Inépcia: s.f. (do latim "ineptia") 1-Falta de aptidão ou habilidade. 2-Imbecilidade 3-Acto ou dito absurdo.
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Intelectual admite não ter percebido exposição

“Não percebi.” Nunca duas palavras provocaram tanta polémica em Portugal. Pelo menos, desde que em 1984, um deputado do CDS particularmente guloso que se deliciava com doces de uma marca brasileira muito popular na altura, a “Xu-Par,” se virou para um colega de bancada em plena sessão parlamentar e perguntou “Queres Xu-Par?” Desta vez, o motivo por trás da polémica é menos inocente e também menos calórico.

Eurico Vasques, 34 anos, estudante de Belas Artes no Porto há seis anos desde que trocou o curso de engenharia agrária pela sua vocação artística. “Saber de cor quantos tipos diferentes de estrume existem já não me satisfazia. Precisava de alguma coisa mais para me sentir realizado,” refere, “Foi então que percebi que me tinha tornado um intelectual.” De imediato, Eurico abandonou o estudo das técnicas agrícolas e esforçou-se para se tornar um intelectual de corpo e alma. Começou a ler livros em francês em público, guardando o dicionário ilustrado para usar apenas quando ninguém estivesse a ver e consciente de que, nos livros, o significado é o que interessa menos. Trocou as lentes de contacto por uns impressionantes óculos de massa, abandonou a namorada, uma atraente estudante de gestão, trocando-a por uma artista conceptual com tendências suicidas e que, entretanto, já passou por uma fase lésbica, por uma fase de castidade religiosa contemplativa, encontrando-se actualmente na fase “ninguém me compreende” que é vista como um dos estados mais adiantados da evolução do Homo sapiens para o Homo intelectualis.

A vida corria-lhe bem, entre as aulas de Belas Artes, as exposições dos seus trabalhos de escultura minimalista em sabão azul e branco e sapatos velhos e as idas a eventos culturais enriquecedores.
Tudo se desmoronou numa tarde fria de Novembro. Eurico e os amigos deslocaram-se a uma galeria para ver a última exposição de F., um dos mais extraordinários e inovadores artistas portugueses contemporâneos, que se tornou célebre quando levou a sua exposição de presépios de dejectos humanos a galerias de toda a Europa onde conheceram grande aceitação até o autor ter de bater em retirada quando os proprietários das galerias, gente sem visão artística, chamavam a polícia. A nova exposição era tão genial e inovadora como a anterior. Paredes e paredes completamente vazias, sem nada exposto, num grito silencioso contra o mutismo eterno das paisagens emocionais próprias de cada artista. Os amigos deliraram, mas Eurico parecia algo incomodado. Depois da galeria, dirigiram-se a um cinema ali próximo onde estava em exibição o último filme de um conceituado realizador experimental finlandês e, durante as 5 horas e meia de duração da obra, a inquietação de Eurico não cessou de aumentar. À saída não se conteve e os amigos, que comentavam o paralelismo entre o filme que tinham acabado de ver e a estética porno-teocrática dos murais sumérios, ficaram boquiabertos quando disse “Aquela exposição que nós vimos.... não percebi.”

Foi o caos. Assustados e sem compreender, os amigos fugiram dele em pânico. Eurico ficou sozinho sem perceber a dimensão do que tinha acabado de fazer. Em poucos dias, todos os amigos o tinham abandonado. Da namorada não sabe nada, porque fugiu para Marrocos com um vendedor de tapetes para, segundo a própria, “ajudar a esbater o abismo entre o Ocidente e o mundo islâmico.”

Al Fredo, músico ou “fotógrafo de sons” como prefere ser chamado, e um dos melhores amigos de Eurico até ao incidente, tenta explicar o sucedido. “Não esperávamos que o Eurico fosse capaz de uma coisa destas,” refere, ajeitando o cachimbo, “Dizer que não percebeu é o tipo de afirmação inconsequente e sem qualquer respeito pela natureza da arte e da própria cultura que um intelectual que se preze nunca pode pronunciar. É o mesmo que ter uma prostituta a recusar servir um cliente por nem sequer lhe conhecer os pais. É absurdo.”

Mas Eurico insiste. “É que não percebi mesmo! Fartei-me de tentar interpretar aquilo mas são só paredes vazias. Não há nada para interpretar,” refere. A estas palavras, Cátia Loureiro, realizadora de cinema, intelectual assumida e ex-amiga, apenas responde que “não é este o Eurico que conheci e que ajudei na escolha do filme preferido do Bergman.”
Com a sua vida de intelectual em risco, Eurico tenta arranjar alternativas. Já pensou em deixar as Belas Artes e optar por uma carreira mais convencional no marketing. Recentemente, foi ao cinema ver um filme americano e até gostou.

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