E-zine satírico sem corantes nem conservantes

Os paladinos da democracia

Triste vida a de um Deputado da Nação

Eles são os representantes eleitos do povo português. Cabe-lhes a responsabilidade suprema de dar voz aos cidadãos nos púlpitos da República e de zelar pelos seus interesses e direitos. É uma tarefa que não estará ao alcance de qualquer um, exigindo capacidade sobre-humana de sacrifício dos interesses pessoais aos mais altos valores do Estado e uma resistência física que permita suportar o esforço que as funções envolvem.

E, no entanto, em vez de serem louvados pelo povo que tão galantemente servem, os deputados são muitas vezes achincalhados na praça pública, acusados das mais perversas vilanias, vendo a sua honestidade e ideais questionados sem apelo nem agravo e merecendo quase, aos olhos do povo a que servem, a classificação de malfeitores e oportunistas. Se ao menos esse mesmo povo conhecesse os sacrifícios inerentes às funções de deputado, talvez não fosse tão cruel nem tão rápido a apontar qualidades negativas onde, muitas vezes, nem as há.

Eleutério Pacheco é deputado desde 1991. Longe vão já os tempos de graça da maioria absoluta do seu partido em que a oposição parlamentar era um mero pro forma. Diz que sentiu a dureza do trabalho parlamentar desde o primeiro momento. “Entrei no hemiciclo pela primeira vez num dia quente em que o ar condicionado estava avariado. Foi um inferno passar ali duas horas inteiras a discutir se as escrituras notariais deveriam ou não começar a ser redigidas obrigatoriamente em papel reciclado,” lembra. Nos dias que se seguiram, as dificuldades não desapareceram, agravando-se e exigindo adaptação imediata. “Eram oito horas intensas de trabalho. Em semanas de maior actividade política, com a participação nas várias comissões de especialidade, chegava mesmo às dez.” Cerca de duas horas por dia em que se via forçado a negligenciar as funções de vogal da Associação Industrial do Vale do Ave, graças a cujo apoio valioso conseguiu a entrada na política pela porta principal.

Problema semelhante não teve Aldo Pintor, filho de uma família humilde dos arredores de Beja e habituado a trabalhar desde pequeno no campo, de Sol a Sol e com remuneração quase nula como era hábito antes de Abril de 74. Com a revolução veio a abertura de horizontes. Primeiro, inscreveu-se na Cooperativa de Agricultores local e, em pouco tempo, passou a liderá-la. Orientou os camponeses na luta pela reforma agrária e, em pleno Verão Quente, conseguiu pô-la em prática, dividindo uma grande herdade de latifúndio, abandonada pelo proprietário, em pequenas parcelas distribuídas pelos membros da Cooperativa que a trabalhariam livremente e dela colheriam benefícios, pondo metade da colheita de parte em benefício do “Camarada Aldo,” como então era conhecido. Este modelo de “socialismo feudalista” foi criado por si e mereceu até honras de estudo académico na conceituada universidade belga de Lovaina.

Quando, mais tarde, tentou convencer os associados a conceder-lhe direito de defloração das jovens casadoiras, foi expulso e, magoado, inscreveu-se no partido que melhor lhe permitiria desenvolver os seus ideais políticos, chegando ao Parlamento em 1979. “O trabalho nunca me assustou. Quem se dispõe a fazer rodagem a duas gaiatas por dia também aguenta ouvir um discurso de setenta minutos do Sá Carneiro. O pior era o dinheiro,” explica.
Mesmo com as obrigatórias contribuições para os cofres do partido, sobrava a Aldo muito dinheiro da sua remuneração parlamentar, algo a que não estava habituado. Com a passagem dos anos, os zeros foram aumentando e Aldo deu consigo numa posição de milionário muito pouco condizente com as suas convicções revolucionárias. “Pensei muitas vezes em distribuí-lo pelos trabalhadores mas apercebi-me a tempo de que isso seria muito parecido com o hábito burguês e obscurantista da esmola. Não me restou opção. Já vou na terceira vivenda com piscina e tenho as filhas a estudar com casa posta na América,” refere com mágoa indisfarçável e os olhos aguados.

Gustavo Pinto Valsassina foi colega de bancada de Aldo Pintor durante cerca de dois anos. Eleito em 2002, trocou a esquerda pela direita quando percebeu que não era o marxismo-leninismo, afinal, a ideologia com que mais se identificava mas sim a democracia cristã. Não foi a primeira vez que mudou de campo político. Já antes tinha trocado os ideais monárquicos pelo anarco-sindicalismo, este pelo nacionalismo de extrema-direita, dedicando-se, em seguida, de corpo e alma à equitação, que serviria de inspiração ao comunismo posterior. Confessa-se um político de corpo e alma e diz viver para servir a causa pública. Mas não nega que já passou por maus bocados graças ao cargo de deputado, sobretudo a nível familiar. A meio do seu primeiro mandato, a mulher pediu-lhe o divórcio, cansada de ser trocada pelo busto marmóreo da República no centro das atenções do marido. Com o passar dos meses, três das suas cinco companheiras extra-conjugais também o abandonaram, mantendo-se apenas a que é menor de idade e a deficiente profunda. Política e amor parecem não ser compatíveis.

A reflexão pessoal de Gustavo, um homem que sacrificou o amor (ou uma boa parte dele) ao serviço do seu país, acaba por sintetizar o que muitos destes homens e mulheres pensam. “É uma chatice ter de puxar do cartão de deputado para passar à frente nas filas ou para ver multas perdoadas mas acho que consigo viver com isso. Só gostava era que os mesmos que nos consideram oportunistas, corruptos e irresponsáveis, ou mesmo simples parasitas, percebessem que tudo o que fazemos é em seu benefício.”

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