Renato Carreira – o autor

O homem

A origem

A carreira académica

A carreira militar

O regresso, o sucesso profissional e as meias de estilo

O futuro

O mito

A devoção



O homem

Muito se tem dito e escrito sobre Renato Carreira ao longo dos tempos. Quase sempre pelo próprio mas, uma vez por outra, também por terceiros. Gente intrigada pelo homem que se esconde por trás da máscara. Gente que passa noites em claro a tentar perceber como será possível alguém perder tempo a escrever parvoíces quando deveria estar a trabalhar a sério, dando um contributo válido para manter Portugal no pelotão da frente dos países do magrebe. Após anos de anonimato guardado de forma ferrenha, a verdade (toda a verdade e não muito mais do que a verdade) será finalmente revelada na “HISTÓRIA DE RENATO CARREIRA.” Começa assim…



A origem

Filho de seus pais, Renato Carreira nasceu no século XX precisamente no dia em que fazia anos, sendo esta a primeira de muitas coincidências assombrosas que só podiam prenunciar um futuro grandioso. Aprendeu sozinho a andar, a falar e a fazer bolhas de saliva com a boca, revelando o espírito autodidacta que tão útil lhe seria mais tarde. O primeiro par de meias foi-lhe oferecido por uma tia com conhecimentos na indústria têxtil. Eram umas Conrado de puro algodão egípcio 100% de 1977 (vintage) que hoje se encontram expostas no Museu Nacional de Arte Antiga por trás dos painéis de São Vicente, cuja autoria (dos painéis, não das meias) é atribuída a Nuno Gonçalves.
Com a tenra idade de cinco anos, escreveu “Os Maias” de Eça de Queirós e “Os Miseráveis” de Vítor Hugo numa tarde de Agosto. Felizmente, a falta de qualidade dos lápis de cera aliada ao tipo de papel usado nos livros permitiu que as páginas fossem lavadas, restaurando-se cerca de 87% do texto original de cada uma das obras.



A carreira académica

Matriculado na escola primária com a idade regulamentar exigida por lei, foi-lhe dada a possibilidade, anos depois, de se candidatar ao ensino superior, tendo sido admitido no prestigioso Real Instituto de Ciências Ultramarinas de Catmandu para um curso de cinco anos de etnomusicologia que concluiu com aproveitamento e usando sempre o mesmo par de meias (umas Sport de raquetes cruzadas com listas azuis e vermelhas de algodão extra-virgem) que ia lavando ocasionalmente. Posteriormente, fez uma especialização em medicina ginecológica e impressionou o corpo docente com a magnífica tese de mestrado subordinada ao tema “O canto coral flamengo e a reconstrução da flora vaginal,” mais tarde adaptada ao cinema sob o título “Flemish Corals and the Reconstruction of the Vaginal Flora II-Payback Time” com Kim Basinger no papel de Mary Jane e Dustin Hoffman como Falópio. A adaptação para teatro radiofónico feita pelos Parodiantes de Lisboa em 1984 não conheceu grande sucesso pela rouquidão extrema do protagonista.
O tempo recorde em que conseguiu formar-se permitiu-lhe passar os anos seguintes da sua juventude a conhecer o mundo e a familiarizar-se com culturas diversas, das savanas africanas aos grandes desertos, das pradarias americanas às selvas equatoriais, dos recifes de coral à Costa da Caparica.
Em 1993, tornou-se o primeiro discípulo ocidental do célebre guru indiano Raharishi Peshwari Nan e distinguiu-se pela compreensão perfeita do ciclo das reencarnações de Vishnu e da arte de fazer roupa a partir de trapos de algodão. No entanto, a visão hindu do mundo e o facto de o clima indiano ser pouco propício ao uso de meias fizeram-no voltar a mudar de ares.



A carreira militar

Em 1994, vestindo um impressionante par de meias verde-tropa em lã acrílica que lhe davam pelo joelho, ruma ao Peru, aceitando o cargo de Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas daquele país sul-americano. Em apenas alguns meses, opera uma reestruturação integral do exército peruano, tornando-o num dos mais modernos da região mas não sem enfrentar alguns dissabores como a oposição de generais retrógrados que insistiam na necessidade das quadrigas, facto a que talvez não fossem alheias as ligações familiares de muitos deles à indústria carroceira, muito difundida em todos os países dos Andes. Em meados de 1995, Renato Carreira usa os seus dotes de diplomata para impedir uma guerra sanguinária entre o Peru e a Síria motivada por uma piscadela de olho do embaixador sírio em Lima dirigida ao filho adolescente do ministro dos Negócios Estrangeiros. Chamando a atenção para os elevados custos militares e financeiros de uma guerra com um país tão longínquo quando tinham outros ali à mão de semear como a Bolívia ou o Equador, conseguiu que os dois países assinassem um acordo que ficou para a história como “Tratado do Bom Senso”, comprometendo-se o embaixador sírio em apresentar um pedido de desculpas oficial à família do ministro e a levar ramos de flores ao filho adolescente, convidando-o para sair durante uns meses antes de passar à fase da piscadela de olhos propriamente dita. Realizado militarmente, regressa a Portugal onde fixa residência. Do Peru traz uns collants de lã de alpaca tecidos à mão pelos nativos e que ainda hoje guarda com saudade.



