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Noite feliz

Um Natal canibal

Era tradição antiga dos Loureiros de Moimenta da Beira. Em véspera de Natal, chegavam os membros do clã, reunindo-se na casa da matriarcal avó Deolinda para a costumeira consoada em família. Vinham dos quatro cantos do país e também de além-mar, desde que o tio Jaime tinha emigrado para a África do Sul para se ocupar de um negócio de lingerie erótica em pele verdadeira com muita saída junto dos zulos. Amontoavam-se os presentes junto ao presépio (os Loureiros não faziam árvore de Natal, fiéis que eram às legítimas e seculares tradições natalícias portuguesas) e esperava-se por um repasto tão grandioso que não devia nada aos opíparos banquetes do bíblico Salomão.

Com os convivas devidamente reunidos, tratava-se de averiguar quais as principais novidades na família desde o Natal anterior. Não era costume haver grande coisa que contar. Sebastião e Ernesto, gémeos siameses filhos de Maria Isabel e Nicolau, continuavam a não conseguir ultrapassar o diferendo que os impedia de dirigirem a palavra um ao outro desde que, anos antes, um deles (já ninguém se lembrava qual, nem os próprios) tinha ousado comer uma barra dietética de sementes de girassol e glucose que tinha sido oferecida ao outro. Podia parecer fraco motivo para tão longo diferendo, sobretudo porque ambos partilhavam o mesmo aparelho digestivo, mas a verdade é que os gémeos persistiam num corte de relações que durava há dez anos e que só era interrompido por motivos profissionais, visto que ganhavam a vida com um número muito rentável de prestidigitação em parelha, fazendo digressões prolongadas pela corte das principais cabeças coroadas da América Central.
Colocando de parte este desaguisado folclórico a que nunca se ligava grande importância, reinava a concórdia entre os Loureiros, família de historial secular que conseguia traçar a sua árvore genealógica até ao lendário D. Gervásio de Castelo Formoso, companheiro de putas de Afonso Henriques e um dos nomes mais temidos entre a mourama durante a reconquista, recebendo epítetos tão medonhos como “Gervásio Mata-Mil” (pelo elevado número de vítimas da sua espada), “Gervásio Sem-Calor” (pelos grossos capotes de pele que usava até nos dias mais quentes de Agosto) ou “Gervásio Pé de Chicharro” (pelo peculiar aroma marinho que exalavam as suas botas).

Sobre a lareira, lá estava o brasão encomendado a um sapateiro vizinho que tinha a heráldica como passatempo. Em campo de prata, uma perna decepada sob pimenteiro de azul e com dois besantes violeta para dar colorido ao conjunto. O simbolismo remontava aos tempos de Gervásio que, diz-se, durante banquete no qual recebia altas individualidades, foi informado de que a provisão de carne não era suficiente para o número de convidados e, na urgência do momento, mandou matar o filho mais velho e prepará-lo de cebolada. De então para cá, o canibalismo passou a marcar presença nos hábitos alimentares de gerações incontáveis de Loureiros, fixando-se o Natal como noite canibal por excelência, sem invalidar um ou outro petisco antropófago distribuído pelo resto do ano.

Mas a normal evolução dos tempos foi responsável por algumas adaptações do molde original a um formato mais condizente com a contemporaneidade. Em vez de se sacrificar um primogénito em cada consoada, hábito mantido até 1921, o feliz canibalizado passou a ser escolhido à sorte pelo método da palhinha mais curta. O ponto de viragem foi a percepção de que a subsistência da família estava em risco com a diminuição crescente da natalidade, levando a que os primogénitos, por mais saborosos e suculentos, fossem muitas vezes a única prole de determinado ramo familiar. Outra alteração foi o fim da participação obrigatória no sorteio de todos os elementos da família com peso e dimensões corporais suficientes para constituir refeição substancial. Para evitar a repetição de amargos de boca passados, excluem-se os maiores de 70 anos e quem padeça de maleitas alterantes do sabor. Nesta consoada em especial, ficariam de fora a avó Deolinda pelo décimo ano consecutivo e o tio Ramiro por medo de que o abuso continuado de bebidas espirituosas e a concentração de álcool no sangue pudessem provocar um acidente no contacto entre a carne e a brasa (no Natal canibal dos Loureiros, havia carne para todos os gostos, desde bitoques, lombinhos, febras, ensopados, recheio de empadão e as sempre populares bifanas grelhadas ao ar livre).

Entre os sorteáveis, a emoção era muita. Não se sabia quem seria o contemplado. Apenas que receberia o martírio com desportivismo, consciente de que tudo aquilo era pela manutenção dos valores da família e pelo espírito da quadra, sempre tão rico em exemplos de altruísmo. Podia ser qualquer um. Esperava-se que não fosse Jacinto, solteirão alto como um campanário mas a quem chamavam “Alfinete” pela magreza de carnes. E havia quem deitasse já o olho com ânsias gulosas ao resto da parentela, com especial incidência sobre Cândido, campeão distrital de triplo salto e dono de umas coxas que prometiam bifes de primeiro calibre, e sobre a anafadíssima tia Eustáquia, toda ela um maná potencial de escalopes de macieza vitelina.
Distribuídas as sortes e tiradas as palhas da mão da avó Deolinda, habitual árbitro do sorteio e garante de imparcialidade, muitas eram as bocas inundadas por um salivar incontrolável. Calhara a tia Eustáquia. Sorte grande. A afortunada senhora despede-se com jovialidade dos presentes, deseja-lhes um bom apetite e pede para entregarem os dedos dos pés fritos em banha ao primo Tomé, de quem sempre foi muito amiga desde os tempos infância e por saber que são pitéu que muito aprecia.

Com um último aceno e um amplo sorriso, é levada para a cozinha, onde mãos cuidadosas a matam sem dor e a esquartejam com toda a devoção. Enquanto se assiste à mensagem natalícia do Cardeal Patriarca, enche-se a casa com uma miríade de perfumes deliciosos, anunciando pratos, terrinas e travessas contendo o que de melhor a tia Eustáquia tinha para oferecer, provocando durante a refeição comentários atestando que sempre fora uma mulher dotada de grande coração. E ele ali estava, cozido com especiarias e um fio de azeite, rodeado de arroz de legumes, amplo como um coração de boi, confirmando a velha suspeita. Ao centro da mesa, sobre folhas de alface, a cabeça da tia ainda sorridente, pincelada com ovos batidos e ornada por uma coroa de ramos de alecrim. Os olhos tinham sido previamente arrancados e cristalizados em açúcar, repousando junto às sobremesas como prémio para a criança com o melhor aproveitamento escolar do ano.

Apesar da alegria típica da quadra, há também lugar para a saudade e, num momento de menor sofreguidão, o pachorrento tio Vitorino não contém a nostalgia e deixa escapar um lamento singelo pela ausência do irmão Jerónimo nesta primeira consoada sem as suas gargalhadas efusivas. Todos concordam e propõe-se um brinde ao tio Jerónimo e à sua boa disposição com os copos bem erguidos e olhares aguados sobre um prato de rissóis que tinham sobrado do ano anterior, devidamente congelados e mantendo toda a frescura. Pudessem todas as famílias disfrutar de idêntica comunhão familiar e, com toda a certeza, o mundo seria um lugar melhor. Um santo Natal para todos.

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