormido a sesta de tarde e estava cheio de sono.
Alegre também perdeu. Mas menos do que Soares. E, como ficou à frente deste, foi como se tivesse ganho. Não quis responder a perguntas dos jornalistas mas leu uma declaração de “estivemos quase” sempre com aquele ar discreto mas indisfarçável de “eu bem avisei aqueles palermas!” A seguir, retirou-se para preparar a temporada da caça à rola e para escrever um soneto intitulado “Tomem lá disto.”

Jerónimo perdeu mas já esperava e até não ficou nada desagradado com os votos que teve. Com Louçã foi o mesmo mas não gostou da percentagem. Ambos concordaram que a culpa foi do governo.
Garcia foi o que mais perdeu mas, provavelmente, o que menos se importou com isso. Lembrou que as televisões fizeram de conta que não existia e que ninguém ligou pevide à sua proposta de uma candidatura patriótica única para derrotar a direita, sendo a primeira vez que alguém com cartão de militante do PCTP-MRPP usou a palavra “patriótica” desde a fundação do partido. A culpa não só não foi dele como até foi o único que tentou evitar o pior. Coitadinho do Garcia.

Mendes teve de tomar meio quilo de calmantes (um quarto do seu peso) para deixar de ter orgasmos espontâneos de dois em dois minutos e poder fazer a sua declaração de vitória, apesar de o vencedor não ser um candidato partidário, e lembrar que agora é que vai ser, agora é que o país vai começar a andar para a frente. E ele não seja uma pulguinha irritante se isso não é verdade.

Ribeiro também achou bem que Cavaco tivesse ganho e foi dizendo que era um dia histórico. Ninguém lhe ligou nenhuma. Muitos nem percebiam quem era ou porque estava a falar. Afinal, era só o presidente do “outro partido.”

Jardim deu os parabéns a Cavaco mas com cautela. Desde que os interesses autonómicos dos madeirenses sejam respeitados, o professor só tem a esperar apoio incondicional. Mas se melindrar a pérola do Atlântico e o seu porco-mor (pérolas a porcos, já dizia a sabedoria popular), será corrido a bofetões como o mais imundo esquerdalho.

Foi mais ou menos isto. Nada que não fosse esperado, portanto.


Um novo regime político para Portugal Janeiro de 2006

Muito se tem falado na mudança do regime político actual em vigor no nosso país. Há quem ache ser necessário passar do regime semi-presidencialista actual para um regime presidencialista. Outros há que referem a necessidade de criação de um parlamento bicameral com a constituição de um senado (esta medida teria a vantagem acrescida de dar senadores a um povo que tanto preza os títulos honoríficos e profissionais). E depois, há a velha história de ressuscitar uma monarquia que fez coisas tão bonitas por Portugal como o aqueduto das Águas Livres, o Pinhal de Leiria, o Mosteiro dos Jerónimos e o bigode de D. Duarte Pio.

Mas não podemos viver só de ideias ultrapassadas nem ter medo da inovação, mesmo que tal inovação implique pegar no sistema que agora temos e virá-lo completamente do avesso.
Por exemplo.

Estou convencido de que o país seria um sítio muito melhor para viver se o poder legislativo estivesse entregue a uma assembleia não eleita constituída por todos os homens chamados Sérgio e todas as mulheres chamadas Filomena a residir no país e que tivessem nacionalidade portuguesa. Caber-lhes-ia fazer as leis pelas quais todos nós nos regeríamos. Pode parecer uma coisa arbitrária. Pode haver quem se questione se este grupo de Sérgios e Filomenas teria a formação adequada para tão grande responsabilidade e se podemos entregar-lhe tal poder só por terem um determinado nome. Talvez não. Mas em que ponto é que isso difere do sistema que temos agora em que se põe uma cruz à frente do nome de um partido, cruz essa que se transforma por obra e graça do espírito santo num punhado de deputados que, na maioria, ninguém sabe quem são?

O poder executivo ficaria nas mãos do vencedor de um concurso organizado todos os anos a nível nacional para encontrar o português que conseguisse enfiar mais sultanas numa das narinas sem sangrar ou asfixiar. Por se tratar de muita responsabilidade para uma pessoa só, o vencedor do concurso poderia recrutar uma equipa de babuínos treinados especialmente para a função governativa.

A chefia do Estado, com toda a sua aura de representação nacional e união dos cidadãos em torno do conceito de pátria, seria atribuída a uma estátua de mármore, representando o actor americano Chuck Norris em tamanho duas vezes superior ao natural. Goste-se do seu trabalho ou não, é uma verdade indesmentível que é o tipo de homem com quem pouca gente ousará medir forças e a carga psicológica de um grande Chuck Norris feito de pedra é imensa.

Quanto ao poder judicial, é dispensável e poderia ser extinto.


