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| E-zine satírico sem corantes nem conservantes | |||
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compilado por Sua Santidade, o Papa Pio XII e por Monsenhor Renato Carreira, Arcebispo de Bijagós Nota: Este texto foi escrito em 1998 e publicado originalmente num site chamado "Templo," do qual já não existem vestígios e que, até prova em contrário, foi o primeiro site português a publicar conteúdos humorísticos originais, ainda que a qualidade dos mesmos não fosse grande coisa. Ao longo dos anos, foi publicado sem autorização em vários pontos da internet e, quase sempre, sem indicar o autor. A dois anos da celebração do seu décimo aniversário, decidi desenterrá-lo do baú das recordações de uma adolescência bizarra e publicá-lo aqui. Foram feitos alguns retoques que o fazem diferir da versão original num ou outro pormenor. Fez-se o possível para corrigir os erros originais e para melhorar a linguagem do que, mesmo assim, continua a ser um exercício algo infantil (considerem-no "naif," se preferirem). Retirei também algumas referências que fariam sentido em 1998 mas agora já não fazem (sobretudo referências a personagens do universo "pimba" que então conhecia o seu apogeu e que hoje foram, felizmente, esquecidas). A presente edição do ‘Livro Sagrado’ resulta de um árduo e rigoroso trabalho de recolha de vários textos muitas vezes referidos, frequentemente imitados, mas nunca igualados. As suas origens são diversas. Vêm de vários pontos da Europa, do Médio Oriente, do Norte de África e até das Américas. Alguns são conhecidos há muito, outros são aqui publicados pela primeira vez. Independentemente das suas naturezas diversas, ou que poderão aparentar ser diversas aos olhos do observador menos informado, são o espelho de séculos de devoção religiosa, merecedores do mais profundo respeito até mesmo daqueles que se consideram ateus, agnósticos ou afins. Os responsáveis pela presente edição pretendem abrir uma porta nos espíritos menos crédulos à revelação das verdades divinas. GÉNESE Os dez livros que constituem a primeira parte desta compilação receberam o título genérico de “Génese”. Aparentemente, o nome foi pela primeira vez referido no séc. XI pelo monge responsável pelo trabalho original de reunião de textos, François Jaguenot de Tréves, que, no entanto, não incluía os dois últimos (“A provação de Bob” e “Leis”), o que deve ter gerado alguma confusão nos primeiros investigadores. O número 10 parece possuir algum carácter místico e é repetido noutros pontos do Livro (os dez mandamentos, por exemplo). De acordo com Francis McQuaid, o esoterismo do número estará relacionado com o comprimento da barba do primeiro sacerdote da cidade suméria de Uruk, Zalzibrabesh, que, de acordo com relatos da época, seria de 10 passos de gnu (vide “The number ten and the sexual orientations of the ancient mesopotamians”-McQuaid, Francis, Edimburgh, 1957). Em 1878, o arqueólogo Gerhard Krause descobriu o nono livro (“A provação de Bob”) numa escavação arqueológica a meio caminho entre Malinaltepec e Xochistlahuaca, no México oriental. O porquê da presença deste texto em tão remotas paragens permanece um mistério. A única teoria apresentada até agora foi a do inglês John Malcolm-Davies e propõe que o texto teria sido transportado por um bando de aves migratórias aparentadas com o abelharuco. A comunidade científica nunca levou Malcolm-Davies muito a sério desde o escândalo dos rebuçados de alçacuz. Já neste século, em 1905, um agricultor iraquiano de nome Ahmmed Ali Mubarak Sid-Muhammad encontrou o décimo texto (“Leis”) quando lavrava um terreno nas margens do Tigre para plantar girassol. Desconhecendo o real valor do seu achado, não hesitou em trocá-lo com um mercador local por dois quilos de feijão, uma enxada, duas foices e um tubérculo com forma vagamente obscena. O mercador levou os pergaminhos milenares até Beirute e vendeu-os por uma pequena fortuna ao astrónomo amador turco, Gecen Arif, que, imediatamente, trocou a sua paixão astronómica pela arqueologia e por uma escandalosa jaqueta de veludo púrpura com chinelos a condizer. Os três primeiros livros têm o mesmo autor, cujo nome se desconhece, apesar de, pelo estilo da escrita ser óbvio não se tratar nem de William Shakespeare, nem de Ernest Hemingway ou, muito menos, de Karl Marx, apesar de existirem autores que defendem a existência de uma semelhança relativa com o “Manifesto do Partido Comunista”. Estes três livros, escritos num estilo que faz deles um tríptico, são, por vezes, referidos como: “Os três livros”.
