Manifesto Godá

Jovem. Levanta-te e segue-me. Eu posso indicar-te o caminho. Tenho-te visto a andar sem rumo pela rua, indeciso quanto ao ritmo da passada, com os olhos no chão e a cabeça nas alturas. Não precisas de penar mais. Eu sei para onde queres ir.

Vivemos numa época de crise de valores. Normalmente, quem diz isto está a referir-se ao facto de andarmos todos a interromper gravidezes a torto e a direito sem nos preocuparmos em ir à missa de vez em quando, num perpétuo arraial de fornicação desregrada. Não é a isso que me refiro.

Nas gerações anteriores, passava-se directamente da infância para a idade adulta através do sacramento do matrimónio. Até à idade dos 18, 19, tudo era mais ou menos inocente. Depois disso, o objectivo comum passava a ser encontrar uma cara metade, casar e constituir família, possibilitando o início de um novo ciclo.

Agora, as coisas mudaram. Quem vê a sua adolescência chegar ao fim, hoje em dia, tem um punhado de opções. Ou continua a fazer o mesmo, ou seja, envereda por uma “vida em comum”, uma “relação” mais ou menos oficializada e mais ou menos bem-sucedida (o divórcio também é uma experiência válida e uma separação de facto pode ser tão proveitosa como uma união de facto); ou tem a sorte de encontrar uma ocupação profissional de tal forma enriquecedora que faça esquecer tudo o resto (actor, cantor, futebolista ou secretário-geral da ONU).

Fora isto, é preciso haver qualquer coisa que complemente o trabalho ou o estudo. Há os desportos radicais, o tuning, a criação de pitbulls e rottweillers, o crime, a aquariofilia, a filatelia, a informática, a pedofilia, a observação de aves, a pesca, a caça, o futebol, o ténis, a fórmula 1, o sexo, a masturbação, a masturbação com pittbulls e rottweillers, a masturbação dentro de um aquário com selos de correio e até, para quem gosta de emoções fortes, o folclore.

Mas há gente que, por ter uma educação mais esmerada ou apenas porque as circunstâncias da vida assim o determinaram, acha que está acima disto. Precisam de algo que lhes titile a sofisticação. Que os faça sentir que pertencem a um grupo. E não a um grupo qualquer mas a um grupo de gente que, como eles, tenha gosto apurado, tenha opiniões, saiba apreciar as artes e não ignore que sair de casa sem um saco a tiracolo e um livro de Boris Vian no bolso é como estar nu.

Precisam de ser godás.

E o que vem a ser um godá?

É muito simples.

Comecemos pela pronúncia. Lê-se “gódá” e não “gudá” ou “gôdá” ou qualquer outra variante. Vem de Godard, realizador francês que, não sendo ele um godá propriamente dito, é um dos autores que, para qualquer godá que se preze, fica sempre bem citar e dizer que se conhece o seu trabalho e se gosta muito.

O termo é de minha autoria mas o conceito já existia. A única coisa que faltava era alguém perceber que não é apenas uma particularidade comportamental mas toda uma filosofia de vida. Dizia-se que fulano era intelectual. Ora, ser-se intelectual é bastante desprezível mas não se enquadra na grandiosidade emparvescente da essência do godá. Pacheco Pereira, por exemplo, é um intelectual. Mas nunca ninguém o verá de cachecol cheio de borboto e calças de bombazine a tentar decorar a ficha técnica de um filme eslovaco dos anos 30 a partir de uma brochura da Cinemateca.

Depois há variações de intelectual. “Pseudo-intelectual” ou o “intelectualóide” que já se aproximam mais da natureza do godá. Mas são dois termos arruinados pelo uso e abuso de anos. Hoje em dia, “pseudo-Intelectual” e “intelectualóide” é o que os parvos chamam a toda a gente que é ligeiramente menos parva do que eles à falta de qualificativo mais adequado.

No fundo, há cinco elementos fundamentais que definem a essência do godá. A saber:

1-Aparência

O godá põe as coisas do espírito acima das coisas materiais. Mas as coisas do espírito não dão nas vistas e, por mais culto que se seja, não é por isso que alguém vai reparar em nós no Lux apinhado. O segredo está em vestir de forma aparentemente despreocupada mas garantindo que um conjunto singelo de elementos está sempre presente. O calçado deve ser desportivo e discreto. Ténis de marca mas que não chamem a atenção são o ideal. Calças de ganga só se não houver mais nada no armário. E, mesmo assim, convém que não sejam azuis. No tronco é onde a liberdade é maior. Dá-se preferência a cores sisudas e é melhor não haver nada escrito (o godá lê, o godá não é lido). Se houver alguma coisa escrita que seja arrojada e emblemática (o nome de um festival de cinema underground ou uma frase em inglês carregada de pós-modernidade vanguardista como “My feet smell” ou “I suck cock;” se o arrojo for muito, pode ser em alemão). Para complementar, um saco a tiracolo (simultaneamente prático e requintado), um cachecol (se fizer frio) e um par de óculos de massa (se houver falta de vista ou, mesmo que não haja, se houver dedicação que chegue para isso). Os homens devem usar a barba por fazer e o cabelo despenteado. As mulheres podem andar como quiserem que vão sempre sentir que estão a criar tendências (para além das tendências homossexuais que muitas criam nos godás machos hetero).

