E-zine satírico sem corantes nem conservantes

Tradições bonitas do nosso Portugal

O factor C

Há uma coisa de que nos poderemos sempre orgulhar. Já cá andamos há muito tempo, vivemos num dos países mais veteranos da Europa e, como não poderia deixar de ser, fomos dotados pela história de um leque vastíssimo de tradições e costumes que fazem dos portugueses o que são e contribuem para tornar únicos os habitantes deste cantinho à beira-mar prantado.

Com tamanha riqueza de costumes, é difícil escolher um como tema e podia escrever sobre, por exemplo, a arte de cuspir para o chão, o talento inato para improvisar casas-de-banho em qualquer lado ou aquele jeito tão nosso, tão português para nos enfiarmos pelo mar dentro, enfrentando o desconhecido com o objectivo nobre de dar novos mundos ao mundo ou de contribuir para o enriquecimento da taxa de afogamentos nas praias durante o Verão (dependendo da época histórica em análise).

 

Mas não o vou fazer.

Porque não me apetece.

E não vale a pena insistirem. Não me apetece e pronto!

Em vez disso, vou falar de outra tradição legitimamente lusitana.

E começo por me dirigir aos mais novos.

Jovem, acabaste agora o curso de gestão de empresas que os teus pais queriam que tirasses com a condição de te pagarem depois um curso de teatro, que sempre foi a tua vocação. Preparas-te para enfrentar o mercado de trabalho. Sabes que será difícil. O país é pequeno. As mentalidades também. Vais ter de penar para conseguir uma posição à altura das tuas capacidades. Vais ter de morder o fel da rejeição laboral. Vais ter de te submeter a entrevistas de emprego humilhantes e a testes psicotécnicos absurdos. Vai ser mau. Vai doer. Mas tens de passar por isso.

Ou não.

Lembras-te do pai daquele colega de escola que toda a gente gozava porque tinha orelhas de abano e com quem tu nunca gozaste (pelo menos, não à frente dele)? Sim, o tal que era director daquela empresa. Por que não ligar ao teu bom amigo Dumbo e cobrar aqueles anos de amizade devota que lhe dedicaste com grande perigo para a tua reputação académica? Isso mesmo. Lembra-lhe o que sofria, os momentos passados a chorar pelos cantos da escola. Lembra-lhe como tu eras o único que o avisava que tinha passado o dia todo com um papel a dizer “O ORELHAS É UM CAMELO” colado nas costas. Claro está que só o fazias no fim do dia mas o que conta é que te preocupavas com o bem-estar dele.
E ele bem podia preocupar-se com o teu agora.

Sugere-lhe que dê uma palavrinha ao papá (o Dumbo Sénior) e lhe diga que conhece a pessoa ideal para aquela posição lá na empresa que vagou recentemente por causa daquele escândalo com as secretárias ucranianas e a lata de papaias em calda na arrecadação dos toners de fotocopiadora. Não há nenhuma posição vaga na empresa? Azar! Tu também tiveste de arranjar espaço no horário escolar, entre aulas, namoricos atrás do pavilhão e jogos de futebol de cinco, para segurar a auto-estima do Orelhas e impedi-la de rastejar pelo chão.

O que foi? Não conheces ninguém com familiares importantes e o bombo da festa da escola eras tu? E a pessoa mais importante que consegues arranjar na tua própria família é o tio Ernesto que foi sargento dos pára-quedistas e agora vive da reforma devida por ter um estilhaço de moçambicano alojado no abdómen?
Nada temas. É para pensar em alternativas que eu aqui estou.

Quem não tem cão, caça com gato (momento de sabedoria popular). E quem nem sequer tem gato, terá de caçar com o sucedâneo mais à mão. Sei lá... um coelho com garras aguçadas ou um peixinho dourado com vocação para perdigueiro.

Se não tiveste a sorte de nascer com “contactos” ou se as circunstâncias da vida não te fizeram adquiri-los, não está nada perdido. A amizade não é só uma coisa muito bonita. Também é útil. E toda a gente gosta de ter amigos (que nunca são demais). Por isso, ninguém se importará de ter mais um amigo, mesmo que esse amigo seja uma pessoa dotada de espírito visionário e consciente das vantagens que poderão advir da amizade certa na altura certa.

