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Entrevista ao Padre Mário Oliveira

Mário de Oliveira nasceu em 8 de Março de 1937. Foi ordenado padre/ presbítero da Igreja Católica em 5 de Agosto de 1962. Desde então para cá, e até ficar na anómala condição de padre sem ofício pastoral oficial em que se encontra, foi sucessivamente coadjutor da Paróquia das Antas; professor de Religião e Moral dos Liceus Alexandre Herculano e D. Manuel II, no Porto; capelão militar na Guiné-Bissau, de onde foi expulso ao fim de quatro meses, por ousar pregar a Paz aos que lá faziam a Guerra Colonial; pároco de Paredes de Viadores, no Marco de Canavezes; pároco de Macieira da Lixa, concelho de Felgueiras e, nessa condição, duas vezes preso pela PIDE e outras tantas julgado no Tribunal Plenário do Porto; membro da Equipa Pastoral da Zona Ribeirinha do Porto; em 1975, tornou-se jornalista profissional (República, Página Um, Correio do Minho) e nesta qualidade ainda hoje dirige o Jornal Fraternizar que ajudou a fundar em 1988. Publicou vários livros, entre os quais: "Fátima Nunca Mais"; "Nem Adão e Eva, Nem Pecado Original"; e "Que Fazer com esta Igreja." (Biografia retirada do site da editora Campo das Letras.

Inépcia-Foi perseguido, preso, exonerado, tratado como uma espécie de “anticristo” em ponto pequeno. Tendo o perdão a importância que tem no cristianismo, já perdoou às pessoas responsáveis por tudo isto?

Padre Mário-Posso ter inimigos, mas não sou inimigo de ninguém. Acho também que nunca tive que perdoar a ninguém, pela simples razão de que nunca cheguei a ficar contra ninguém. Ao longo dos anos, fizeram-me tudo isso que diz a pergunta e muito mais, mas eu nunca fiquei contra as pessoas que assim agiram comigo. Sempre continuei a tratá-las como pessoas, a respeitá-las e a amá-las. Ao mal que me fazem, procuro responder sempre com o bem. Recordo-me, a este propósito, que, depois do 25 de Abril de 74, fui chamado a depor no Tribunal de Extinção da Pide/DGS, onde estava a ser julgado o homem que o Tribunal tinha como o principal responsável pelas minhas duas prisões políticas em Caxias. O colectivo de Juízes fez questão de ouvir o meu depoimento, para, com base nele, poder condená-lo. Pois bem, eu cheguei ao Tribunal, olhei fraternalmente para o senhor Julinho (era assim que o povo da freguesia de Macieira da Lixa o tratava) e pedi de imediato a sua absolvição. Aos meus olhos, o que ele havia feito tinha sido por arrastamento de outros muito mais poderosos e influentes, que habilmente se tinham servido dele contra mim e ficaram sempre na sombra. O colectivo de Juízes ficou manifestamente perplexo com as minhas palavras, para não dizer, em estado de choque, mas teve que mandar em paz o acusado. Devo dizer, igualmente, que os meus braços de homem padre estão sempre abertos para abraçar todas as pessoas, inclusive, aquelas que me tenham feito mal, ou ainda venham a fazer. Acontece, porém, que, muitas vezes, as pessoas que me fazem mal não conseguem depois aceitar o abraço que lhes quero dar. Continuam a detestar-me. Prefeririam, se calhar, que eu as odiasse também a elas. Creio que até me detestam ainda mais por eu, ao ódio delas, responder com respeito e amor. Mas é assim que sou. Sem ter que fazer um esforço por aí além. Sou assim por natureza e também pela graça a que procuro estar permanentemente aberto. Acho que é assim que todos nós, mulheres e homens, haveremos de ser, se quisermos ser verdadeiramente humanos. Ao mal que nos façam, havemos de responder só com o bem. O nosso mundo será então de muito mais paz.

I-O que sente alguém preso sem ter cometido qualquer crime? Há arrependimento? Nalgum momento se pensa “eu sei que tenho razão mas se estivesse calado e quieto evitava estar aqui”?