Cláudio Ramos e a cobardia dos outros Dezembro de 2005

O caldo entornou-se. A propósito da citação indevida de um texto da Inépcia feita num programa de televisão brasileiro que, ao que parece, terá ofendido José Castelo Branco e a sua digníssima esposa, Cláudio Ramos disse num programa de televisão de que é colaborador (o único, salvo erro) que o texto citado tinha sido retirado de um site cujo autor era um cobarde. Ora, o autor sou eu, Cláudio. E estou fulo com a tua indelicadeza. Eu que era tão teu amigo. Lembras-te de quando me enviaste um email a acusar-me de não dar a cara quando te usava como personagem de um ou outro texto satírico? Talvez quisesses dizer que a Inépcia nunca teve a minha cara estampada em todos os cantos e recantos como o teu site que já não existe e constituiu uma grande perda para a internet nacional. Os mais maldosos vão pensar que escrevo com um teclado no qual a tecla P e a tecla M estejam trocadas mas não é o caso. Foi mesmo aquilo que quis escrever.

Lá te consegui explicar que não era pessoal e que me limitava a aproveitar o único valor que alguma vez tiveste (e que era o valor humorístico involuntário) e que agora, felizmente para nós, infelizmente para ti, já está mais do que gasto. Até me chegaste a confidenciar em tom perfeitamente cordial como te magoava que insinuassem a tua homossexualidade quando esta não correspondia à verdade e até és um homem de família e tudo. Não te desmenti. E, a partir daí, fiquei a pensar que eras um tipo porreiro com sentido de humor e desportivismo. Cheguei mesmo a ter esperanças de receber um convite para te visitar no monte alentejano.

Até que, por um assunto que não te dizia respeito, decidiste chamar-me nomes feios pela televisão e, ainda por cima, num programa que não vejo porque, nessa altura, estou ocupado demais a puxar o lustro ao meu cágado de estimação. Tive de ser informado por terceiros e tudo. Quem é que é cobarde, ó minha avestruz quezilenta?

Porque tu mais do que ninguém, percebes o valor do bom nome, resta-me convidar-te para resolver isto à antiga portuguesa com um duelo ao raiar do Sol no Jardim da Estrela (ao pé do embondeiro). Podes escolher o dia e as armas. Mas nada de agulhas de crochet, dedais aguçados, sapatos de salto algulha ou outras paneleirices. Armas de homem! Tijolos a vinte passos. Touros amestrados a quarenta pés. Coisas que expludam e dêem tiros. Coisas letais. Escarretas a dezoito metros. A escolha é tua.

Só não pode ser com os punhos porque não quero estragar a cútis.


Lá fora Novembro de 2005

Há uma realidade preocupante que, por vezes, surpreende os portugueses em deslocação ao estrangeiro e que, por algum motivo, decidem visitar uma livraria. É mais comum do que se possa pensar ver traduções de autores como Margarida Rebelo Pinto ou Miguel Sousa Tavares expostos em lugar de destaque na secção dedicada à literatura internacional. Não me preocupa que lá estejam. Preocupa-me que alguém os compre, motivado por uma ânsia de literatura exótica de países obscuros (Portugal neste caso) ou por uma reflectida lusofilia.

Há também a possibilidade igualmente assustadora de as versões traduzidas serem melhores do que o original por obra de um tradutor sobrequalificado que deduza que a falta de qualidade do texto a traduzir é gravosa demais para ser real e só se pode explicar por defeito próprio e imprevisto na compreensão da língua de Camões e Quim Barreiros.
Assusta-me que, um dia, Portugal possa deixar de ser o país de Eusébio, Amália e Figo e passe a ser o país de Margarida Rebelo Pinto ou Inês Pedrosa. Imaginem essa possibilidade por um instante. O que será preferível? Continuarmos a ser o país que muitos, dos poucos que o conhecem, acham situar-se algures na América Latina ou sermos célebres como a pátria de tão elevadas mentes criativas?

Se há gente que se diverte com as aventuras amorosas de Bernardos e Marianas ou com as incursões literárias do Miguel pela África Negra, é lá com eles. Afinal, a falta de gosto é um mal universal e incurável. Mas que sejam portugueses. Coisas como estas deviam ser mantidas do lado de cá da fronteira como um segredo embaraçoso lesivo para a reputação do país lá fora. Margarida Rebelo Pinto é uma das autoras mais populares em Portugal. Que seja. Mas ninguém precisa de saber os pormenores sórdidos.


Dura praxis Outubro de 2005

Com o fim do Verão, vão-se as andorinhas e cedem lugar a jovenzinhos com traje académico e capas negras esvoaçantes que povoam estabelecimentos de ensino superior de todo o país, da mais ilustre e veneranda universidade ao mais duvidoso instituto politécnico. Não sou contra esta saudável tradição académica. Há dias, passei por um cortejo de jovens de cara pintada, enrolados em papel higiénico que se deslocava de joelhos com as mãos na cabeça enquanto ia cantando uma rapsódia de êxitos de Quim Barreiros e pensei: “Olha que coisa bonita. Desde os autos de fé que não havia uma forma de diversão assente na humilhação pública deste nível.”