Depois de um repouso, Deus separou as águas da terra e reuniu-as em oceanos em redor da terra seca. E Deus viu que isto era bom. A seguir, Deus fez com que a terra produzisse toda a sorte de plantas e animais. No entanto, nem todas as Suas criações foram inteiramente bem sucedidas como, por exemplo, o aipo voador com carapaça, o aipo voador sem carapaça, o esquilo insuflável, o peixe vibrador, a lesma gigante carnívora, o morcego de muletas, o autoclismo de bolso, o funcionário público apressado e muitos outros. Para reinar sobre todas as criaturas da Terra, Deus criou o homem, mas não na primeira tentativa, nem na segunda. Primeiro, Deus criou o poste de alta tensão. A seguir, a gaita-de-beiços e, só à terceira tentativa, o homem. Para fazer companhia ao homem, Deus criou outro homem, mas como já tinha gasto muita matéria-prima na criação do poste de alta tensão e da gaita de beiços, o novo homem ficou com uma peça a menos e o revestimento piloso não chegou para o corpo todo. Deus logo encontrou uma solução. Revestiu o novo homem de uma série de protuberâncias curvilíneas e esperou que ninguém reparasse. A esta nova criatura, chamou Deus "Pauliteiro de Miranda" mas, por achar que o nome não era adequado, rebaptizou-a como "mulher". Deus colocou a mulher junto do homem. Pouco tempo depois, Deus afastou a mulher do homem pois estes não paravam de "testar o equipamento". Deus decidiu então que a mulher não poderia pensar do mesmo modo que o homem porque passariam o resto das suas vidas "naquilo". Depois de umas alterações, Deus voltou a colocar a mulher junto do homem. A maneira de pensar do homem não foi alterada e este logo começou a perseguir a sua companheira por toda a Terra. Deus reflectiu e viu que aquilo não estava bem. Retirou algumas folhas de uma árvore e cobriu os corpos do homem e da mulher com elas. Isto acalmou um pouco as coisas. Ao homem chamou Deus João e à mulher Elsa. Deus contemplou a sua criação e alegrou-se. Apesar dos Seus melhores esforços, João e Elsa não paravam com “aquilo”. Pouco tempo depois, houve um escândalo sexual de grandes proporções no Paraíso envolvendo João, Elsa, uma serpente e uma peça de fruta. Deus ficou tão envergonhado que acabou por expulsar João e Elsa do Jardim do Éden e por amputar as pernas à serpente que, em verdade se diga, só lhe dificultavam o movimento.
Segundo esta nova terminologia, João f*deu Elsa por duas vezes, tendo-lhe nascido dois filhos a que chamaram Joaquim e Manuel. João f*deu Elsa uma outra vez, tendo nascido um terceiro filho a que chamaram Oit. Após isto, Deus achou por bem que as restantes vezes que João f*desse com Elsa não ficassem registadas, pois tal ocuparia muito espaço e violaria a intimidade do casal. Os filhos de João e Elsa casariam, por sua vez, e teriam filhos das suas mulheres. Percebendo que, no mundo, só existiam João, Elsa e os seus três filhos e que a origem das esposas de Joaquim, Manuel e Oit não eram suficientemente claras, Deus criou a incoerência para lidar com este problema. Joaquim
era lavrador e Manuel era pastor e ambos deviam prestar tributo ao Criador
de seus pais com a oferta do melhor das suas produções.
Oit era cantor lírico e foi dispensado de prestar tal tributo. Joaquim não gostava desta situação e, um dia, convidou Manuel para ir ao monte dizendo-lhe “Vem comigo ao monte para ver se este machado é tão afiado como parece”. Manuel foi e assim nasceu a ingenuidade. Ao chegarem ao monte, Joaquim lançou-se sobre Manuel e matou-o. Deus estava a ver e disse-lhe “Mataste o teu irmão, Joaquim?” ao que Joaquim respondeu “Não, Senhor”. Então Deus questionou Joaquim. “Se não o mataste, o que faz o seu cadáver a teu lado com teu machado cravado em sua testa?” ao que Joaquim replicou “Aquilo não é o cadáver de meu irmão, Senhor, mas um arbusto que a ele se assemelha”. Ao ouvir isto Deus achou por bem melhorar a capacidade do Homem para mentir pois, daquele modo, não iria muito longe.
Este livro que, durante muito tempo, foi erroneamente chamado: “O bote de José” devido a uma tradição deficiente do original aramaico “adesh bil-barga geneth manuah” relata o grande dilúvio que se abateu sobre a Ásia menor num período indeterminado mas que coincidirá com o reinado de Nabucodonosor IV. Não há provas científicas de que tal acontecimento tenha sido real, mas climatologistas conceituados acreditam que, por volta deste mesmo período, o tempo não estava bom para ir à praia.