PM-No meu caso, senti-me sempre fortemente injustiçado pelo facto de estar preso. E das duas vezes que me levaram para a Cadeia política, comecei sempre por protestar por escrito, através de exposições que fazia chegar ao respectivo director. Bem sabia que, na prática, esses meus protestos escritos de nada valiam, mas o gesto, só por si, consubstanciava a inequívoca afirmação da minha própria dignidade perante o Regime bruto e cruel que prendia pessoas inocentes, só porque elas lhe eram politicamente incómodas. Mas, depois, uma vez metido à força na prisão política, nunca senti qualquer arrependimento pelas posições anteriormente tomadas. Pelo contrário, ao ver-me injustamente na prisão, dei-me conta cada vez mais da perversidade e da crueldade do Regime que me havia prendido. Era, por isso, um Regime a denunciar sem cessar, desmascarar e combater cada vez com mais audácia e determinação. Em nome da Humanidade e da dignidade das pessoas. Recordo-me, a este propósito, que quando, depois da minha primeira prisão política em Caxias, regressei à paróquia, em lugar de me comportar com mais cautelas que anteriormente, acirrei ainda mais o combate pela libertação das pessoas e dos povos contra o Regime. Afinal, o Regime havia transformado o país numa prisão. Por isso, não tinha que ser respeitado, mas simplesmente desmascarado, até ser abolido. E foi o que passei a fazer com redobrada determinação, depois da primeira prisão política que sofri. Tenho consciência que não há dignidade humana sem liberdade. E sem luta pela liberdade, quando esta ainda não é o pão na vida de todas as pessoas e de todos os povos. No meu entender, o medo e a “prudência”, perante regimes autoritários, para não se ser incomodado por eles, nunca são caminho para se ser homem, mulher com todas as letras. Por isso, não esperem que eu cultive essas “virtudes”. Prefiro sempre a via da dissidência, como caminho para a verdadeira paz.

I-Em 1967, quando trabalhava como professor de Religião e Moral num liceu do Porto, foi forçado a ir para a Guiné por ter apoiado “actividades subversivas” como ser favorável ao movimento associativo estudantil. Esteve lá menos de um ano. Por pregar o direito dos povos das colónias à independência, foi expulso do cargo de capelão e regressou a Portugal. É este o segredo da resistência ao autoritarismo e à opressão? Quando nos castigam por algo que pensamos ou dizemos, fazer ainda pior?

PM-Não direi propriamente: “fazer ainda pior”. Para mim, o segredo da resistência ao autoritarismo e à opressão é ousarmos ser cem por cento humanos, sem nunca recuarmos, sejam quais forem as circunstâncias. Porque se, perante esses e outros males, recuamos em humanidade, podemos acabar transformados em minhocas, em coisas, em meros funcionários. O autoritarismo e a opressão nunca podem ser acatados por ninguém, indivíduo ou povo, que se preze. Têm que ser combatidos. Sempre. Com muita imaginação e inteligência. Uma das maneiras mais eficazes de atacar esses males é praticar a resistência activa perante eles. Ninguém pense que é coisa fácil ser homem, ser mulher, dentro da presente Ordem mundial neo-liberal do Império. Não é. O que é fácil, mas também ignóbil, é regredirmos até nos tornarmos capacho de quem é autoritário e opressor. Mas também neste particular, o Sistema não tem podido nunca contar comigo. É por isso que o meu itinerário de vida foi e continua a ser tão atribulado. Mas é o itinerário de vida de um homem saudavelmente dissidente, activamente resistente, insubmisso, insubornável, solidário, irmão universal.

I-O que aconteceu em Fátima a 13 de Maio de 1917?