A única mágoa que sinto é ver que as praxes de agora pouco têm a ver com as praxes da minha juventude. No meu tempo é que era. Encurralavam-se os caloiros num canto da universidade de difícil acesso e eram alinhados por ordem alfabética do último apelido. De seguida, o führer veteranorum, ou seja, o aluno com maior número de cabelos brancos, passava-lhes revista por trás, apertando as nádegas às caloiras para verificar a sua consistência e atingindo os caloiros na nuca com um varapau.

De seguida, escrevia-se o nome dos cursos respectivos na testa com uma mistura de tintura de iodo, vinagre e diluente e atavam-se os pés esquerdos uns aos outros com corda áspera e muito longa para evitar que tentassem fugir durante o cortejo. Normalmente, começava na porta principal da universidade e prolongava-se pelas principais ruas e praças da cidade com o objectivo didáctico de ambientar os caloiros que vinham de fora. A meio do caminho, era-lhes aplicado o vidro moído dentro dos sapatos, premiando-se os andares mais bizarros com uma valente chibatada nos olhos.

O vidro moído nos sapatos não era tão cruel como possa parecer porque era apenas por alguns quilómetros até chegar à piscina municipal, onde os caloiros teriam de tirar os sapatos e toda a roupa, sendo atados de pés e mãos e atirados para dentro de água como forma de testar a sua capacidade de resistência aos duros exames que os esperavam. Claro que ninguém corria risco de afogamento porque eram retirados da piscina logo que começassem a ficar roxos e parassem de se debater.

À noite, fazia-se o grande banquete académico em que os veteranos eram alimentados à mão por caloiros dedicados. Para a sobremesa, as caloiras mais vistosas eram levadas para uma arrecadação onde eram violadas de forma ritual pelos seus colegas mais adiantados no curso para se irem habituando e percebendo que os tempos de recato colegial já tinham passado. Os outros eram obrigados a pegar na Eneida de Virgílio e passar todos os verbos que estivessem no presente para o futuro e vice-versa. Quem não fosse capaz, teria de comer o tradicional empadão de moscas.
E tenho muita pena de estas coisas já não se fazerem. É tão bonita a tradição.


A brasa e a sardinha Setembro de 2005

Ponham-se na pele de um incendiário. Estão em casa a encher garrafões de Água do Luso com gasolina e a puxar o lustro aos very-lights, muito enfadados por não terem encomendas de empreiteiros, autarcas, comandantes de bombeiros ou proprietários de "meios aéreos" (criaturas bizarras aparentadas com o avião). Então, decidem atear umas labaredas por iniciativa própria só para entreter e para não perder o jeito. Mas antes é preciso escolher o local que, por uma conjugação de vários factores (tipo de vegetação, falta de qualidade dos acessos, temperatura) dê garantias de um incêndio de categoria. E que fazem? Parece-me óbvio. Vão ver a previsão do risco de incêndio.

Porque é só aos incendiários que tal coisa interessa. Para o resto de nós (descontando os incendiários infiltrados entre os cidadãos de boa índole) o mapa garrido só serve para ficarmos a saber que, nos meses mais quentes do Verão, temos um país pintado de vermelho com ocasionais manchas alaranjadas, se tivermos sorte. E não fará grande diferença saber se o risco de incêndio para um determinado distrito será máximo, muito elevado ou elevado, pois não? Será que, sem figuras coloridas, não sabíamos já que, sobretudo em Julho e Agosto, todo o país é uma braseira em potência? Resolve alguma coisa? Não resolve. Quanto muito, facilita a vida a quem quiser dar ao fósforo, bastando-lhe olhar para o mapa para perceber onde as condições serão mais propícias.
Visto que a época de incêndios está praticamente encerrada, aproveito para deixar sugestões singelas a aplicar por quem de direito no próximo Verão.

Sugestão nº 1: Todos os distritos no mapa do risco de incêndio deviam ser pintados de verde. E a legenda da cor verde devia ser alterada de “risco de incêndio reduzido” para “risco de incêndio inexistente de tal forma que, quem tentar soltar fogos neste distrito será com certeza um valente palerma.” Em alternativa, e para escapar à monotonia cromática, poderia haver uma cor abaixo do verde. O azul, por exemplo, com a legenda: “risco de incêndio inexistente a não ser que seja ateado por paneleiros e cabrões.” É assim que se combatem os incendiários. Atingindo-os no orgulho.

Sugestão nº 2: Ocasionalmente, em dias de chuva torrencial (porque acredito que um dia voltaremos a tê-los), poder-se-ia voltar aos vermelhos e ao laranja. Assim, o incendiário consultaria o mapa, pegaria nas ferramentas do seu mester e pôr-se-ia a caminho. Até poderia olhar para o céu, abrir o guarda-chuva, calçar as galochas e achar que as moitas talvez não ardessem com um tempo daqueles mas isso seria altamente improvável porque, na sociedade em que vivemos, o que nos chega pela comunicação social sobrepõe-se sempre ao senso comum. Depois, era só alertar as forças policiais para procurarem indivíduos de impermeável a tentar acender fósforos em manchas florestais, ensopados dos pés à cabeça.

E ninguém diga que não faço a minha parte na protecção das florestas.

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