E-zine satírico sem corantes nem conservantes

O Natal dos nossos políticos

Eles são os guardiões da nossa democracia. Os nossos governantes. Mentes esclarecidas predestinadas a ter o poder nas mãos. Mas também são homens e mulheres quase iguais a nós. A Inépcia integra-se no espírito da quadra e apresenta as tradições natalícias dos líderes dos principais partidos portugueses.

-Pedro Santana Lopes-

Não há grandes motivos de festa para Santana Lopes. O seu sonho de entrar para a história do país foi concretizado mas não exactamente como pretendia. Preferia ficar no capítulo dedicado aos grandes estadistas e não no apêndice dos primeiros-ministros que levaram menos de um ano a ser demitidos. Mesmo assim, Natal é Natal. É tempo de engolir as mágoas e passar tempo com a família. Como faz todos os anos, o nosso primeiro-ministro demissionário terá de escolher uma das 348 companheiras que teve durante os últimos três anos, descontar as que casaram ou se comprometeram entretanto, tirar da lista as profissionais (porque a crise ainda não acabou e não se pode desperdiçar fundos com os prazeres da carne) e convidar uma das duas que sobram para passar a consoada na residência oficial de São Bento. O seu primeiro e último Natal como chefe do Governo de Portugal. Depois é só descobrir uma discoteca que não o considere acabado e não lhe cobre consumo mínimo.

-José Sócrates-

Ao contrário do Natal de Santana Lopes, o Natal do líder socialista promete ser alegre. A mesa de consoada não terá espaço para todos os interessados em passar a noite de Natal com aquele que muitos vêem como o próximo primeiro-ministro. O plano das festividades não andará muito longe dos Natais do resto dos portugueses. Receber os convidados, petiscar qualquer coisa até à hora da ceia, atacar o bacalhau da praxe, complementar o bacalhau com uns docinhos típicos, discutir violentamente com os colegas de partido que insistem que o melhor era esquecer aquela história da co-incineração, ir à missa do galo, fazer um telefonema anónimo a Santana Lopes só para chatear, abrir os presentes, ensaiar discursos de tomada de posse... Enfim, o que qualquer um de nós faz nesta quadra.

-Paulo Portas-

Numa família tão tradicional como a dos Sacadura Cabral Portas, é normal que a celebração do Natal se faça em grande. A mesa da consoada é maior do que as mesas a que estamos habituados. Há mais pratos. Mais convivas. Mais fausto. Mas, no fundo, o Natal é o mesmo para todos. Come-se, convive-se, trocam-se prendas, vai-se à missa do galo. Ao fim da noite, assiste-se à tradicional troca de insultos entre a metade da família que é de direita e a metade que é de esquerda, seguida da costumeira cena de pugilato entre os irmãos Paulo e Miguel que acaba sempre com o irmão mais velho a esfregar a cara do mais novo na travessa de aletria e a obrigá-lo a admitir que sempre foi “o menino da mamã.” Há tradições que nunca se deveriam perder.

-Jerónimo de Sousa-

Ainda pouco habituado ao cargo de secretário-geral do PCP, o Natal de Jerónimo de Sousa não será muito diferente dos de anos anteriores. Habitualmente, passa a noite com amigos e familiares na colectividade da sua aldeia, a União Cultural Recreativa e Desportiva Velhadas que Não Aceitam a Realidade (UCRDVNAR), comendo um bom bacalhau cozido com batatas, acompanhado de fatias de bolo-rei e arroz doce. Depois de um pézinho de dança tão do agrado do líder comunista, a noite termina à lareira, contando histórias da mitologia proletária. De seguida, como acontece com a gente simples que trabalha de Sol a Sol, Jerónimo retira-se, adormecendo depois de pedir uma prenda muito especial ao Pai Natal: que o dia seguinte amanheça outra vez em 1975.

-Francisco Louçã-

Pouco dados a tradições, o Bloco de Esquerda comemora o Natal com um jantar-comício onde se discute acaloradamente “a simbologia do Natal enquanto transposição para a visão cosmológica judaico-cristã dos ancestrais ritos camponeses de celebração do solstício de Inverno.” Como acontece todos os anos (o tema em discussão é sempre o mesmo), não conseguem chegar a uma conclusão porque se distraem a chamar “mainstream” uns aos outros e a tentar mostrar que são activistas de mais causas do que o próximo. Finda a discussão, acabam a noite no Lux a partilhar a tradicional ganza de Natal.