PM-Começo por declarar que Fátima é, porventura, a maior mentira fabricada por um certo tipo de Catolicismo português que, estranha e escandalosamente, sempre contou e continua ainda hoje a contar, apesar de entretanto ter acontecido o Concílio Vaticano II, com o reconhecimento da generalidade dos Bispos, da Cúria Romana e até do Papa, nomeadamente, do actual Papa João Paulo II, que, como se sabe, é um dos filhos mais idolatrados da católica Polónia e um fruto acabado do seu feroz anticomunismo/anti-ateísmo primário. O que aconteceu em Fátima em 13 de Maio de 1917? Depois de muito me ter debruçado sobre o fenómeno, cheguei à conclusão de que o dia 13 de Maio de 1917 foi o início da fabricação da grande mentira que é hoje Fátima. O clero da região preparou tudo ao pormenor e fez acontecer aquela “aparição”. Depois, a credulidade e a crassa ignorância teológica e evangélica das populações da época, mais o obscurantismo e o medo em que viviam no seu dia a dia, fizeram o resto. Até fizeram acontecer o chamado “milagre do sol”, uma inventona objectivamente boba e humanamente ignóbil. Que fique bem claro, duma vez por todas: Não há, nunca houve, nem jamais haverá aparições de Maria, mãe de Jesus, a ninguém, crianças ou adultos, mulheres ou homens. Apareça o primeiro teólogo cristão que me desminta de forma fundamentada. Por isso, tudo o que se disser a este respeito – e muito se tem dito e escrito, infelizmente – é mentira, fantasia, exploração da credulidade das pessoas simples e ingenuamente propensas ao maravilhoso. Não tem qualquer verdade objectiva e cientificamente comprovada. E repugna ao núcleo essencial da Fé cristã jesuânica! O que as três crianças de Fátima “viram” e “ouviram” – se é que elas viram e ouviram alguma coisa no dia 13 de Maio de 1917 – foi apenas o que elas já tinham nos seus próprios cérebros aterrorizados pelas pregações da Santa Missão e pela leitura em família do livro Missão Abreviada. Porém, pela forma como toda esta mentira foi inicialmente montada e é oficialmente relatada, o mais que pode ter acontecido foi uma dramatização teatral, em que Lúcia, a mais velha das três crianças, fez o papel de actriz principal. Nada mais do que isso. E se dissermos que em Fátima houve uma manifestação do “divino” ou uma comunicação do “céu” com a terra, mentimos com quantos dentes temos na boca. Um tal “divino” não passaria, afinal, de demoníaco. Aliás, é este demoníaco que, em nós, no nosso inconsciente individual e sobretudo colectivo, sempre espera, pede, reclama e exige de Deus “milagres”, manifestações do “sobrenatural”. Pelos frutos – diz Jesus no Evangelho – se conhece a árvore. Neste caso, se conhece Fátima. Ora, os frutos de Fátima e da sua senhora cega, surda e muda foram e continuam a ser tão perversos, tão inumanos, tão cruéis, tão alienadores, tão anti-Evangelho, tão anti-Jesus de Nazaré e até tão anti-Maria, sua mãe, que nada daquilo pode ter o “selo” ou a “marca” de Deus, pelo menos, do Deus de Jesus e de Maria. Tudo aquilo é idolatria, alienação, exploração, culto do medo, covil de ladrões. Por isso, digo sem hesitar: quanto mais a Igreja católica se identificar com Fátima, mais perderá em autenticidade e em credibilidade. Fátima tem sido e continuará a ser, se a Igreja teimar em manter-se lá a arrecadar todos aqueles milhões de euros por ano e todo aquele ouro levado pelas populações adoentadas e maltratadas por economias e políticas sem misericórdia, o vírus que corrompe e paganiza o Cristianismo jesuânico. A cova dos milhões. O cemitério da Igreja.

I-Como vê a polémica recente provocada pela ida de sacerdotes não cristãos ao santuário de Fátima? O eclectismo tem limites?

PM-A mim, nada disso me aquece ou arrefece. Todos os chefes das religiões gostam de locais onde se congreguem multidões, massas humanas sem consciência crítica, grandes quantidades de pessoas não-ilustradas e não-evangelizadas. Esses locais são terreno propício à mentira, à aldrabice, ao engodo, ao maravilhoso, à manipulação das massas populares, por parte das elites dos privilégios, nomeadamente, das elites religiosas, qualquer que seja a religião. Se desses locais desaparecesse a aceitação, por parte dos responsáveis, das ofertas em dinheiro das devotas, dos devotos e fosse também banido todo o rendoso negócio religioso que logo por ali prolifera como cogumelos, os sacerdotes e outros líderes religiosos dificilmente passariam por lá. Mas isso ninguém, nenhum líder religioso, nenhuma Igreja faz. Fátima é mentira. E lá, onde impera a mentira, também impera a opressão, o autoritarismo, o arbitrário, a alienação popular, a idolatria. Basta ver com olhos de ver através da televisão o comportamento da multidão, num qualquer dia 13 de Maio ou de Outubro. É manifestamente uma multidão triste, sofrida, cativa da injustiça que, ano após ano, geração após geração, espera infantilmente por um “milagre” que lhe resolva magicamente os problemas. O que nunca aconteceu. Nem acontecerá! Entretanto, não há ninguém que anuncie a essa multidão o Evangelho ou a Boa Notícia de Jesus que nos revela que os problemas da Humanidade só serão resolvidos se todas, todos nós fizermos por isso. Com engenho e arte. Com empenho e luta política. Como se Deus não existisse. Vejam, entretanto, que nenhum dos responsáveis da Igreja católica que intervêm em Fátima, desde o Reitor do santuário, ao Bispo da diocese e a acabar no Papa de Roma, se atreve a ir por aqui. O mesmo se tem que dizer dos líderes de outras religiões que por lá passam. Uns e outros praticam o discurso da mentira, da alienação, do anti-Evangelho. Vejam igualmente como todos eles, aparentemente tão diferentes entre si, acabam sempre por se entenderem uns com os outros. Tenho a certeza que se Jesus viesse de novo à terra, os líderes religiosos católicos jamais o receberiam em Fátima, muito menos, o deixariam intervir num qualquer dia 13 de Maio ou de Outubro. E, se, por engano, o autorizassem, não o deixariam concluir a sua intervenção e matá-lo-iam nesse dia. Ou, então, tratavam-no como um louco varrido diante de toda a multidão mantida propositadamente por eles no infantilismo e na ingenuidade!