Imaginemos que anseias por uma carreira de sucesso como serralheiro. Tiraste um curso num centro de formação muito bom (desististe a meio mas foi como se o tivesses acabado), sabes perfeitamente que não és o serralheiro mais dotado do mundo mas, que raio, também tens direito à vida! Vai daí, começas a frequentar aquele certo e determinado bar onde sabes que a nata da serralharia passa as noites para descomprimir das serras... e brocas... e... o que quer que os serralheiros usem como
instrumentos de trabalho.

Se souberes jogar os teus trunfos, se souberes aplicar o charme que sabes que tens, se te conseguires integrar nas conversas certas, bajular as pessoas apropriadas, conseguir que te apresentem a certos e determinados indivíduos bem colocados, tens a carreira lançada.

É que nem precisas de te esforçar. Com amigos no sítio certo (nem é preciso serem muitos, basta um, desde que tenha uma rede de contactos vasta), tens biscates garantidos para o resto da vida. E nem precisas de saber distinguir entre uma fechadura de pistões e um cadeado de torniquete. Aliás, não precisas de saber nada de nada. A amizade é bonita a esse ponto. Só tens de te assegurar que a amizade que te levou onde estás nunca será rompida e que, se tiver mesmo de ser, que o seja por ti e para ser substituída por uma amizade mais proveitosa. A nobreza de sentimentos é uma das maiores qualidades que o ser humano pode ter.

O que foi agora? Não consegues fazer amigos? És um anti-social? Já estás a dificultar muito as coisas. Mas podes parar de choramingar como uma menina (a não ser que sejas mesmo uma menina, nesse caso podes continuar mas também não exageres).

Se não tens familiares (mesmo que não sejam teus) ou amigos em posição de te dar uma ajudinha, ainda tens uma hipótese. Para alguns, poderá ser um assunto delicado mas vou tentar explicar o melhor que sei e posso e espero não ofender ninguém.

Conheces alguém, por exemplo, aquela vizinha muito estúpida mas bem apessoada, que ocupe uma posição de relevo sem ter algo que se aproxime, ainda que minimamente, de competência? Nunca pensaste que era estranho alguém com estas condições ter uma posição daquelas? E nunca te recriminaste por teres pensado, numa vez ou noutra, que a explicação mais provável para um fenómeno tão estranho talvez fosse que a tua vizinha não tivesse grande pudor em trocar “jeitinhos” profissionais por “jeitinhos” de índole mais brejeira? Pois. Acredito que sim. Quem não teria feito o mesmo em circunstâncias iguais?

Mas chega de recriminações. Até porque o mais provável é que não haja motivo para remorsos. Se uma determinada pessoa parece não ter quaisquer competências para determinado cargo e, mesmo assim, o ocupa, sem ter um familiar ou amigo que possa por isso ser responsável, o mais provável é que tenha mesmo dado o corpo ao manifesto.
E tu também o podes fazer. Sem vergonhas. Sem remorsos. Afinal, roubar é pecado mas ninguém nos pode censurar por darmos o que é nosso, pois não? Mesmo que seja para obter esta ou aquela compensação.

Afinal, não é assim tão pouco habitual. E é uma prática bastante comum mesmo nas esferas mais elevadas. Por exemplo, na política ou nas artes onde este tipo de transacção é tão frequente que chega quase a ser procedimento oficial.
Basta ligar a televisão para ter exemplos frequentes. Nunca reparaste numa ou outra jovem apresentadora pouco arejada de ideias mas com um palminho de cara e mais palmo e meio de corpo que, de vez em quando, parece ter alguma dificuldade em sentar-se para fazer uma entrevista ao Roberto Leal que nos visita para apresentar o novo disco e dizer que nos tem no coração e que não leva a mal o que gozamos com a cara dele porque somos todos irmãos? Lá está. Ou se não é a dificuldade em sentar-se, terá decerto queimaduras provocadas pela fricção da alcatifa nos joelhos ou um fac-símile perfeito do tampo da secretária do patrão nas costas.

Mas não se pense que este tipo de prática apenas beneficia as carreiras profissionais de membros do “belo sexo.” Há alguns anos atrás, talvez fosse assim até porque eram os homens que ocupavam todos ou quase todos os cargos de relevo, mas as coisas têm mudado de forma gradual, abrindo uma série de novos horizontes de facilitismo carreirista sexual ao sexo masculino.

E pronto, jovem. Agora que sabes como as coisas se fazem, é só aplicares os princípios teóricos que aqui expus. E se o souberes fazer e conseguires, à custa deles, chegar ao topo, lembra-te de mim e poderás ser tu a fazer-me um jeitinho. Temos de ser uns para os outros, não é?

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