Livro que relata a vida do patriarca Agriãao e que, hoje em dia, hermeneutas experientes consideram ter sido escrito sob o efeito de alucinógenios.
O único problema de Agriãao era que não podia ter filhos, pois a sua legítima esposa, Tara era ésteril, o que a ambos trazia grande amargura. O senhor quis recompensar Agriãao, por ser tão bom, e providenciou que tivesse um filho, o que muito lhe agradou. Passados os meses que a natureza determinou para estas coisas da reprodução, a mulher de Agriãao deu à luz um bonito rapaz a que chamaram Iraac, apesar de ter havido uma certa hesitação entre este nome e Carlos Paulo. Alguns meses após o nascimento de Iraac, o Senhor anunciou a Agriãao que a sua mulher iria conceber outro filho. Agriãao, mais uma vez ficou muito contente com a nova e Tara acompanhou-o na alegria. Só que, desta vez, não era a sério. Por esta altura, o Senhor havia desenvolvido um sentido de humor particularmente retorcido e tudo não passava de uma brincadeira. Agriãao partiu assim na peregrinação que o Senhor lhe havia ordenado e fixou-se na cidade de Acetoma, uma cidade rica e próspera, vizinha da igualmente poderosa cidade de Modorra. Em toda a antiguidade, não havia povo que melhor se soubesse divertir do que os habitantes de Acetoma e Modorra. As suas festas eram lendárias e atraíam pessoas vindas de muito longe. Isto irritava particularmente o Senhor, não por considerar que as festas eram pecaminosas, nada disso, mas, muito simplesmente, porque os organizadores das festas, bailes de máscaras, banquetes, orgias e afins nunca o convidavam, pois nunca pensaram que Deus Todo-Poderoso tivesse inclinação para este tipo de divertimento mundano. O Senhor estava a ficar roxo de inveja e, por isso, decidiu destruir as duas cidades e todos os seus folgazões habitantes. Antes disso, chamou até si Agriãao, que resolvera poupar por pena, já que este era um homenzinho particularmente monótono, e disse-lhe: “Agriãao. Deixa a cidade de Acetoma com os teus, pois tomei a decisão de a destruir e a todos os seus habitantes. Destruirei também a cidade de Modorra pelo fogo, pelo enxofre e por outras coisas pouco agradáveis porque não me caiu bem a vida de libertinagem e pecado que as pessoas lá levam”. Como é óbvio, Deus não ia dizer a Agriãao o verdadeiro motivo da sua atitude. Agriãao respondeu: “Mas, Senhor, eu sou apenas um servo, um reles mortal, um verme, um monte de pó...,” “Anda lá com isso,” disse o Senhor, pois tinha uma agenda muito ocupada. Agriãao prosseguiu: “Enfim, eu não sou ninguém, mas não quererás reconsiderar esse teu gesto? Pensa nos justos que partilham o espaço com os pecadores.” O Senhor replicou: “Se lá encontrares 50 justos, não destruirei as cidades.” “Então e se forem só 45?” tornou Agriãao. “Idem,” disse o Senhor. “E que tal 40?” inquiriu Agriãao. “Muito bem,” condescendeu o Senhor. “30?” regateou Agriãao. “Claro,” aceitou o Senhor. No entanto, Deus pensou, por momentos, e viu que o negócio não lhe era muito favorável. “Vamos fazer antes assim,” disse, “em vez de 30 justos, para que não lance a minha fúria sobre as cidades de Acetoma e Modorra, basta que encontres 15 malabaristas ventríloquos que saibam cantar com voz de falsete e imitar o canto de acasalamento do alce e 2 pinguins.” Agriãao voltou para casa e procurou desesperadamente aquilo que o Senhor lhe havia indicado, mas sem sucesso, o que não surpreendeu já que o malabarismo ainda não tinha sido inventado, não havia alces naquelas paragens e muito menos pinguins. Então, o senhor advertiu Agriãao de que era chegada a hora de abandonar a cidade, o que este fez sem hesitar, levando consigo a sua família, um seu sobrinho de nome Pot e a mulher. Pot deixou a cidade depois de Agrãao e só o alcançou mais tarde. Como vinha sozinho, Agriãao perguntou-lhe o que tinha acontecido à esposa. Pot respondeu que a coitada não tinha resistido a olhar para trás quando fugiam e foi transformada numa estátua de sal. A verdade é que a mulher de Pot era particularmente chata e a razão do atraso de Pot foi ter estado a fechá-la na despensa. O Senhor sempre soube a verdade mas perdoou Pot pois até aos olhos de Deus a Sra. Pot parecia insuportável. Tendo ficado muito tempo sem falar com Agriãao, o Senhor voltou a chamá-lo e disse-lhe: “Vai buscar o teu filho Iraac e sacrifica-o em minha honra.” “A sério?” quis saber Agriãao. “A sério,” respondeu o Senhor, tentando conter uma gargalhada. Agriãao apressou-se a ir a casa buscar o seu filho e a colocá-lo num altar onde seria sacrificado. Iraac, como