I-Normalmente, há três palavras que é melhor não referir em conversas com sacerdotes. Como o padre Mário não é propriamente um sacerdote-tipo, arrisco-me a juntá-las na mesma pergunta e peço-lhe que comente como entender. Aborto, contracepção, homossexualidade.

PM-Não vejo porque seja melhor não referir tais palavras em conversas com padres ou presbíteros da Igreja. Pessoalmente, não gosto da designação “sacerdote” para nos referirmos ao ministério ordenado. O ministério em que eu próprio fui ordenado pela Igreja é o de presbítero. Sacerdote tem a ver com religião e com os cultos do Paganismo. Sacerdócio remete logo para o paganismo, não para Jesus. É certo que a Carta aos Hebreus tentou recuperar para o Cristianismo o termo sacerdote, mas teve o cuidado de dizer que só Jesus – que destruiu simbolicamente o templo de Jerusalém, e foi odiado com ódio de morte pelos chefes dos sacerdotes do seu país – é sacerdote. E logo acrescentou também que ele é sacerdote, não da ordem de Aarão, mas da ordem de Melquisedec, o que significa um tipo de sacerdote que tem tudo a ver com a Política e com os acontecimentos de que é feita a História, e nada a ver com a Religião e com os cultos sacrificiais nos templos e altares.
Quanto ao tabu a que se refere a pergunta, ele não estará tanto nas tais três palavras – aborto, contracepção, homossexualidade – como sobretudo no sexo enquanto tal. Mas não deverá ser mais assim, porque se há alguém que tem que estar à vontade para conversar sem tabus sobre todas as dimensões do ser humano, incluída a sexualidade, é o presbítero da Igreja. Ou então o seu ministério nunca pode ser verdadeiramente pastoral, maiêutico, libertador. Será meramente cúltico, religioso, beato, em última instância, pagão.
Atentemos então nas três referidas palavras. Sucintamente, digo que aborto é um mal que nenhuma mulher, nenhum homem que se preze pode aprovar, ou ver com bons olhos. De igual modo, alguma vez o aborto pode ser encarado como prática contraceptiva. Curiosamente, o aborto é um mal que os homossexuais, enquanto tais, jamais podem cometer. Porém, outra coisa muito distinta é a lei da despenalização do aborto. Pessoalmente, sou contra o aborto, como toda a mulher, todo o homem que se preze, mas a favor da lei do aborto, nomeadamente, no contexto duma sociedade ainda tão injusta e tão socialmente desigual como a nossa, onde o recurso ao aborto clandestino, por parte de mulheres pobres e a viver em condições degradadas, geralmente acontece em condições atentatórias da sua saúde e da sua dignidade. É para pôr cobro a isto, ou pelo menos, para atenuar esta gravíssima indignidade, que eu defendo a lei do aborto, tal como ela já chegou a ser aprovada no Parlamento português, embora, depois, não tivesse havido coragem para a pôr em execução. Entendo que uma filha, um filho, para ser verdadeiramente humano, há-de ser concebido por uma mulher e um homem que, de forma responsável, assim o chamam à vida. Não há-de resultar de um mero acaso, muito menos, duma relação imposta à força, com muito de violação, mesmo dentro do chamado casamento tradicional.
No que respeita à contracepção, inclusive, ao uso da pílula e do preservativo, para evitar gravidezes não-desejadas e não-planeadas pelo casal, entendo que é bem-vinda, como caminho para maternidades, paternidades responsáveis.
Quanto à homossexualidade, vejo-a como uma tendência sexual que se manifesta em certas pessoas, mulheres e homens, tal como a heterossexualidade. Por isso, se também aqui quisermos falar de Deus criador, teremos que “corrigir” o relato do livro do Génesis e passar a dizer assim: Deus criou o ser humano, Ele o criou homem e mulher, heterossexual e homossexual Ele o criou. O que não for assim, é ofensivo dos seres humanos e de Deus. Reconheço, entretanto, que, para aceitarmos esta revelação integral de Deus criador de heterossexuais e de homossexuais/lésbicas, é preciso uma revolução de mentalidades e na própria teologia cristã católica. Pessoalmente, é já por estas águas que navego. Com alegria.

