Inépcia: s.f. (do latim "ineptia") 1-Falta de aptidão ou habilidade. 2-Imbecilidade 3-Acto ou dito absurdo.
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Movimento de cidadãos não quer Olímpia nas mãos de La Féria

Um grupo de cidadãos residentes em Lisboa manifestou a sua preocupação com a aquisição recentemente concretizada do cinema Olímpia, a catedral do cinema pornográfico na capital, por Filipe La Féria. O Olímpia passará a complementar o programa de espectáculos do vizinho teatro Politeama que também pertence ao encenador.

O movimento “Vamos Salvar o Olímpia” foi constituído com o objectivo de evitar que Lisboa perca mais um dos cada vez mais raros espaços culturais dedicados em exclusivo à pornografia e, simultaneamente, evitar a possibilidade assustadora de passarem a existir dois espectáculos de Filipe La Féria em cena ao mesmo tempo.

Recorde-se que, num passado recente, os espectáculos “Amália” e “A Casa do Lago,” ambos do homem que fez de João Baião e Anabela nomes consagrados, estiveram em cena em simultâneo, um no teatro São Luís e outro no Politeama, sempre com lotações esgotadas. Na mesma altura, a cidade de Lisboa foi atingida pela maior epidemia de diarreia de que há memória nos anais da medicina em Portugal, havendo até especialistas a considerar a possibilidade de as peças de La Féria provocarem efeitos nefastos a nível fisiológico.

Para evitar que esta situação se volte a repetir, José Manuel Lurdes de Fátima, porta-voz do movimento “Vamos Salvar o Olímpia” considera que “não se trata apenas de salvar um cinema pornográfico mas de zelar pela saúde mental e física dos portugueses em geral e dos lisboetas em particular” acrescentando que “Tem mais valor artístico o filme ‘Gulosas e Perigosas’ ou qualquer uma das suas 25 sequelas do que todas peças de La Féria juntas.”

Para averiguar o valor artístico do trabalho do encenador e a validade das afirmações polémicas de Lurdes de Fátima, a Inépcia contactou o conceituado crítico teatral e campeão ibérico de tiro aos pratos, Caetano Doroteia. “Não há dúvida alguma de que Filipe La Féria é um dos grandes dramaturgos portugueses ao mesmo nível de Gil Vicente ou Bernardo Santareno,” afirma. O seu carteiro, Luís Américo, sem bases académicas mas dotado de um senso comum ímpar, discorda do homem a quem, há mais de dez anos, entrega semanalmente o boletim da “Associação Portuguesa de Sofredores de Presunção Bestiforme e Corrimentos Nasais” (APSPBCN). Segundo ele, “a reputação do senhor La Féria (a reputação profissional e não essa) é mais uma consequência de um fenómeno estranho e tipicamente português. Normalmente, a popularidade de uma manifestação artística é consequência da sua qualidade, ainda que esta seja subjectiva. Em Portugal, é necessário que algo seja popular para que, a posteriori, a opinião pública lhe atribua qualidade.”

Quantos aos motivos da popularidade dos espectáculos de La Féria, Luís Américo refere que “podem ser vários. Desde a falta de coisa melhor para fazer ao desejo de fazer parte de uma suposta elite que vai ao (suposto) teatro e se orgulha disso mas não tem paciência para o Chekhov, para o Beckett ou para o Brecht.” A este respeito, recorde-se outro sucesso laferiano: “A Rosa Tatuada,” tentativa de adaptação de um texto de Tennessee Williams em que a escolha de João Baião e Rita Ribeiro para os papéis principais é equivalente a anunciar uma recriação do tecto da Capela Sistina feita por um chimpanzé, duas lagartixas e uma doninha coxa.

Não desistindo dos seus ideais, o movimento “Vamos Salvar o Olímpia” promete levar a luta até às últimas consequências. Lurdes de Fátima ameaça que, se for necessário, “o movimento alugará o Coliseu dos Recreios (que fica a poucos metros do teatro Politeama) e encherá o palco com bosta de vaca numa tentativa de roubar espectadores a La Féria com um espectáculo semelhantes aos seus.” Para breve, anuncia-se a colocação de uma faixa junto ao cinema Olímpia com o slogan do movimento: “Antes uma pila a latejar do que a Anabela a guinchar.”

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