era uma criança um pouco apática, nem sequer resistiu. Quando Agriãao já erguia o punhal, a voz de Deus ouviu-se. “Mas que estás tu a fazer?”, perguntou. “Faço o que me ordenastes, Senhor, sacrifico o meu filho Iraac,” respondeu Agriãao. “Mas tu não és capaz de perceber uma piada?” disse o Todo-Poderoso, “sacrifica antes esse cordeiro que está aí atrás de ti.” “De certeza?” perguntou Agriãao. “SIM,” gritou o Senhor e, a partir daí, desistiu de partilhar o seu sentido de humor com Agriãao, pois com gente chata não há brincadeira que aguente. “O êxodo”, uma narrativa da libertação do povo erveu do jugo egípcio é dos poucos textos do Livro Sagrado de autor conhecido. A autoria deste livro poderá ser atribuída, sem qualquer tipo de dúvida, ao grande ensaísta, dramaturgo e poeta hitita, Raman-Kash de Til Barsip, autor, entre outras obras marcantes, do poema épico “A Epopeia de Tarnabril, o Onanista” e de vários episódios da telenovela venezuelana “Corazón Latino-La Vida de una Rubia”.
O rei tinha dois filhos. A um, o mais velho, chamou Ruben Eduardo Michel, pois o bom gosto só seria inventado no século seguinte. Ao mais novo, que tinha sido encontrado pela mulher do faraó a boiar no Nilo num cesto de vime e que era, na realidade, um dos erveus, chamou Mousés. Quando
o velho rei morreu, o seu primogénito subiu ao trono e passou
a governar o Egipto como o seu pai havia feito. Um dia, quando Mousés apascentava o gado de seu sogro, viu um arbusto que parecia arder sem se consumir. Era Deus que se revelava e comandava a Mousés que fosse junto do faraó pedir-lhe que libertasse o seu povo. Mousés assim fez. Infelizmente, o espírito de Deus abandonou o arbusto sem apagar o fogo e este consumiu na totalidade as vastas florestas do Egipto, transformando-o num deserto. Assim criou Deus o incêndio florestal. Mousés
foi ter com o faraó e transmitiu-lhe a mensagem de Deus. Como
prova da verdade das suas palavras, lançou a sua vara ao chão
e esta trasformou-se numa serpente. Pouco impressionado, o faraó
mandou chamar o mago da corte que fez desaparecer a serpente, levitou
por cima do Grand Canyon, atravessou a grande muralha da China, fez
desaparecer um avião e casou com uma top model alemã.
Mousés retirou-se envergonhado. A
primeira praga foi a transformação das águas do
Nilo em sangue. Isto só veio melhorar a culinária egípcia
pois a canja que faziam com a água do seu rio adquiriu um melhor
paladar. Assim foi criado o frango de cabidela. Como sétima praga, Deus lançou sobre o Egipto, dezenas de gigantescas pirâmides de pedra que esmagariam os incautos. Para gáudio do faraó, ninguém foi atingido pelas pirâmides e os egípcios cedo aprenderam a usar as pirâmides em seu proveito para atrair turistas. Por
esta altura, Deus começava a ficar desesperado pois nada do que
fazia parecia convencer o faraó a deixar partir os erveus. Mas
os egípcios, incluindo o faraó, estavam mergulhados numa
epidemia de riso histérico incontrolável ao verem o resultado
das pragas que o Deus dos erveus lançava sobre si e pouco podiam
fazer para os impedir. -Não
perseguirás o carteiro como um cão raivoso. Ao descer do monte, Mousés escorregou e deixou cair as tábuas que se estilhaçaram. Mousés voltou a subir e explicou a situação a Deus que providenciou outras mas não com o mesmo conteúdo pois a Sua memória não andava muito boa. No sopé, Mousés viu que os erveus, na sua ausência, tinham esculpido um enorme pónei de ouro e que o rodeavam, prestando-lhe culto através de práticas absolutamente bárbaras e incivilizadas, colocando-se de joelhos ante o ídolo, erguendo os braços para o céu, repetindo frases estranhas e sem sentido e rastejando pelo chão de um modo nada respeitador da sua integridade física. Mousés, chocado pelo comportamento dos seus seguidores, exaltou-se e lançou o pónei dourado ao chão, gritando: “O que haveis feito, povo insensato? Não vedes que não precisais de vos envolver em tais práticas de bajulação irracional? Se quereis rastejar, fazei-lo em adoração do Deus que está no cimo deste monte.” Os
erveus logo se recompuseram da perda do seu ídolo e puseram-se
a rastejar ao mesmo tempo que arrancavam os cabelos e batiam com a cabeça
no chão, o que muito agradou aos olhos de Deus que tudo observava
do alto. Relato de autor desconhecido dos feitos dos primeiros monarcas erveus, Davi e Barrosão. Os críticos literários da época foram unânimes em considerar este livro “um traste insípido sem revelar sequer uma partícula de talento e que mais parece saído da mente de uma criança de 3 anos”.