2-Gosto

O gosto é o elemento definidor por excelência que faz dos godás tudo aquilo que são e consegue sobrepor-se aos outros quatro pois é por aquilo de que gosta ou finge gostar que um godá se posiciona na hierarquia godárica. A definição do que é ou não gostável em termos de arte não depende de critérios estéticos subjectivos (como sucede com o comum dos mortais) mas sim da seguinte equação matemática: x + y + z / m = r (em que x corresponde ao número de pessoas que não conhecem a manifestação artística em questão-quanto mais elevado o valor, melhor; y é a quantidade de pessoas que poderão ficar impressionadas com a sua referência; z é a importância de quem recomendou; m é a biografia do autor; e r o nível de apreciação). E há uma ressalva que deve ser feita no que diz respeito a cinema. O godá convicto não vê filmes americanos. Até pode já ter feito uma lista dos seus filmes preferidos (os godás gostam de fazer listas e de as comparar com as dos outros godás para ver quem tem a maior) e percebido que uma boa parte deles é americana mas não interessa. Todo o cinema americano deve ser metido no mesmo saco (com honrosas excepções: David Lynch e Woody Allen antes de se terem vendido ao capital, por exemplo). Não há cá “cinema independente” nem “blockbusters.” Bons filmes ou maus filmes. Tudo é igualmente mau e americano (são sinónimos). Se algum não-godá mais afoito pedir explicações, diz-se-lhe que o cinema americano é mau porque é comercial. A seguir, foge-se a correr para não ter de ouvir os argumentos dele de que este argumento é uma imbecilidade. Além disso, os americanos não merecem mais depois daquilo que fizeram no Iraque e no Afeganistão. Os porcos.

3-Discurso

O discurso do godá genuíno é um verdadeiro trabalho de patchwork verbal. Nos primeiros anos de godázice, poderá haver uma tendência motivada pela falta de experiência para dizer coisas que são resquício de alguma actividade cerebral própria muito ligeira. Com o tempo, o godá aprende que, com tanta gente a dizer coisas importantes, significativas, mordazes e bem pensadas ao longo da história da humanidade, é uma grande presunção pensar que alguma coisa que possam pensar por si próprios poderá conseguir ter mais interesse. Resta optar entre citações devidamente identificadas e citações obscuras retiradas de jornais e revistas ou ouvidas de passagem. A opção fica ao critério de cada godá.

4-Expressão

O godá não se limita a ser um apreciador de manifestações artísticas alheias. É ele próprio um artista multifacetado, dando especial importância às artes maiores do ponto de vista da produção artística godá: a poesia e a fotografia. A predilecção por estas duas formas de expressão deve-se a motivos essencialmente pragmáticos. Fazer cinema, pintar, cantar ou mesmo escrever prosa exige um conjunto de requisitos a priori e um certo nível de esforço que o godá não pode despender porque tem coisas melhores em que ocupar o seu tempo precioso. Para a fotografia e a poesia, basta ter acesso a uma máquina fotográfica e a um qualquer suporte de escrita digital ou analógico. Os resultados serão posteriormente expostos para apreciação de outros godás em blogs (godá que se preze tem de ter um blog, se se prezar mesmo muito, tem um livejournal) e podem mesmo chegar até ao grande público graças ao “empurrãozinho” de um godá amigo/conhecido com os contactos certos.

5-Convívio

O godá é auto-suficiente. Mas não deixa de ser um animal social e, como tal, precisa de conviver com outros godás para se sentir realizado. Os ajuntamentos godás dão-se em locais que podem ir de estabelecimentos de diversão nocturna, galerias de arte, livrarias, salas de cinema, concertos, cafés ou qualquer recanto mal iluminado e cheio de fumo com um ar prazenteiro para albergar tertúlias. Nesses encontros, cada godá debita os novos conhecimentos que adquiriu nos dias anteriores (esforçando-se ao máximo para dar a entender que se trata de algo que já sabe há muito), recomendam-se e trocam-se livros, cds e dvds, fumam-se cigarros, bebem-se cafés e cada godá tenta parecer o mais natural possível, ao mesmo tempo que vai pensando que a godázice dos outros não passa de pose e que só a sua é legítima.

E é esta a essência do godá. Muito mais haveria para dizer mas, por motivos de tempo, vejo-me forçado a ficar por aqui. Há um ciclo muito bom na Cinemateca subordinado ao tema “François Truffaut e cuecas de renda-uma relação intempestiva” e, se chegar atrasado já não apanho brochuras.

Contribuições para uma taxinomia do godá.