I-O celibato é assim tão essencial à prática do sacerdócio como nos é dado a entender? Acha que um padre casado poderia ser um bom padre?

PM-O celibato imposto como disciplina eclesiástica católica romana é apenas isso: disciplina eclesiástica. Não tem origem nem fundamento no Evangelho, muito menos procede do pensamento e da vontade de Jesus de Nazaré. Aliás, atenta contra a letra de algumas cartas que integram o Novo Testamento, as quais contêm recomendações dirigidas directamente aos bispos, para que sejam homens de uma só mulher, por isso, não celibatários! É uma disciplina imposta pela Igreja católica de Roma a todos os católicos que aceitem ser ordenados presbíteros ou padres. (A Igreja católica oriental tem outra disciplina completamente diferente e nem por isso deixa de ser Igreja católica!) Como se trata duma disciplina imposta, será mais correcto falar de prepotência eclesiástica, melhor, prepotência da Cúria Romana. Para cúmulo, exercida contra o sentir e o querer da Igreja-povo-de-Deus que gostaria de ver os “seus” padres com liberdade de casar ou não casar. Trata-se duma daquelas prepotências da Cúria romana que os Bispos que presidem a cada uma das múltiplas Igrejas locais jamais deveriam acatar e respeitar. Na medida em que a acatam e a põem em execução, tornam-se cúmplices da Cúria Romana, pecam como ela contra o Espírito Santo, que não quer nada dessas coisas, uma vez que Ele é todo pela liberdade e pela responsabilidade, nada pelo autoritarismo da Lei e do tradicional, nomeadamente, quando este, como acontece aqui, é inumano. Reconheço que, por causa desta prática eclesiástica, a nossa Igreja católica é hoje uma Igreja em estado de pecado. Não admira então que tenha cada vez menos membros. E que aqueles membros que ela ainda mantém, sejam tão tristes, tão oprimidos/deprimidos, tão amargos/amargurados.
Sublinho, entretanto, que outra coisa muito diferente é o celibato livremente assumido por amor do Reino/Reinado de Deus. Como sabemos, sempre tem havido, ao longo da História, algumas pessoas, mulheres e homens, que decidem entregar-se tanto e de modo tão radical às grandes causas da Humanidade, que o celibato lhes aparece como uma via mais propícia que o casamento. Mas é claro que um celibato assim já não terá nada a ver com auto-castração, como acontece com o celibato imposto por lei eclesiástica. Pelo contrário, há-de ser alimentado por muitos afectos, vividos ao modo de pessoa adulta e sempre na dimensão da gratuidade, com muita entrega de vida e muita alegria.
Já para se ser padre-funcionário eclesiástico, num quotidiano feito de rotinas, como é hoje o caso de um qualquer pároco de aldeia ou de cidade, anos e anos à frente da mesma paróquia, o celibato deixa de ter qualquer sentido, pior ainda, se for obrigatório, como acontece, desde há séculos na Igreja católica ocidental. Aliás, celibato pelo celibato é uma forma refinada de castração, que os cultos à grande deusa mítica virgem e mãe, anteriores ao próprio Cristianismo, já promoviam com sucesso entre os rapazes que pretendiam servir nos seus templos e altares. Como tal, é gerador de súbditos, de homens amantes do dinheiro, de funcionários do sagrado, estéreis, misóginos, numa palavra, homens dedicados a causas relacionadas com a alienação religiosa e com a fuga do mundo. Por isso, sem audácia para fazerem suas as grandes causas da Humanidade que, muitas vezes, exigem grandes combates martiriais, vidas pessoais fortemente militantes, longe das seguranças e dos privilégios que as casas paroquiais e os campanários geralmente garantem a quem por lá se movimenta.

I-Uma mulher poderia ser um bom sacerdote?