Um dos primeiros soberanos dos erveus chamou-se Davi e ascendeu ao trono por ter realizado um feito admirável enquanto jovem que salvou a terra de Asrael de uma invasão estrangeira. Quando era apenas um pobre pastor, Davi enfrentou e derrotou o campeão do povo invasor a que chamavam coliseus. Este chamava-se Tobias e era o melhor soldado de todo o exército coliseu. Uma tarde, Davi aproximou-se de Tobias quando este praticava o costume a que os coliseus chamavam “sesta” e deixou-lhe cair um enorme pedregulho na cabeça que imediatamente lhe ceifou a vida. Receoso de que a História não registasse condignamente o seu feito como algo glorioso, Davi deu-lhe algum retoques. Assim convenceu Davi os erveus de que tinha derrotado Tobias, que descrevia como um gigante grande como uma montanha, utilizando apenas a sua funda e uma pequena pedra. Os erveus ficaram imensamente agradecidos a Davi e logo o aclamaram como seu rei. A Davi, sucedeu o grande rei Barrosão. Barrosão era um homem dotado de um grande sentido de justiça que se tornou lendário. Um dia, levaram até diante do rei duas mulheres que reclamavam serem mães da mesma criança. Após questionar as duas mulheres, o sábio rei ordenou que cortassem a criança em duas partes iguais que seriam entregues às duas mulheres. Uma das mulheres não se mostrou muito preocupada enquanto que a outra começou a implorar que não maltratassem a criança, preferindo entregá-la à custódia da primeira. Com isto se descobriu quem era afinal a verdadeira mãe. Satisfeito, o rei mandou que castigassem a falsa mãe e que entregassem à verdadeira o seu filho. Infelizmente, os servos de Barrosão eram muito zelosos e já tinham executado a ordem anterior, cortando a criança de alto a baixo com uma grande espada. Apesar disso, não se pouparam a esforços para voltar a unir as duas metades. Barrosão
era também famoso pela sua grande voracidade sexual. No início,
Barrosão tomou como amante a rainha de Sabá que se encontrava
de visita a Asrael. Quando a rainha partiu, o rei foi buscar a paragens
longínquas as suas futuras companheiras. Uma veio da Rússia,
três da Hungria, uma da Polónia, cinco do Brasil, quatro
da Tailândia e uma do nordeste trasmontano. Para além destas
concubinas, o rei também tomou sob sua guarda dois transformistas
holandeses e um sueco e um massagista cabo-verdiano a quem chamavam
Nilton. De entre as muitas obras que o rei Barrosão deixou, a de maior importância foi o grande templo de Jerusalém de que apenas foi construída uma das paredes pois o rei gastara a maior parte dos fundos com as suas concubinas. No entanto, usando de sua infinita sabedoria, Barrosão conseguiu convencer o mundo de que o templo havia sido destruído pelo exército de um país vizinho. O livro de Damião e Camila, inicialmente, deveria ser publicado como folhetim num semanário fenício de Tiro. Quando, por considerar que os critérios jornalísticos adoptados pelos jornalistas e direcção eram algo dúbios, a administração encerrou o jornal, o autor de “Damião e Camila” resolveu proceder a algumas alterações e transformar o seu trabalho num texto sagrado.
