Inépcia: s.f. (do latim "ineptia") 1-Falta de aptidão ou habilidade. 2-Imbecilidade 3-Acto ou dito absurdo.
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Direcção-Geral de Saúde confirma surto de patriotismo

Depois da doença das vacas loucas, da meningite e da pneumonia atípica, Portugal enfrenta mais um surto epidémico que se distingue dos anteriores por ser real e não atingir apenas bovídeos. De acordo com dados da Direcção-Geral de Saúde, o número de portugueses infectado com o vírus do patriotismo aumentou de forma alarmante ao longo dos últimos meses com especial incidência no período em que decorreu o campeonato europeu de futebol.

Para o director-geral de saúde, José Pereira Miguel, “a situação está fora de controle mas já estão a ser tomadas medidas para controlar o surto antes que seja tarde demais.” Confrontado com o facto de o organismo que dirige partilhar a sigla com a antiga polícia política do Estado Novo na sua versão posterior à “primavera marcelista,” Pereira Miguel avisou que “é melhor estarem caladinhos se não quiserem fazer umas férias forçadas no forte de Peniche, comunas do raio que os parta. Vão mas é para a Rússia, bolcheviques de merda!”

O patriotismo é uma doença endémica nalgumas partes do globo mas não tinha um impacto relevante em território nacional desde os primeiros anos da década de 70. Tradicionalmente, há aumentos periódicos do número de casos relacionados com a ocorrência de um conjunto de circunstâncias propícias tais como a realização de eventos desportivos envolvendo atletas nacionais ou visitas estivais de emigrantes portugueses no estrangeiro.

Se for detectado a tempo, o patriotismo pode ser tratado com antibióticos e casamentos reais espanhóis mas, uma vez contraída, a doença é incurável podendo apenas ser remetida para um estado de latência. O patriota, mesmo medicado, terá de ter cuidados especiais durante toda a vida, abstendo-se de ver jogos da selecção nacional de futebol, não vendo os programas de José Hermano Saraiva e saindo do país por alturas do 10 de Junho.

Entre os principais sintomas da doença, encontram-se a tendência para pendurar bandeiras na janela, um impulso irresistível para cantar “A Portuguesa” e que pode surgir nas situações mais inconvenientes, ou uma ligeira paralisia cerebral que poderá levar o doente a preferir produtos nacionais mesmo quando são de qualidade inferior ou a acreditar que Portugal tem relevância semelhante à de outros países com maior peso na cena internacional como a Lituânia, o Bangladesh ou a Costa Rica, por exemplo. Pouco se sabe acerca das formas de contágio mas estudos recentes mostram que grande parte dos portugueses que contraíram a doença nos últimos tempos era espectadora assídua da edição de Domingo do Jornal Nacional da TVI.

Para quaisquer esclarecimentos adicionais acerca do patriotismo, deverão ser contactadas ou a Direcção-Geral de Saúde ou a UNDP (União Nacional dos Doentes Patriotas), organização formada com o objectivo de divulgar a doença e dar apoio aos que dela sofrem. O porta-voz da UNDP é o popular cantor Toy, ele próprio um sofredor de patriotismo há mais de dez anos.
“Estamos aqui para ajudar as pessoas que precisem e não saibam como lidar com esta doença,” refere. Toy foi infectado quando fazia um concerto para a comunidade portuguesa do Luxemburgo, provavelmente, por ter comido um pastel de bacalhau fora do prazo. Actualmente, o cantor está a ser medicado e encontra-se em condição estável mas pode a qualquer momento voltar à defesa militante de algo a que chama “música portuguesa” e que considera dever passar mais nas rádios.
Um outro doente famoso é Roberto Leal mas, de acordo com os médicos, o patriotismo encontra-se de tal maneira instalado no seu organismo que já não tem cura possível.

Prevê-se para breve o início de uma campanha de vacinação, logo que chegue o carregamento de vacinas já encomendado pelas autoridades de saúde. A vacina também é produzida em Portugal mas é de qualidade inferior à da vacina produzida no estrangeiro e custa três vezes mais. O lema da campanha será “Deixe de ser idiota. Não queira ser patriota.”

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