O regresso, o sucesso profissional e as meias de estilo

O ano era 1996 e Portugal vivia dias eufóricos com a aproximação da Expo 98, o maior evento internacional organizado até à data no nosso país, pelo menos desde o grande congresso europeu de castradores de caracóis de 1931. Recém-chegado do périplo global, e sem conseguir resistir ao desafio, oferece os seus serviços à comissão responsável pela exposição mundial e, de imediato, o seu talento é notado. Foi graças a ele que o tema da exposição passou a ser “os oceanos” em vez de “a diarreia e o seu papel na expansão europeia dos séculos XIV e XV” proposto pelo sobrinho mongolóide de um secretário de Estado da altura. A exposição foi um sucesso e Renato Carreira estava lançado. Seguiram-se várias propostas de trabalho, todas avaliadas com a consideração devida. Entre as mais sonantes, um convite para chefiar a Igreja Católica Apostólica Romana como “papa de sombra,” cabendo-lhe orquestrar uma renovação da instituição que a tornasse mais apelativa aos jovens e arranjar uma justificação para o fim do celibato (porque tanto tempo sem molhar o santo pincel em água-benta é dose), ou um outro convite para pilotar a primeira missão tripulada da humanidade ao planeta Marte em parceria com um chimpanzé poliglota, uma catatua com bacharelato em restauro de azulejo e duas osgas comuns, uma a meio de um curso de engenharia de sistemas e a outra analfabeta mas muito honrada.
Seguiu-se uma época de grandes desafios, maiores sucessos e meias fabulosas. As primeiras, e quiçá as mais célebres, foram umas Argyle cinza de losangos azuis com certificado de autenticidade da Finchler & Wordsmith’s Providers of Fine Socks since 1786 by appointment to His Royal Highness, the Duke of York, os mais antigos e conceituados fabricantes de meias da Europa.
Apesar das inúmeras propostas, Renato Carreira preferiu aproveitar melhor o seu tempo, dividindo-o entre a classificação da sua colecção de meias, na altura já uma das mais completas do mundo, e vários biscates ocasionais que ia fazendo para passar o tempo e que entendesse contribuírem para a sua realização pessoal. Em 1999, descobriu o arquipélago das Comores, conjunto de ilhas do Oceano Índico, atrás de um móvel de estilo num antiquário de Lisboa. As ilhas tinham sido perdidas em 1983 quando o então ministro dos Negócios Estrangeiros fazia uma visita oficial à Europa, trazendo o diminuto arquipélago escondido no fundo da pasta com o objectivo secreto de permitir às Comores entrarem para a C.E.E. Graças à descoberta, foi agraciado com a Ordem da Grã-Cruz de Coqueiro e Chinelo, a mais alta distinção conferida pelas Comores. Alguns meses depois, concebeu um arrojado plano de restauro das pirâmides de Gizé que consistiria em revestir os monumentos a azulejo de casa-de-banho de fabrico português com motivos de hortaliça combinados com mulheres nuas roliças e que iria proteger as milenares estruturas da acção dos elementos. O plano acabaria por ser rejeitado pelo governo egípcio devido a influências estranhas ao processo negocial. Em 2001, inventou a língua búlgara a partir de um livro de anedotas de alentejanos e ofereceu o idioma à república da Bulgária, permitindo a cerca de sete milhões de búlgaros poderem exprimir-se oralmente em vez de por intermédio de um conjunto arbitrário de grunhidos e gestos vagamente obscenos, como tinham feito em toda a sua longa existência enquanto povo. Como contrapartida, apenas pediu que a cidade costeira de Varna passasse a ser um santuário ecológico dedicado à conservação do malogrado elefante europeu, o maior paquiderme do planeta quase extinto graças a uma caça intensiva e à utilização das presas para fabricar os glutões presentes numa determinada marca de detergente para a roupa. O último projecto em que Renato Carreira se envolveu foi a tentativa de recriar a experiência do célebre doutor Frankenstein e criar um ser humano inteligente e autónomo a partir de restos de cadáveres, tarefa em que teve o precioso auxílio de uma série de médicos conceituados e do cançonetista popular Quim Barreiros. O resultado foi o apresentador televisivo José Figueiras. Visto tratar-se de alguém que não tem problemas em reconhecer que errou, Renato Carreira apresentou um pedido de desculpas formal, reconhecendo o fracasso e prometendo não mais voltar a tentar.