A mulher foi para casa e relatou o sucedido ao marido que ficou muito contente, não só por a sua mulher estar grávida de alguém que não era ele, mas porque sempre desejara ter filhos. Deus ficou maravilhado com a credulidade do marido perante a gravidez repentina da mulher e pensou repetir a brincadeira mais tarde para ver se o resultado seria o mesmo. Quando
a criança nasceu, puseram-lhe o nome de Damião, como era
da vontade de Deus. Um dia, passeava Damião pelas ruas da sua cidade, quando viu um leão feroz que tinha escapado de um jardim zoológico próximo e que aterrorizava a população. Damião aproximou-se do leão e, após um breve confronto, matou-o, fazendo uso do maxilar que tinha arrancado a um pobre burro que pastava por perto. A
população ficou-lhe imensamente agradecida mas os coliseus
da Associação de Defesa dos Animais não acharam
muita piada e logo se lançaram em perseguição de
Damião para o castigarem. Com
os seus encantos, Camila convenceu Damião a sentar-se na sua
cadeira para que descansasse um pouco. Damião assim fez e, pouco
tempo depois, tinha adormecido. Os
perseguidores de Damião encontraram-no e entraram pelo salão
de Camila adentro. Damião tentou escapar mas como estava cego,
não conseguiu e depressa se viu rodeado pelos coliseus que eram
tantos que já se amontoavam contra as paredes do salão
de Camila. Foi a respeito deste livro que o eminente filólogo albanês, Edmond Rraskerj, disse: “Vjihamet nu mir ‘Utartjha na Bobu’ kjuhet nedit salmar pönte gusherj. Pendalje zosh müka, vjahet kalmjre angüsh.”
Ananás argumentava que a devoção de Bob era proporcional às graças que Deus lhe concedia. Dizia ele que, no momento em que as coisas lhe começassem a correr mal, Bob não hesitaria em maldizer o nome do Senhor e em virar-se para o mal. Deus não concordou e propôs uma aposta. O destino de Bob ficaria entregue a Ananás. Se este renegasse o seu Deus, o Senhor forçaria os membros das ordens religiosas a usar apetrechos sadomasoquistas nas suas orações. Se nada acontecesse e a devoção de Bob permanecesse intacta, Ananás faria com que os músicos dos grupos de Heavy Metal se vestissem como anjinhos. Feita a aposta, Ananás lançou as suas piores maldições sobre Bob. Certo dia, estava Bob a jantar com a família, quando lhe entrou um servo quase sem fôlego pela sala de jantar adentro. “Senhor, venho informar-te de que aconteceu uma desgraça,” disse o servo. “O que aconteceu homem?” quis saber Bob. O servo explicou que, enquanto estava nos campos a pastar os rebanhos, os camelos começaram a estrebuchar e a salivar abundantemente da boca. Passado pouco tempo estavam mortos. Ao ver aquilo, as vacas ficaram com um brilho sanguinário nos olhos e lançaram-se sobre as ovelhas, devorando-as. Depois, as cabras começaram a inchar e explodiram. A explosão provocou um incêndio que em pouco tempo devastou todas as colheitas menos a de centeio. Logo a seguir, um mensageiro chegara com uma mensagem que dizia que o preço do centeio tinha baixado para menos de metade. Mal se calou, as terras abateram e foram engolidas por um buraco sem fundo. A seguir, o mensageiro deixou-se cair e morreu. Após ouvir as terríveis novas, Bob suspirou e disse: “Seja feita a vontade do Senhor. Pelo menos, ainda tenho a minha família”. No mesmo instante, sete dos seus filhos e a sua mulher caíram inanimados no chão e Bob viu que estavam mortos. O oitavo filho, o único sobrevivente foi subitamente transformado em bailarino profissional, o que para qualquer pai é um destino pior que a morte. Mas nem isto fez Bob abandonar a sua fé. “O Senhor deu, o Senhor tirou. Bendita seja a Sua palavra”, disse. Mal acabou de pronunciar estas palavras, a sua casa desabou-lhe sobre a cabeça. Felizmente, o material usado na construção não era de grande qualidade e não houve ferimentos de maior. Bob livrou-se dos escombros, rasgou as roupas e saiu para a rua completamente nu em sinal de luto. Foi multado por atentado ao pudor, pisou uma pedra pontiaguda que lhe feriu a planta do pé e uma abelha picou-o numa parte sensível da sua anatomia. Enquanto se contorcia com dores, um mercador que por ali passava vendeu-lhe uma colecção completa da Grande Enciclopédia das Espécies de Alface Silvestre da Mesopotâmia e enganou-se no troco. Ananás lançou então sobre o corpo de Bob uma lepra peçonhenta que, de imediato, lhe