PM-Mulheres presbíteras na Igreja será a grande realidade de amanhã, também na Igreja católica. Ou assim, ou a Igreja católica acabará riscada da sociedade. E, se ainda vier a continuar nela, será apenas como coisa de museu, por isso, sem a força transformadora do fermento, nem a fecundidade do grão de trigo que morre sob a terra para dar muito fruto. Na Bíblia em geral e no Evangelho de Jesus em especial não há nada que impeça este passo em frente, por parte da Igreja católica, em relação à ordenação de mulheres. Pelo contrário. Tudo hoje está a chamar para aí, de modo que não avançar nessa direcção, a pretexto de nos mantermos fiéis a uma prática eclesiástica anterior de ordenação só de homens e homens sem mulher, é pecar, e pecar com contumácia contra o Espírito Santo. Ou o Espírito Santo não esteja aí a clamar nos sinais dos tempos que as mulheres, tanto como os homens, estão chamadas a ocupar lugares de decisão e de direcção, em radical igualdade com eles, seja na sociedade em geral, seja nas Igrejas, em especial. De resto, é bom que, também aqui, as Igrejas dêem o exemplo, abram caminhos ainda não andados, em lugar de seguirem a reboque da sociedade, como carros vassouras da História.

I-O movimento carismático tentou recuperar para o catolicismo fiéis que perdeu para confissões evangélicas, usando meios muito parecidos aos que usava, por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus. Será este o caminho certo? Alguma vez viu o canal carismático “Canção Nova”?

PM-Não creio que seja esse o caminho certo. Vi algumas vezes o canal “Canção Nova”, no tempo em que ele ainda não tinha passado a codificado, e fiquei ainda mais convencido que o caminho não é por aí. Já S. Paulo, por volta do ano 50 da nossa era, se insurgia contra os “carismáticos” da Comunidade de Corinto que falavam “línguas” que ninguém entendia e mantinham outros comportamentos bizarros completamente estéreis e alienantes. A prática de Jesus de Nazaré também nunca foi por aí. E o Evangelho de João atreve-se a dizer que apenas a prática de Jesus é a correcta, quando no-lo apresenta a proclamar, alto e bom som: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Admito que um certo sector da Igreja católica se converteu oportunistamente aos métodos da Igreja Universal do Reino de Deus, certamente, com o objectivo de tentar estancar a perda de milhares de fiéis todos os anos a favor das novas Igrejas evangélicas. Mas esses métodos têm mais de demoníaco do que de jesuânico. Alienam as pessoas. Manipulam a consciência das pessoas. São mentira. Exploram financeiramente as pessoas até ao osso, em especial as pessoas com graves problemas de saúde e de droga. Para além de as aterrorizar. Por outro lado, tornam as pessoas confrangedoramente dependentes dos cultos periódicos e dos pastores com jeito para o comércio religioso e para o blá-blá-blá com sotaque brasileiro. Para cúmulo, retiram as pessoas das lutas e das intervenções políticas. Mantêm-nas num fideísmo infantil e ingénuo, e num milagrismo alienante, de bradar aos céus. Com o passar dos dias, percebe-se também que esses são métodos que matam a originalidade e a criatividade das pessoas, o que eu chamo verdadeiros casos de polícia e dos Tribunais. Infelizmente, ninguém actua, certamente em nome da liberdade religiosa, mesmo quando esta, como é manifesto no caso destas novas Igrejas-seita, a liberdade religiosa é sobretudo liberdade para matar, roubar e destruir o que há de melhor e de mais genuíno em cada pessoa. É caso para dizer que carismáticos assim só o podem ser, não do Deus-Espírito Santo, mas do Deus-Demoníaco, melhor, do Deus-Dinheiro, que os pastores que estão à frente dessas Igrejas, assim como os padres e responsáveis leigos da “Canção Nova” fazem tudo para sacar a quem tem a desgraça de lhes cair nas mãos, digo, nas garras.

I-Em entrevista ao Jornal de Notícias, o padre José Luís Borga chamou-lhe “doente.” Não querendo fazer disto um ajuste de contas, qual a sua opinião acerca do padre Borga enquanto artista e figura mediática?

