Inépcia: s.f. (do latim "ineptia") 1-Falta de aptidão ou habilidade. 2-Imbecilidade 3-Acto ou dito absurdo.
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Timorenses descobrem que ser independente não é tão porreiro como parecia

Dois anos após a declaração de independência daquele que continua a ser o mais jovem estado independente do mundo, os cidadãos de Timor-Leste dão sinais de estar algo desiludidos com a independência. Os motivos dessa desilusão prendem-se sobretudo com as difíceis condições de vida que a população tem de enfrentar, apesar dos louvores da comunidade internacional a respeito da evolução que os timorenses têm conseguido em vários aspectos mas que não terá assim tanta importância visto que, da forma como Timor estava, a situação só poderia melhorar.

José Guterres é proprietário de uma banca no mercado de Díli onde vende maços de tabaco vazios. O negócio não lhe corre mal por haver um mercado cada vez maior de fumadores sem dinheiro para cigarros indonésios e que se vêem forçados a satisfazer o vício da nicotina com o cheiro a tabaco que subsiste nos pacotes. Antes da independência, trabalhava num supermercado. O ordenado era baixo mas sempre ia dando para sobreviver. Hoje, considera que a sua situação melhorou. Quando o questionamos sobre a sinceridade desta afirmação, diz-nos: “Eu vendo maços de tabaco vazios. Acham mesmo que estou a mentir?”

Do outro lado do mercado, Deolinda Guterres negoceia em apitos. Quando nos vê passar, sopra num dos seus potentes apitos artesanais para chamar a atenção. Pergunta se somos portugueses. Respondemos que sim e queremos saber se está contente com a independência. Diz-nos que sim e que, mesmo quando trabalhava como recepcionista do melhor hotel de Díli, era com uma carreira no emocionante mundo dos apitos que sonhava.

Mas nem todos os timorenses se mostram tão optimistas. Os problemas do país são inúmeros. Faltam fundos públicos para construir infraestruturas novas e reconstruir ou recuperar as já existentes e que se foram degradando com o tempo ou foram destruídas pelos confrontos anteriores à independência. O dinheiro da concessão da exploração petrolífera tarda em chegar. O desemprego é quase geral. Timorenses de todas as idades vêem-se forçados a lutar diariamente pela sua sobrevivência. As actividades económicas limitam-se à agricultura de subsistência e a algum pequeno comércio. Resumindo, na actual situação, Timor não é o país mais agradável para se viver.

É o que nos confirma Adelino Guterres, director da biblioteca de Díli, um edifício monumental quando comparado com o resto da cidade e com uma vastíssima colecção composta por exemplares da revista TV Guia dos anos 80 e por uma lista telefónica da margem Sul do Tejo, tudo oferecido por beneméritos portugueses. “Ainda no outro dia, organizámos um debate sobre os horários do boletim meteorológico da RTP no ano de 1984 e sua relação com o crescimento exponencial do número de telefones do Laranjeiro e chegámos à conclusão de que as coisas não estão nada bem.” Como principais problemas aponta “o desemprego, a estagnação e esta porcaria de metade da população do país se chamar Guterres.”

Para o primeiro-ministro Mari Alkatiri, “a situação está má, somos os primeiros a reconhecê-lo, mas estamos a fazer os possíveis para a melhorar e já se notam alguns desenvolvimentos. Estamos a desenvolver um programa de esclarecimento junto da população para fazer ver que existem mais apelidos que podem ser usados para além de Guterres” e acrescenta que “ainda no mês passado tivemos duas crianças que foram baptizadas com os apelidos Pereira, Fonseca e Costa.”

A Inépcia tentou contactar o presidente Xanana Gusmão para obter declarações mas fomos informados de que tal não seria possível por o presidente se encontrar a disputar um desafio de futebol contra uma selecção de salesianos de Baucau no baldio por trás da sua residência oficial. No entanto, conseguimos marcar uma entrevista exclusiva para a próxima semana, se não nos importarmos de ficar à baliza.

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