cobriu o corpo de chagas. A tudo isto, Bob resistiu com fé. Ananás fez, então, uso do seu último recurso e transformou Bob num dos funcionários que lêem os números em voz alta no Bingo. A isto Bob não pôde resistir e, de imediato, renunciou a Deus e jurou lealdade a Ananás que, prontamente, lhe restituiu toda a sua felicidade anterior. A aposta fora ganha por Ananás e Deus não teve outro remédio senão cumprir a promessa. Foi assim que, em todo o mundo, os membros das ordens religiosas começaram a usar apetrechos sadomasoquistas nas suas orações. Para ocultar o facto, o Senhor providenciou que os monges, frades e freiras passassem a viver em conventos e mosteiros, longe de olhares indiscretos. Livro que reúne as leis e usos dos povos que habitavam nas margens do deserto do Sinai por volta dos sécs. VI e V a.C. A tribo papua dos Mandlakhone ainda usa esta lista como código de conduta. Acerca da alimentação
Acerca da procriação “Não comerás a mulher do próximo, por mais vontade que tenhas. Não partilharás o teu leito com qualquer adolescente de corpo tenro, só porque casaste com um traste qualquer. Não coabitarás com a tua mulher mais do que nove vezes por semana, porque isso já começa a ser tara, apesar de dar um grande gozo. Não usarás fruta de qualquer espécie como brinquedo sexual porque as frutas são melhores em sumo.” Acerca da circuncisão “Selarás a tua aliança comigo com a tua própria carne. Cortarás o prepúcio dos teus filhos com mais de oito dias de idade para que sejam recebidos como Meus filhos e porque gosto de ver crianças a chorar. Quanto às meninas, ainda tenho de pensar num processo equivalente.” Acerca de assuntos vários “Não tolerarás que chicos espertos passem à tua frente nas filas, pois tal é uma chatice do raio. Vingarás as ofensas de que sejas alvo, besuntando quem te ofende com natas e chocolate líquido. Não usarás amêndoas porque isso seria crueldade a mais. Não praticarás o desporto conhecido como ciclismo, só porque gostas de depilar as pernas e não queres que as pessoas reparem. Não cuspirás para o chão, seu grandessíssimo porco! Não olharás para mulheres desconhecidas na rua enquanto gritas impropérios como: ‘Boazona!’ e ‘Oh, grossa!’ ou ainda: ‘Anda cá ao pai se queres ver o que é bom’. Contarás o mínimo de anedotas possível, seleccionando apenas as que têm alguma qualidade, pois a maior parte já começa a enjoar. Guardarás o Domingo para ires ao supermercado ou para ficares em casa a vegetar enquanto vês televisão. Esforçar-te-ás por não ser uma pessoa séria em demasia, porque ninguém gosta de chatos.” EVANGELHO Os livros que constituem este evangelho são da autoria dos quatro evangelistas, Marcos, Lucas, Mateus e João, antes de cada um ter seguido a sua carreira a solo. O mérito desta obra merece ainda mais atenção por se tratar de um trabalho conjunto dificultado por uma série de factores: a situação política da época (por volta do ano 73 a.C.), os problemas económicos dos autores (com a excepção de Mateus, que tinha recebido uma herança de um tio, pouco tempo antes), a saúde precária da madrasta de Lucas e, principalmente, o facto de João ter vivido aproximadamente cem anos depois dos outros três.
Foi por isto que os erveus começaram a implorar a Deus por ajuda. Este, do alto de Sua magnificência, tentou não ligar às súplicas que vinham da Terra mas os erveus foram tão persistentes que o Senhor resolveu enviar-lhes um subalterno. Só assim, poderia dedicar-se à sua última criação: um planeta inteiro povoado exclusivamente por mulheres de seios volumosos. Assim,
o subalterno de Deus, um anjo, desceu até à cidade de
Belão onde vivia uma jovem mulher de nome Faria que desposara
um carpinteiro de nome Tomé mas que ainda não o “conhecera”.
Por esta altura, já Deus havia criado o pudor literário
que impedia referências explícitas ao acto sexual. “Não, espera,” disse-lhe o anjo, “pois eu fui enviado pelo Senhor teu Deus.” “Pois, pois,” respondeu Faria que conhecia os perigos que podiam advir da contradição dos loucos. O anjo tornou a falar. “Venho anunciar-te que irás conceber um filho...”. Ao ouvir estas palavras, Faria assustou-se e apressou o passo. “... por intermédio do Espírito Santo”, prosseguiu o anjo. “Mete lá o teu Espírito Santo para dentro das calças, meu porcalhão com asas,” disse Faria, já a correr em direcção de casa.
