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Irmã Lúcia processa Santa Sé

A única vidente de Fátima que sobreviveu até aos nossos dias mostra-se profundamente desgostosa com o tratamento a que tem sido votada pela Santa Sé que beatificou os seus dois companheiros de aparição e se prepara para os canonizar enquanto Lúcia não passa de uma reles carmelita descalça.
“A beatificação ainda aguentei porque, afinal, é uma coisa subalterna mas santos aqueles dois? É demais,” afirmou a vidente, quebrando o seu voto de silêncio, “Ando há oitenta anos enfiada em conventos e é esta a paga que me dão!”

A ingratidão de que acusa a Santa Sé torna-se ainda mais difícil de suportar quando Lúcia recorda tudo o que fez pela Igreja. A aparição de Nossa Senhora que alegadamente terá presenciado em 1917 deu origem a um culto que chegou até aos nossos dias, coroado com a construção de um santuário e de outras estruturas que dão lucros bastante avultados e de que Lúcia nunca viu um tostão sequer. Para além disso, as cartas que terá escrito, revelando os três segredos de Fátima devolveram ao Catolicismo uma vertente de mistério essencial a qualquer religião que se preze.

Em vez de uma parcela dos lucros, a única “recompensa” que teve foi o enclausuramento forçado, o voto de silêncio que lhe foi imposto para evitar que fizesse comentários embaraçosos e um hábito que, mesmo para os padrões das freiras enclausuradas, é considerado dos mais pobres em termos de conforto, estilo e apelo ao sexo oposto (o incidente que envolveu o bispo de Viseu e as Carmelitas de Aveiro não deve ser tido em conta porque é sabido que o vinho da Eucaristia é muito traiçoeiro).
Pela primeira vez, Lúcia teceu comentários pouco elogiosos a respeito dos primos, Jacinta e Francisco. “Canonizá-los antes de mim faz tanto sentido como dar um óscar de melhor actor ao dromedário montado pelo Peter O’Toole no Lawrence da Arábia,” afirmou, mostrando ao mundo a qualidade da videoteca do convento e acrescentando que “são uns figurantes! Foi comigo que Nossa Senhora falou. Eles só lá estavam para fazer número.”

O advogado de Lúcia, José Maria Martins, célebre por defender Bibi no processo Casa Pia, promete levar o processo até às últimas consequências em defesa dos direitos da vidente. A única resposta que recebeu até agora do cardeal José Saraiva Martins, presidente da Congregação para as Causas dos Santos, organismo do Vaticano responsável pelas beatificações e canonizações, deu conta de que a Igreja não pode beatificar ou canonizar alguém que ainda não morreu. Para José Maria Martins, trata-se de um caso grave de discriminação.