PM-É verdade, o meu colega Pe. Luís Borga chamou-me “doente”. E no contexto em que o fez, só poderá entender-se doente do foro psiquiátrico. Por outras palavras, chamou-me “louco”. Não se pode dizer que essa sua opinião a meu respeito tenha sido inspirada pelo Espírito de Deus, uma vez que é uma opinião que atenta contra o que nos recomenda Jesus, no Evangelho de Mateus. Em concreto, diz Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá que responder em juízo. Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar «imbecil» será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar «louco» será réu da Geena do fogo” (Mt 5, 21-22). Surpreendeu-me essa opinião caluniosa, tanto mais quanto o meu colega Pe. Luís Borga, até hoje, nunca se me dirigiu, nem de viva voz, nem por escrito. Se é assim que ele me vê e se, como ele próprio diz nessa entrevista, me tem como seu irmão no presbiterado, então já poderia ter tido comigo alguma manifestação de cuidado e de ternura fraternal. Nunca teve. Entretanto, é bom lembrar que a opinião caluniosa que o meu colega Pe. Luís Borga lança contra mim sempre foi lançada também contra aquelas pessoas que, no seu tempo histórico, têm tido a audácia da dissidência, da liberdade, da autonomia, da fidelidade à verdade que nos faz livres. Ao chamar-me “louco”, o meu colega Pe. Luís Borga colocou-me sem querer em boas companhias. Não é verdade que também chamaram “louco” a Jesus, o de Nazaré? E possesso do demónio? E não disseram que tudo o que ele fazia de libertador e dizia de denúncia era por obra de Belzebu, chefe dos demónios? Por isso, daqui agradeço ao meu colega Pe. Borga essa referência que me fez e esse epíteto que me atribui.
Qual a minha opinião sobre ele? É difícil pronunciar-me porque só o conheço de fugida pela televisão. Apesar de tudo, acho que ele procura, ao seu jeito, ser um padre para este tempo e que é hoje, volens/nolens, o rosto mais mediático da Igreja católica, o que lhe dá uma responsabilidade acrescida. É por isso que, se me é permitido, eu gostava de o sentir muito mais profundo na mensagem que canta, e muito mais profético nas intervenções que faz em público. Sobretudo, gostava de perceber que ele progressivamente se deixa conduzir e guiar pelo Espírito Santo, até poder chegar a ser caluniado de “louco”, como Jesus de Nazaré, pelas minorias dos privilégios que espezinham o Pobre, mesmo quando protagonizam mediáticos gestos de “caridadezinha”.

I-Com tudo o que tem acontecido ultimamente, como vê o futuro do país a curto-médio prazo?

PM-Com este Governo de Paulo Portas/Santana Lopes, o país vai a pique para o abismo. O Inimigo do país e do povo português está hoje no próprio Governo. Parece que cada ministro faz gala de ser ainda pior do que outro. Quando o PR decidiu, à revelia do sentir e do querer da esmagadora maioria da população, chamar Santana Lopes a formar governo e, dias depois, o empossou como o primeiro-ministro de Portugal, insurgi-me e gritei por uma nacional Insurreição Cívica que nos levasse a eleições antecipadas. Infelizmente, não fui ouvido, nem sequer pelos grandes meios de comunicação social. Nenhum deles se fez eco do meu grito. Hoje continuo a não ver outra saída. Ou damos corpo rapidamente a uma nacional Insurreição Cívica, rumo a eleições antecipadas, por demissão deste Governo, ou acabámos caídos numa nacional Depressão Cívica, de onde será muito difícil sair. O fascismo que nos infantilizou e castrou, como povo, até ao 25 de Abril, já está aí de novo e em força. Reciclado, evidentemente. Todos estes anos depois, nunca chegamos a ser devidamente curados das sequelas que o fascismo nos deixou. E, por isso, o fascismo, devidamente reciclado, pode sempre regressar a qualquer momento. Ainda encontra muita gente que lhe dê guarida. Está à vista de todas as pessoas que assim é. Com a agravante de que, nesta altura, não há, organizada no terreno, como antigamente havia, uma acção de resistência, a trabalhar na clandestinidade. Começa a ser necessário voltar a essa acção de resistência clandestina, mas em moldes novos, adaptados ao nosso hoje. Organizemos, pois, de novo a resistência activa. Mobilizemo-nos. Cumpramos aquele axioma revolucionário que diz: Façamos sempre o contrário do que o Inimigo quer. Para que o Governo e os seus ministros fiquem sozinhos, a bater furiosamente com a cabeça contra as paredes.

I-E do mundo?