O futuro

Como qualquer um de nós, também Renato Carreira tem planos para o futuro. Entre eles, está a inauguração em breve da Casa Museu Renato Carreira em Figueiró dos Vinhos onde estará patente ao público a colecção de meias bem como o restante espólio pessoal em que se destacam peças como um jarrão Ming autêntico, um faqueiro de cobre que pertenceu a el-rei D. João VI (ainda com restos de comida) e o bigode de Artur Jorge. Outros planos incluem a promoção de novas invasões bárbaras dirigidas contra a União Europeia por pura maldade, aguardando-se apenas a conclusão das negociações com os povos extra-comunitários interessados em participar (sabe-se que arménios, tunisinos, bielo-russos e cabo-verdianos já deram o sim à iniciativa); desenvolver uma nova arma mais potente do que a bomba nuclear à base de conservas de feijão e que será entregue a países sensatos como o Liechtenstein, São Marino, a Ilha Maurícia ou Tuvalu de forma a tornar a Terra um sítio melhor para viver; ou reescrever a Enciclopédia Luso-Brasileira com notas de rodapé que reporão a verdade dos factos e colocarão os pontos nos is (contrariamente ao que muita gente pensa, a nabiça é um pequeno animal anfíbio e não um vegetal.) Para breve, está também a sua primeira participação num filme como actor, mais precisamente na adaptação cinematográfica dos “Estrumpfes” de Peyo, interpretando todos os estrumpfes à excepção do Grande Estrumpfe (Sean Connery) e da Estrumpfina (Michelle Pfeiffer). O papel do Gasganete ficará a cargo de Robert de Niro.



O mito

O secretismo que tem rodeado a figura de Renato Carreira deu azo a uma série de boatos e estórias com maior ou menor teor de verdade. Diz-se, por exemplo, que é capaz de estar presente em dois sítios diferentes ao mesmo tempo. Ora, é verdade que é capaz de estar presente em dois ou mais sítios diferentes mas em espaços de tempo diversos. Diz-se que é pai de toda a população da Noruega, o que não passa de uma falsidade vil visto que apenas cerca de 37% dos noruegueses consegue provar de forma mais ou menos fiável a sua paternidade. Há quem acredite que não é humano, mas sim a personificação de um antigo demónio sumério de nome Zilugarit mas o gosto que tem pelo consumo de amendoins prova a sua humanidade (é sabido que as divindades costumam preferir o tremoço). Também se diz que o cantor José Cid é fruto da sua imaginação e não passa de um fantoche em tamanho real manipulado por uma troupe de anões saltimbancos argelinos. Esta é verdade.



A devoção

Qualquer pessoa pode prestar culto à figura de Renato Carreira, descendente em linha directa do profeta Maomé, encarnação de Vixnu e, em breve, o primeiro santo canonizado em vida da Igreja Católica. Para tal, basta que haja uma crença convicta e fé na sua natureza divina. No entanto, para que exista uma certa uniformidade no culto, necessária a todas as religiões organizadas, aqui ficam alguns princípios básicos que deverão ser observados.

-É necessário que haja uma fé cega nos poderes sobrenaturais de Renato Carreira e nos milagres que já realizou graças a eles. Entre os mais celebrados e merecedores de devoção estão a cura de um cego operada no Quénia, a cura de um paralítico argentino, a multiplicação das doses de cocaína num bacanal toxicodependente na Colômbia ou a cura de um estúpido na Austrália que hoje é professor de Filosofia Medieval na Universidade de Melbourne.

-Periodicamente, o crente deverá despojar-se das suas roupagens e dançar nu em torno de uma fogueira ao som de um dos muitos êxitos dos suecos ABBA. Este ritual deverá realizar-se de noite e de forma discreta para não atrair atenções de gente maldosa e não perturbar os não-crentes.

-É expressamente proibida a utilização de postas de peixe para fins de gratificação afectivo-sexual.

-Cuspir para o chão é feio.

-Qualquer tentativa de lamber o próprio cotovelo será punida severamente com um banho em calda de tomate aquecida temperada com cravinho, pimenta e com um anão rabugento chamado Tobias.

-É proibido proferir a palavra “que” que será sempre substituída pela palavra “perífrase” no discurso corrente.

-Abdicar do uso de meias não é higiénico e revela falta de civismo.