E-zine satírico sem corantes nem conservantes

Algo está podre na República de Portugal

Candidato apoiado pelos Naturistas-Xadrezistas impedido de concorrer às presidenciais

Três décadas após Abril de 74, a democracia portuguesa ainda está muito longe da perfeição. Quando se acreditava que já ninguém poderia ser discriminado pelos seus ideais, eis que, num tenebroso recuo até outros tempos menos felizes, Januário Carrapeta, candidato presidencial reunindo todos os requisitos exigidos pela lei viu a sua candidatura ser recusada sem apelo nem agravo. O direito ao recurso foi-lhe negado. As explicações que pediu a várias instâncias nunca lhe foram dadas. Para todos os efeitos, a candidatura de Carrapeta foi censurada por ser incómoda demais para alguém.
Mas quem é este homem corajoso que saltou do anonimato para dar início a uma carreira política da qual promete não desistir, contra tudo e contra todos?

Aos 42 anos, gere a sua própria empresa, fabricando sacos de plástico para excrementos de cão com exportação garantida para todo a Indochina. Garante que não esqueceu as origens humildes numa aldeia remota, perdida na Serra do Marão, o quarto filho de um casal de queijeiros cuja vida nunca correu bem talvez por se recusarem a usar lacticínios no fabrico dos queijos por motivos religiosos. Deixou os pais, os 37 irmãos e um Castro Laboreiro a quem se afeiçoara muito aos 12 anos e, aos 14, já era presidente do conselho de administração de uma conceituada multinacional do ramo automóvel. Demitiu-se pouco depois e deu início a um interregno de dois meses, durante os quais viajou pelo país fora em busca da sua verdadeira vocação. Acabou por encontrá-la certo dia na Amadora, durante passeio por uma zona verde. Enquanto contemplava uma azinheira de aspecto venerando, cheirou-lhe mal. Era o destino a colar-se-lhe à sola dos sapatos. “Excrementa jacta est”, como diziam os babilónios.

O bichinho da política surgiu de modo semelhante. Andava desiludido com os políticos, como grande parte dos seus concidadãos, quando comprou uma dúzia de castanhas que, por um grande acaso, vinham embrulhadas num panfleto do recém-criado Partido Naturista-Xadrezista, convocando potenciais interessados para o seu primeiro congresso. Januário foi um dos sete presentes no salão do Clube Recreativo Águias da Brandoa naquela noite fria e chuvosa e um dos poucos que não cheirava a urina e não passou o tempo todo ou a ressonar ou a recitar versículos da Bíblia em cima de uma cadeira até ser arrastado lá para fora. O que o atraiu foi sobretudo o facto de não ser um partido convencional mas apenas um grupo de amigos que se reunia aos Sábados para tirar a roupa e jogar xadrez. Januário Carrapeta nunca gostou de se despir e o xadrez era para ele um mistério insondável mas estava convicto de que era disso que o país precisava. Uma candidatura presidencial parecia inevitável, conseguido o precioso apoio partidário.

A recolha das 7000 assinaturas necessárias foi feita em tempo recorde em diversas instituições de cuidados psiquiátricos de todo o país, incluindo ilhas adjacentes. Com a particularidade pitoresca de cada nome ter sido assinado com uma substância diferente, sendo que apenas um dos signatários usou uma esferográfica e outro um lápis. Seguiu-se a entrega das assinaturas no Tribunal Constitucional como é exigido por lei e tudo parecia correr sobre rodas. Foi então que sucedeu o pior. A candidatura foi rejeitada. Os mandatários de Januário pediram explicações mas sem sucesso. A hipótese de um presidente naturista-xadrezista para Portugal tinha sido adiada por tempo indefinido.

Quais os motivos por trás desta violação gravosa da lei eleitoral e do direito constitucional dos cidadãos de se candidatarem à mais alta magistratura da nação? Quem ficou incomodado pela candidatura de Januário Carrapeta? Estas e outras questões permanecerão sem resposta. Perdidas no mesmo limbo para onde foram remetidas as aspirações políticas de um homem com um projecto para Portugal. E a perda é unicamente dos portugueses. Nenhum outro candidato se atreveria a incluir na sua agenda assuntos tão prementes como a institucionalização da pena capital para crimes de estupidez, a reabilitação da escravatura como forma de pagamento de dívidas fiscais ou a dedicação de um dia em cada mês ao abandono obrigatório de todo o vestuário e à prática do nobre jogo do xadrez (por imposição partidária, os princípios devem ser conciliados com as responsabilidades políticas, sempre que possível).

Januário retomou hoje o seu quotidiano tranquilo. Diz que não desiste da política mas vai fazer uma pausa. Quer assentar e constituir família. Até já escolheu a companheira ideal. Não sabe como se chama mas sabe onde mora e até já teve o seu número de telefone (entretanto alterado por circunstâncias que lhe são alheias). A conquista do amor revela-se difícil. Mas um homem de ideias fixas não desiste facilmente. Tão decidido está em ter a escolhida como mãe dos seus filhos que, duas vezes por semana, lhe deixa à porta de casa pela manhã um pequeno frasco com a semente das suas aspirações patriarcais. Não vá ela querer ir adiantando trabalho.

www.inepcia.com