Contribuições para uma Taxinomia do Godá

Contrariamente ao que se possa pensar, o godá (para mais esclarecimentos sobre o godá, ler isto) não é criatura única, conhecendo várias variantes que encaixam na grande e abrangente categoria da godacidade universal. Qual lémure de Madagáscar, o godá tem também subespécies que se revestem, cada uma, de características únicas que permitem distribuí-las pelos diversos ramos sem perder a essência comum às diversas variantes. Claro está que não se trata de categorias absolutas e os híbridos são possíveis e bastante frequentes.
Passemos a enumerar de forma breve as subespécies mais facilmente observáveis à vista desarmada.

O godá porreiro: Talvez o tipo de godá que mais facilmente desperta a simpatia dos seres humanos, podendo inclusive ser o de mais fácil domesticação. Infelizmente, a raridade do godá porreiro impossibilita quaisquer sonhos de venda em massa por lojas de animais de estimação. À primeira vista, nada distingue este godá do godá comum. É necessário uma observação mais próxima para notar que se trata de um godá perfeitamente consciente da sua condição e que não faz qualquer esforço para a negar. Ao invés, recebe com boa disposição os comentários feitos a respeito dela e presta-se a responder a questões que esclareçam o cidadão comum acerca da fascinante natureza godá, dando um contributo inestimável para uma avaliação científica. Infelizmente, como já se disse, o godá porreiro está praticamente extinto e subsistem muito poucos exemplares.

O godá sazonal: O godá sazonal (ou “falso godá”), de acordo com muitos teóricos, não é um godá legítimo. Isto explica-se pelo facto de hoje poder ser godá, amanhã dedicar-se à causa do rock industrial, no dia seguinte sair do armário e assumir a sua homossexualidade militante para, dois dias depois, voltar a ser godá (até descobrir uma vocação para o surf durante um fim-de-semana na Ericeira). Esta inconstância é devida a um défice mental nos godás deste tipo que gera um fenómeno que poderemos descrever como “nomadismo influenciável” pelo modo como a mudança de um campo para o outro é motivada pelas pessoas que o godá vai conhecendo e pela preferência que vai dedicando a uns ou a outros.

O godá fundamentalista: O mais agressivo de todos os godás mas sem perigo porque, essencialmente, o godá é um animalejo inofensivo. A agressividade manifesta-se no modo impetuoso como defende a sua condição com unhas e dentes, podendo chegar ao ponto de tentar endoutrinar terceiros para que estes se transformem também eles em godás e, possivelmente, em discípulos seus (o godá fundamentalista gosta de ter seguidores e de ser visto e apontado como exemplo). Dentro do subgénero dos godás fundamentalistas, nas raras ocasiões em que a defesa dos ideais godás é levada às últimas consequências (vulgo “chapada”), o godá fundamentalista metamorfoseia-se em godá mujahedine.

O godá de cobrição (unissexo): Como qualquer outro animal, o godá tem preocupações de índole reprodutiva, dedicando uma parte significativa da sua vida à procura de uma companheira com quem possa assentar e trazer ao mundo novos godás (apesar de, como se sabe, a godázice não ser hereditária, podendo, no entanto, ser influenciada pela educação). No entanto, há godás que se tornam godás movidos apenas por intuitos sexuais. São os godás de cobrição e, apesar de a designação poder sugerir o contrário, podem ser de ambos os sexos. O godá de cobrição começa por ser um humano sexual e afectivamente frustrado, pouco confiante nos seus atributos e personalidade. O bicho da godázice manifesta-se como esperança na aquisição de uma personalidade alternativa que transforme o agora recém-godá num ser apelativo para o sexo oposto (ou não, dependendo dos gostos de cada um). Trata-se de um godá predador que escolhe para vítimas ou godás mais jovens e inseguros ou humanos adolescentes fascinados pela sua bela pelagem e interessados também eles em assumir uma faceta godá. Na maior parte dos casos, as vítimas de um godá de cobrição acabam irremediavelmente por se tornar também godás, levando alguns a estabelecer um paralelo com o vampirismo.

O godá fashion/design: O godá fashion e o godá design são duas subespécies muito próximas e que, muitas vezes, se fundem numa só. De qualquer forma, a bem do rigor científico, será feita a descrição de cada uma de forma isolada. O godá fashion caracteriza-se por um afastamento dos padrões de roupagem característicos dos restantes godás, trocando a bombazine, os cachecóis e o borboto por fatos completos de veludo em cores “alternativas” e vestidos vintage de corte vietnamita. Note-se, no entanto, que este traje formal godá não corresponde ao traje formal humano e, mesmo um godá fashion, não deixará nunca de ser facilmente identificado em toda a sua godázidão. Quanto ao godá design, reconhece-se pelo comportamento característico de recolha de objectos passíveis de impressionar o próximo pelo arrojo de linhas e que amontoa no ninho por motivos que a ciência desconhece.

O geekodá: Um dos traços distintivos do godá é o seu desprezo por tudo que classifica como “comercial” ou “mainstream.” O geekodá, uma variante muito peculiar, tem uma interpretação muito própria deste traço comportamental. Não procura o que escapa às massas. Em vez disso, sobrepõe-se a elas, parte do gosto comum e vai subindo por uma escada imaginária, ao longo da qual vai descobrindo versões alternativas, autores alternativos, versões e autores desconhecidos, versões originais, autores malditos (etc) e prestando-lhes o culto devido em moldes que chegam a ser obsessivos. O geekodá poderá também assumir publicamente que aprecia elementos “mainstream” mas com a convicção de que a sua apreciação destes é sempre a única correcta.

O freakodá: À primeira vista, o freakodá não parece um godá. Tem vestuário e hábitos distintos nos quais prevalecem as roupas multicoloridas, gastas e remendadas, as missangas, os andrajos feitos pela própria mão, os cabelos emaranhados e também multicoloridos (não há dois freakodás exactamente com o mesmo corte de cabelo), os ajuntamentos de rua, a venda de bijutaria artesanal e a dedicação às actividades circenses que substituem por completo a fixação do godá comum pelo cinema, pela literatura ou pela música. Mas a verdade é que, se os comportamentos são diferentes (e são-no de facto), é inegável que a motivação por trás deles, a mesma vontade de dar nas vistas por uma diferença forçada e de fazer parte de uma elite (quer seja uma elite cultural fictícia ou uma elite composta por iluminados que sabem que o verdadeiro sentido da vida consiste em fumar “brocas” e fazer malabarismo), dificilmente poderia ser mais godá. Há relatos de que alguns freakodás são capazes de cuspir fogo mas nunca foram confirmados. Quando um freakodá substitui o interesse pelas artes circenses por preocupações ambientalistas, passa a ser um ecodá.