PM-Hoje, o nosso mundo está totalmente dominado pelo Império. Mas a História mostra-nos que o Império, por mais poderoso que seja, tem sempre pés de barro. O 11 de Setembro e o 11 de Março foram os dois últimos grandes apocalipses (= revelações) que nos tiraram a venda dos olhos acerca do Império. Por isso, se corrermos a cerrar fileiras contra o Império, abriremos novas oportunidades ao nosso presente. Se, pelo contrário, nos deixarmos enfeitiçar e seduzir pelo discurso do Império e corrermos a cerrar fileiras ao lado dele, então preparemo-nos para um prolongado Inverno no planeta. O Império, por mais hábil que seja no seu discurso e por mais poderoso que seja nos seus exércitos, é sempre mentiroso e assassino. Quando parece que protege, aprisiona e escraviza. Quando parece que salva, mata sem dó nem piedade. Despertemos, pois. Arregalemos bem os olhos do corpo e sobretudo da consciência. Se corrermos para o Império, é certo e sabido que morreremos castrados/assassinados por ele. Cerremos então fileiras contra o Império. Descubramos onde ele esconde os seus pés de barro. E apontemos para aí todas as nossas energias, todas as pedras das nossas fundas, como fez David contra Golias. É hora de passar à acção concertada: Por isso, grito daqui de Macieira da Lixa: Empobrecidos e Oprimidos de todo o mundo, uni-vos! Na esperança. E também na acção política libertadora e revolucionária, da qual resulte uma nova Ordem Mundial a favor da Vida e vida em abundância para todos os povos.

I-Até que ponto a Igreja Católica se afastou da mensagem original de Cristo?

PM-De Cristo, sem mais, a Igreja católica pode não se ter afastado muito. Pode até ter-se identificado com ele. Estou a pensar, é claro, no Cristo do Império romano, mais ou menos identificado, naquele tempo, com o próprio Imperador. Mas de Jesus, o de Nazaré, sim, a Igreja católica afastou-se quase cem por cento. Também se afastou quase cem por cento de Cristo, mas apenas daquele Cristo Crucificado pelo Império e pelo Templo, que era, afinal, o próprio Jesus de Nazaré, pelo menos, no desassombrado testemunhar das suas discípulas e dos seus discípulos, que não hesitaram em colar para sempre esse título messiânico, libertador, ao seu nome histórico.
Jesus, como testemunha o Evangelho, resistiu até ao sangue contra o Império e as suas seduções. A Igreja, ao contrário, acabou por cair nos braços do Império e disse sim a todas as suas seduções. Felizmente, sempre houve, através dos tempos, Igreja que resistiu até ao sangue contra o Império, concretamente a Igreja dos mártires assassinados e de muitos outros mártires incruentos, alguns deles, martirizados como “hereges” pela perseguição assassina da própria Igreja oficial, amancebada com o Império e que, numa postura de manifesta traição, aceitou transformar-se de via ou caminho de libertação para a liberdade, que inicialmente era, em religião, e, depois, pior ainda, em religião oficial do Império. Foi uma Igreja assim, em estado de completa traição ao Evangelho, que acabou a identificar Jesus, o Crucificado pelo Império, com o Cristo divinizado pelo Império. É por isso que o que hoje chamamos Cristianismo é sobretudo Paganismo, melhor, Cristianismo paganizado. Quase não tem nada a ver com Jesus, o de Nazaré, que o Templo e o Império mataram, depois de o terem prendido e julgado sumariamente. É neste ponto que estamos ainda hoje. E de onde havemos de sair quanto antes. Para tanto, havemos de resgatar Jesus do Cristianismo paganizado, braço moralista e religioso do Império. E com ele e como ele, havemos de saber resistir ao Império. Para que o Império dê finalmente lugar à Humanidade em estado de maioridade, ilustrada, emancipada, protagonista, e totalmente ocupada na edificação do mundo como sua casa comum, de cuja mesa comunitária ninguém, indivíduo ou povo, fique excluído.

I-Entrando no domínio da fantasia, imagine que era escolhido para ser Papa. Quais as três primeiras coisas a fazer?

PM-Nem no domínio da fantasia sou capaz de me ver no papel de Papa. Aliás, como cristão seguidor de Jesus, nunca eu aceitaria semelhante título e semelhante papel. Por isso, resumo aqui as três primeiras coisas a fazer numa só. Formulo-a assim: Seja convocado quanto antes um Concílio macro-ecuménico que acabe de imediato com essa aberração institucional eclesiástica que é hoje o papado chefe de Estado do Vaticano, celibatário à força, patriarcalista, monarca absoluto, infalível, e com a Cúria romana que sempre tem feito gato-sapato do papa de turno, sobretudo, quando este não tem o carisma de um João XXIII ou de um João Paulo I. E que, em seu lugar, o mesmo Concílio se atreva a criar um Serviço maiêutico de Coordenação/animação da Igreja, na linha do Servo de Iahvé, do Profeta Isaías, constituído por mulheres e homens dos cinco continentes, em cujas vidas históricas sobressaia a presença actuante da mesma Fé de Jesus, escolhidos e aclamados por toda a Igreja, segundo métodos que o Espírito Santo não deixará indubitavelmente de inspirar.

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