Pouco tempo depois de a criança nascer num modesto estábulo de Belão, recebeu a visita de três magos astrólogos, vindos do oriente que diziam ter sido guiados até ali por uma estrela. Faria e Tomé não ligaram grande importância à conversa da estrela pois já estavam mais que fartos de gente maluca. Dos presentes que os magos traziam guardaram o ouro e livraram-se do incenso e da mirra porque ninguém gosta de receber presentes inúteis. Naquele tempo, reinava em Asrael um lacaio dos romanos chamado Bigodes. O rei Bigodes era um homem amável e gentil, muito estimado pelo povo. Certo dia, trouxeram perante si um profeta que lhe revelou que naquela noite iria nascer o Messias que o substituiria como soberano dos erveus. O rei ficou radiante com esta notícia e logo mandou que os seus guardas percorressem as ruas da cidade de Belão à procura de tão afortunada criança. Os soldados assim fizeram, levando alegria a todas as crianças que encontraram. Infelizmente, Tomé e Faria haviam decidido mudar-se para a cidade vizinha de Nazarus e, por isso, o jovem Messias não foi encontrado. Em verdade, foi apenas isto que aconteceu, apesar de, mais tarde, a história ter sido um pouco exagerada.
Desesperado,
Jesé fez uma última tentativa e fez aparecer um bando
de leprosos. A princípio, ainda tentou esconder-se atrás
dos leprosos mas estes fugiram na direcção da multidão
ao verem o banquete. Os convivas não apreciaram esta última
proeza e começaram a reclamar, dizendo: “Ó Sana,
ó Sana!” Sana era o nome do delegado de saúde pública
da região que se encarregava de afastar os leprosos para lugar
seguro. Deus via tudo do alto, pois já havia perdido o interesse nas mulheres de seios volumosos, que deixam de ter piada passado algum tempo, e achou muito divertido aquele folguedo aquático. Gostou tanto de ver Jesé e João Pequeno a chapinhar na água que decidiu que, daí em diante, todos os seus filhos deveriam levar com água na cabeça antes de poderem chegar até junto de Si. Aproveitando o embalo, mudou o nome de João Pequeno para João Fascista para evitar confusões com personagens de outras histórias.
“Bem
aventurados os pequenos, pois nunca poderão jogar basquetebol. Ao dizer isto, Jesé lembrou-se de que já estava na hora do jantar e convidou os apóstolos para comer num restaurante afamado da zona a que chamavam “A Última Ceia”, não se conhecendo a origem de tão original designação.
Quando os criados já traziam para a mesa as febras com batatas fritas e as cervejas, pois o pão e o vinho eram só para abrir o apetite (também havia manteiga e queijo fresco, mas Jesé achou melhor não fazer o mesmo outra vez porque já sabia qual iria ser a reacção), as portas do restaurante abriram-se e entrou um destacamento de legionários romanos comandado por um centurião que perguntou: “Qual de vós é Jesé de Nazarus?”. Os apóstolos logo se puseram de pé e apontaram para o Mestre sem pensar duas vezes. Os romanos tinham sido ali mandados pelos erveus que se tinham sentido ludibriados por um número efectuado por Jesé em que ressuscitara um homem de nome Ladislau que já se encontrava no túmulo. Os erveus tinham-se irritado, gritando que o homem estava só a dormir e que aquilo não era um túmulo, mas uma oficina de sapateiro em que Ladislau trabalhava. Os legionários prenderam Jesé e arrastaram-no para fora naquela que foi a primeira manifestação de violência policial. Antes de saírem, Carlos Alberto aproximou-se de Jesé e disse-lhe que lhe tinham pago trinta dinheiros para o entregar às autoridades e que serviriam para pagar as últimas prestações da mula. A seguir, deu-lhe um beijo porque era um homenzinho de gostos muito estranhos.
“Sim!”
gritaram os erveus. “Mas isso não é um bocado doloroso?”
perguntou o romano. “Não. E até podemos enriquecer
com a venda de miniaturas de Jesé de Nazarus crucificado,”
disseram os erveus. Pilau concordou e foi assim que os romanos passaram
à história como um povo sanguinário.
O livro do apocalipse é o mais enigmático de todos os que constituem o Livro Sagrado. É também o mais recente, datando do séc. II da nossa era. Os acontecimentos relatados parecem ser uma previsão de algo que sucederá no fim do mundo, não se indicando uma data. Os elementos que mais confundem os estudiosos são a referência a Michael Jackson e o “AAAAAAARGGHHH” final. Sir Duncan Fitzgerald, baronete de Plimroy, afirmou, no seu livro “Oh My Dear, I Feel Rather Woopsy Today” que este grito simboliza a agonia do espírito livre a ser esmagado pelo peso insuportável da ambivalência de valores da sociedade contemporânea.
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