O engenheiro que não conseguia concluir
Dr.
Ilmo é engenheiro, formado em 1981 na USP. Carreira bem sucedida,
filhos no colégio Marista, esposa funcionária pública
— carimba folhas das 9 às 17hs —, casa grande com uma
senzalinha para a empregada, férias em Cabo Frio, Miami, tour pela
Europa: um típico sujeito bem sucedido. Dr. Ilmo tinha uma característica
muito peculiar: não conseguia concluir nenhuma frase. "Benzinho,
o que acha de ir ao supermercado e comprar umas... balançava a
cabeça afirmativamente, demorava mais alguns segundos e arrematava
...né?", ou: "filho, você precisa estudar porque
o estudo... né?" ou ainda: "Vamos pintar a casa de amarelo
porque... né?" "Dona Neide, ligue para meu sócio porque eu quero..." dizia. Em alguns segundos, a secretária retornava a ligação. "Veja bem, para este caso eu recomendo concreto armado porque... né? É melhor para... né?", explicava ao sócio, que aceitava prontamente suas determinações. Todos na empresa admiravam o Dr. Ilmo por causa de seu, espírito de liderança e prestígio entre figurões da sociedade. Certa ocasião, foi convidado para discursar, ao lado do presidente da república, em uma solenidade de inauguração de uma clínica de cirurgia plástica. Foi aplaudido de pé. Seus comentários foram publicados em todos os jornais, a TV filmou, etc. Analistas concordavam com entusiasmo diante a eloquente argumentação de Dr. Ilmo. Em uma ocasião, a empresa foi acusada de participar de licitação fraudulenta para a construção de 50.000 vasos sanitários em Comendador Gomes, MG. Instalou-se uma CPI no Senado, Dr. Ilmo foi convidado a depor. "Todos os papéis estão carimbados e protocolados, como mostra o... né? Eu não assinei nada que... né? Sempre fui muito honesto nos meus... eu nunca... né? Foi a secretária que... né?" Os senadores se convenceram da inocência de Dr. Ilmo e atribuíram à Dona Neide, chefe de uma quadrilha especializada em fraudes em licitações, a responsabilidade intelectual do crime. Dr. Ilmo
ainda colecionava outra característica peculiar: em uma conversa,
nunca ouvia o interlocutor. Falava, calava-se durante a intervenção
do interlocutor e, não importando o que este havia dito, Dr. Ilmo
continuava no mesmo ponto em que estava. Ele só era capaz de entender
o que já sabia. Tinha horror a novidades. Por isso se recusava,
inconscientemente, a ouvir o que quer que fosse dos outros. Neste ano, Dr. Ilmo pretende escrever um livro de auto-ajuda empresarial. "Percebo que os jovens empresários estão carentes de... né?" Um sucesso, o Dr. Ilmo, que não conseguia concluir. André Azevedo, correspondente da Inépcia em Uberaba, Itaguararica, Guaraceratarajuba e Viana do Castelo é autor do fanzine Vira-Lata, homem de letras conceituado do país irmão, campeão de ciclismo do estado de Minas Gerais e autor da lista telefónica geral de Belo Horizonte. |