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Relação de toda a gente que já foi tramada por Mário Soares – De Álvaro Cunhal a Manuel Alegre

Estadista, animal político, figura de relevância incontornável na história do Portugal moderno, pai de João Soares e dono de um par de bochechas de fazer inveja a muita actriz de Hollywood (se bem que em comparação com bochechas posicionadas mais a sul), Mário Soares é o tipo de pessoa a que ninguém consegue ser indiferente. Quem dele gosta, vê nele o pai da democracia nacional, conseguindo até alguns perdoar-lhe a descendência. Os seus detractores chamam-lhe “perigoso esquerdalho” ou “lacaio da reacção,” conforme a filiação partidária, havendo até quem lhe chame “grandessíssimo chupador de faisões com caspa” (um ex-PIDE octogenário que já não diz coisa com coisa desde 1982 e passa o tempo a presentear toda a gente com insultos absurdos que só fazem sentido dentro do seu cérebro carcomido pela senilidade). No entanto, é um facto inegável que Soares já tramou muita gente ao longo da sua vida. A alguns, fê-lo de forma consciente e motivado pelo que considerava um bem maior, a outros fê-lo por motivos menos nobres. A outros ainda foi por acidente e a alguns (poucos) tramou-os sem qualquer motivo e só porque lhe apeteceu na altura e não estava a dar nada de jeito na televisão. Independentemente dos motivos e com o relativismo do conceito de “tramar alguém” sempre presente, aqui fica uma esmerada relação cronológica de todos aqueles que, de alguma forma, já foram tramados por alguém que muitas vezes se tem dito ser “fixe.”

Álvaro Cunhal – Tudo começou com o distanciamento de Soares dos ideais comunistas que viria a culminar na fundação do Partido Socialista que Cunhal sempre considerou um plágio desleal do seu partido. A partir daí, as relações entre os dois foram-se tornado cada vez mais tensas. Nas primeiras celebrações do Dia do Trabalhador a seguir à Revolução dos Cravos, o célebre abraço entre os dois escondia o facto de Cunhal ter os dois pés fincados com força sobre os de Soares que aproveitou a proximidade para lhe colar nas costas um papel com os dizeres “Sou burguês. Nacionalizem-me”. Noutro momento que ficou para a história, o discurso de Mário Soares para uma Alameda inundada de gente em pleno Verão Quente de 75, um erro de interpretação seria registado como mais um ataque a Cunhal. Como poucos saberão, os “paranóicos” a que o líder socialista então se referiu não eram os comunistas mas sim um grupo intitulado “Exército de Defesa Contra Ameaças Cósmicas” que acusava Soares de ser emissário de um império galáctico extraterrestre (o que não correspondia à verdade visto que o seu primeiro contacto com civilizações de fora do planeta ocorreu durante visita presidencial em 1989 aos chicharros robóticos do planeta Júpiter). A derradeira facada de Soares em Cunhal, com o debate do “olhe que não” pelo meio, foi dada com a morte do segundo em 2005, permitindo-lhe abusar dos testemunhos “in memoriam” em que dizia o que bem entendesse sem qualquer possibilidade de resposta do “inimigo de estimação” (não levando em consideração a maquineta instalada no recinto da última Festa do Avante em que, inserindo uma moeda de 50 cêntimos, era possível ouvir montagens dos melhores momentos dos discursos do líder carismático).

O socialismo – De acordo com um dos lugares-comuns mais vezes repetidos na política portuguesa, depois de conquistar o poder, uma das primeiras acções de Soares foi meter o socialismo na gaveta. E a verdade é que a governação do primeiro líder socialista eleito em Portugal esteve muito distante dos princípios orientadores da doutrina socialista. No entanto, a expressão não deixa de ser errónea visto que Soares nunca meteu o socialismo na gaveta. Meteu-o numa caixa de pastéis de feijão atada com cordel que confiou à guarda de Almeida Santos.

Freitas do Amaral – Soares é fixe. O Freitas que se lixe. O cruel slogan repetido até à exaustão pelos apoiantes soaristas nas presidenciais de 86 é lembrado até aos dias de hoje (ainda que tendo a segunda parte censurada com frequência). Depois de vencer a primeira volta, Freitas ver-se-ia derrotado e remetido para uma eterna posição secundária em comparações directas com o vencedor. Muito mais esforçado do que Soares, escrevendo livros e peças de teatro, ocupando cargos de relevo como a presidência da Assembleia-Geral da ONU, sendo convidado para o governo de um partido diametralmente oposto ao que ajudou a fundar, construindo sublimes miniaturas à escala dos joelhos de personalidades célebres da história mundial (enquanto Soares se limitou a sorrir, acenar e dançar com peixeiras), Freitas terá sonhado poder ser ele o fixe, ao menos uma vez na vida e lixando outro candidato qualquer, candidatando-se novamente à presidência com o apoio da esquerda moderada. Mas, mais uma vez, voltou a ser ele o lixado. E não será preciso dizer quem foi o responsável.

Cavaco Silva – Quando o primeiro-ministro Cavaco Silva (que muitos diziam ter um carisma e magnetismo pessoal semelhantes aos da estátua do Marquês de Pombal em Lisboa) perdeu as estribeiras e pediu que o deixassem trabalhar, Mário Soares era provavelmente um dos principais visados. E não por usar os seus poderes presidenciais para colocar entraves à governação sustentada por maiorias absolutas no Parlamento, como se possa pensar. Dizem os colaboradores mais próximos de Cavaco que o então Presidente chegava a ligar cinco vezes por dia, interrompendo o primeiro-ministro com partidas de mau gosto (pondo, por exemplo, o pobre homem a gritar ao telefone que já tinha ligado para a embaixada e não havia ninguém na representação diplomática chinesa que se chamasse Xi Xi Kama). As próximas presidenciais poderão ser o momento da vingança. Ou não.

Roger Rabbit – Respondendo à questão que serviu de título ao filme que apresentou o simpático coelho ao mundo, foi Mário Soares que tramou Roger Rabbit. Os pormenores não vêm ao caso mas bastará dizer que houve faiança tradicional das Caldas envolvida no assunto e uma certa passagem de ano num rés-do-chão alugado na Nazaré.

Manuel Alegre – Os poetas lixam-se sempre. São ossos do ofício. Afinal, a veia poética necessita de uma certa propensão para ser tramado (pelos outros, pelas outras, pela vida, pelo mundo) para poder desenvolver-se e isso explica a inexistência de grandes poetas felizes (ninguém faz versos subordinados ao tema “ai que belo dia eu tive hoje” a não ser que o dia tenha terminado com o diagnóstico de uma doença venérea de difícil cura). Primeiro, o PS não tinha candidato à presidência e começava a gerar-se um certo pânico. A seguir, Manuel Alegre lá aceitou saltar para a ribalta política e disponibilizou-se a assumir uma candidatura algo contrafeita mas pelo bem da nação. Depois, veio Soares e lembrou-se que lhe apetecia ser Presidente mais uma vez. Mas, pelo menos, fica com uma bela inspiração para um livro de sonetos rancorosos. A vida é dura, Manel. Muito dura.

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