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Sonhemos, irmãos

Portugal 2006, a euforia da vitória

Custa a crer que já tenham passado dez anos. Primeiro foi a vitória no Mundial de 2006 em que a selecção chegou à final e derrotou o Togo com um golo de Maniche sem resposta, depois de ter ultrapassado equipas como a Argentina, a Inglaterra e o Brasil. Nem mesmo as críticas de que os jogadores africanos não se tinham aplicado a 100% devido à subnutrição conseguiram evitar as duas semanas de euforia que se seguiram ao regresso dos jogadores a Lisboa com a taça. O Governo decretou um mês de feriado nacional, que se repetiria todos os anos, e o Presidente da República condecorou Luiz Felipe Scolari com uma ordem honorífica criada exclusivamente para o efeito, a Ordem da Custódia, cujo colar foi elaborado com o ouro derretido da Custódia de Belém. O treinador disse adeus aos portugueses e foi treinar o Real Madrid para Espanha que, duas épocas mais tarde, disputava os lugares de despromoção na segunda divisão com o Albacete e o Tenerife.

A euforia futebolística contaminou toda a sociedade e não tardou até o primeiro-ministro, José Sócrates, anunciar que Portugal entraria numa nova era, uma era de prosperidade sem limites, e assinar os documentos pelos quais o país renunciava a receber fundos da União Europeia, decisão aplaudida por todos os partidos. No dia seguinte ao anúncio, as empresas internacionais estabelecidas no país mudaram-se para a Eslováquia e as empresas nacionais fizeram o mesmo dois dias mais tarde. As principais actividades económicas portuguesas passaram a ser a colecta de impostos e os jogos de fortuna e azar da Santa Casa da Misericórdia, de imediato nacionalizada e com falência decretada nos dois meses que se seguiram. Para evitar que os níveis de desemprego atingissem proporções dignas do continente africano, o Estado contratou todos os cidadãos em idade útil como funcionários públicos, cancelou o pagamento de reformas por tempo indefinido e desmantelou a rede ferroviária, eléctrica e de telecomunicações para vender os componentes para a sucata e poder angariar fundos para pagar a parcela que faltava do prémio de Scolari.

O governo cai depois de inaugurar o maior parque aquático da Europa no Algarve que permanece aberto durante apenas três semanas até esgotar todas as reservas de água do país, dando início a uma longa seca de quatro anos que reduziu a população para metade (mas que conseguiu fazer o mesmo ao desemprego).

O fadista Nuno da Câmara Pereira vence as eleições legislativas ao leme do recém-formado Partido Nacional Marialva (PNM) e promove a realização de um referendo que restabelece a monarquia em Portugal. Vicente da Câmara é coroado o primeiro rei da dinastia dos Câmaras, morrendo dois dias depois da coroação, vítima de cornada sofrida numa largada de touros na Chamusca. Sucede-lhe o filho José (José II), assassinado com o lançamento de uma senhora muito gorda do alto de um segundo andar quando fazia visita oficial ao Barreiro. Gonçalo I reinou apenas durante um mês, morrendo com uma overdose de testosterona e foi sucedido por Nuno (Nuno I) que acumulou os cargos de monarca e primeiro-ministro e passou a governar de forma absoluta.
Uma das suas primeiras decisões foi declarar guerra a Espanha e, em meados de 2010, Portugal ocupa Olivença e grupos de comandos invadem o Corte Inglês de Lisboa e Gaia e saem sem pagar as compras. Na mesma altura, os Açores demarcam-se do conflito e tornam-se o 52º estado americano (o Irão tornara-se o 51º no ano anterior). A Madeira é invadida por tropas marroquinas depois de o rei Mohammed VI ter recusado o convite para uma visita oficial ao arquipélago e Alberto João Jardim ter pedido aos madeirenses para virarem as extremidades posteriores para Leste e “mandarem umas valentes bufas àqueles mauritanos dum raio.” Reagindo à ofensiva portuguesa, a Espanha acciona a sua “solução final,” fazendo detonar os explosivos colocados ao longo de toda a fronteira e lançando o território português à deriva pelo Atlântico fora até se fixar ao largo da América Central.

Foi o melhor que nos podia ter acontecido. Houve grande empatia com os nossos novos vizinhos desde o início (ultrapassado o conflito fronteiriço com o Belize e a guerra com a Guatemala desencadeada pela TVI como novo reality-show) e depressa nos tornámos num exemplo de desenvolvimento e estabilidade na região, atrás apenas do México, da Costa Rica, do Panamá, da Nicarágua, da República Dominicana e das Honduras.

Quanto ao futebol, a causa de toda esta mudança, também mudou bastante. O FC Porto acaba de vencer pela terceira vez consecutiva a Liga dos Campeões Centro-Americanos (apesar das acusações de corrupção e falsificação de resultados a que já ninguém liga) e a selecção, depois da suspensão de sete anos que se seguiu ao amigável com a Hungria, durante o qual Cristiano Ronaldo se enfureceu com os largos minutos em que o público húngaro não gritou o seu nome e acabou por violar metade dos 37 mil espectadores, estamos bem encaminhados para chegar ao Mundial de 2018 na Coreia do Norte. Só falta ganhar à Jamaica por mais de quatro golos de diferença e esperar que Cuba ganhe a Barbados e o Panamá não sofra cinco golos sem resposta frente a El Salvador.

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